Valorizar a Defesa Nacional

É tempo de a sociedade brasileira amadurecer para reconhecer a importância da Defesa Nacional. Tal amadurecimento não pode mais ser lento, embora dificultado pela insuficiência do nível educacional médio, o que aumenta as responsabilidades de liderança por parte das elites intelectuais formadas nos estudos superiores, nas pesquisas e na análise dos ambientes nacional e internacional.

Valorizar a Defesa Nacional

Mauro Cesar Rodrigues Almirante-de-Esquadra (Ref)

Introdução

Este artigo foi escrito considerando sua divulgação ao ensejo de encontro sobre Defesa Nacional com a presença de jovens brasileiros a quem se deseja mostrar como é importante valorizar o tema.

Já longe da juventude, o autor tentará temperá-lo com muito de experiência vivida, mas com referências a maneiras de ver dos jovens, mesmo com o risco de não acompanhar a informalidade do linguajar atual.

Somos um povo jovem! Assim se dizia aos moços naquele tempo e a tanto se atribuía toda a desculpa para nossos atrasos e desvantagens em relação ao progresso observado Mundo afora.

Se em número de anos de formação de nossa nacionalidade éramos realmente jovens, quando comparados a outros, já nos enquadrávamos em um contexto global competitivo, como é da natureza humana, que nos obrigaria a amadurecer mais rápido, a acelerar nossos ritmos, sob pena de nos contentarmos em obedecer aos ditames alheios, a desfrutar, apenas, daquilo deixado por eles a nosso dispor.

A rigor, embora pessoalmente os jovens já observem que a maturidade pode e precisa ser alcançada mais cedo, coletivamente parece que o povo brasileiro continua a viver o mito de sermos “uma nação jovem”. Sobre isto precisamos meditar.

Defesa Nacional

Já tivemos no passado a consciência de nossa importância. Primeiro, sob o enfoque dos colonizadores que, para preservá-la, cuidavam da defesa com imaginação e denodo. Depois, pelos estrategistas que consolidaram a independência, defendendo com muita sabedoria a integridade nacional, algo bem mais amplo do que a mera posse territorial.

Contudo, fomo-nos deixando vencer pelo comodismo da “nação jovem”, descuramos da educação do povo e permitimos a propagação do baixo nível cultural pela sociedade, responsável pelo atraso relativo de todo o desenvolvimento.

Junto àquele mito, crescia outro, talvez acreditando que a “nação jovem” usufruiria da “ingenuidade infantil’ e, portanto, receberia o respeito eticamente concedido às crianças, a quem se preserva dos maus tratos por princípios humanitários. Graças à boa índole coletiva do brasileiro, o corolário de tal sentimento leva muitos a defenderem a idéia de que não “temos inimigos”, como justificativa a não precisarmos ter preocupações com defesa.

Mas temos interesses fortes como lembrado em artigo publicado na Revista Marítima Brasileira (1):

“… pois grandes são os nossos interesses. Não se podem olvidar os seguintes fatores brasileiros, dos mais expressivos em contexto mundial:

– a imensidão das áreas geográficas terrestre e marítima,

– a pletora de recursos naturais,

– a dimensão populacional, caracterizada pela pacífica convivência multi-racial, pela constante miscigenação e pela riqueza de cultura,

– as capacidades da pecuária, da agricultura e da indústria e vários outros mais.”

Esses interesses precisam ser protegidos, pois crescem e, com menor ou maior brevidade, conflitarão com interesses de outrem e terão de ser defendidos. É válido recordar aquilo que, em tenra idade, sempre ouvira a respeito da tardia “colocação de ferrolhos nas portas e janelas depois da casa arrombada.” Tal conselho nada mais recomendava que, sem agredir ou provocar ninguém, era apropriado cuidar de nossa defesa para dissuadir os possíveis atacantes e cobiçosos, ou lhes negar sucesso, acaso atentassem contra nós.

É tempo de a sociedade brasileira amadurecer para reconhecer a importância da Defesa Nacional. Tal amadurecimento não pode mais ser lento, embora dificultado pela insuficiência do nível educacional médio, o que aumenta as responsabilidades de liderança por parte das elites intelectuais formadas nos estudos superiores, nas pesquisas e na análise dos ambientes nacional e internacional.

Inserção Internacional

Na fase adulta, qualquer pessoa tem a prerrogativa de aspirar um lugar dentre aqueles responsáveis pelas decisões na sociedade, tão mais influente quanto forem suas capacidades efetivas, mas limitadas por suas deficiências. Os jovens já experimentaram tal situação em seus grupos de convivência.

Há quase completo paralelismo no contexto das nações. Consequentemente, possuidor de elementos naturais de poder destacados, o Brasil não só tem o direito de desejar pertencer ao grupo decisório, como, em verdade, obrigação de aí fazer-se presente.

O país não pode abdicar de assumir a liderança em sua região, para agir em favor de seus pares, sem lhes causar constrangimentos. Não obstante, sua posição ficará demasiadamente enfraquecida se lhe faltar o componente de defesa no valor compatível com sua verdadeira grandeza.

Essa constatação é fácil para os estudiosos de história, estratégia e relações internacionais, que reconhecem, inclusive, o valor do emprego do Poder Militar com finalidade diplomática.

Formulação de Política e Estratégias de Defesa

Inegavelmente há progressos notáveis nas últimas décadas com o surgimento de núcleos de estudos estratégicos ou de defesa em diversas universidades, com o aumento de encontros para debates de idéias neste campo, com o maior envolvimento, embora ainda modesto, da imprensa e da classe política e com iniciativas governamentais pioneiras (registrem-se a Política de Defesa Nacional de 1996, sua revisão em 2005 e a Estratégia Nacional de Defesa de 2008).

Entretanto, ainda é muito pouco. Além do mais, há distorções comprometedoras causadas pelas intromissões ideológicas inapropriadas, pelo excesso de vaidade de parte de alguns partícipes do processo, dotados de conhecimento incompleto sem disso se darem conta, pelo vício de querer replicar soluções estrangeiras mesmo sem compreendê-las em seu próprio ambiente de origem e sem adequá-las ao ambiente local, se válidas. Há, também, o mau hábito, de cunho burocrático, de aceitar que a edição de leis, regulamentos e normas, sem o correspondente respaldo no conhecimento derivado de práticas e experimentações reais, possa trazer a solução de problemas.

Na formulação de política e estratégias dela decorrentes torna-se imperioso a observância de metodologia de análise, que conduza à síntese de seu enunciado ou suas estipulações.

Por exemplo, há de se identificar, liminarmente, quais os verdadeiros interesses nacionais a serem defendidos e suas importâncias relativas, submetendo-os a uma descrição precisa, prosseguindo com a identificação das ameaças passíveis de os afetarem e das possíveis entidades capazes de as perpetrarem, deflagrando o conflito. A seguir, devem ser criteriosamente examinadas nossas capacidades e vulnerabilidades para, então, aceitar um tipo de comportamento definido como política.

Ao passar à fase das estratégias, os mesmos pontos anteriormente enumerados devem ser revistos em detalhes, sempre que possível dimensionando-os, para, em sequência, selecionar os elementos de poder envolvidos com a defesa, traçar caminhos para seu preparo e escolher a forma de os dispor.

Válida e por tudo desejável é a participação de atores oriundos dos vários setores da sociedade, inseridos no cumprimento da metodologia adequada, para a determinação dos propósitos e resultados das estratégias. No entanto, há que reconhecer e aceitar haver diversos aspectos atribuíveis, com exclusividade, a profissionais de áreas específicas, tal como na escolha de soluções militares. Isto é, na expressão dos jovens, “manter cada macaco no seu galho”.

A falta de consciência plena sobre a necessidade de observar tal metodologia leva a assumir como universalmente sabidos os interesses vitais do país, embora cada indivíduo envolvido com o problema tenha sua própria percepção e lute para a tornar vitoriosa, não raro furtando-se à discussão isenta dos pontos de vista. A situação se agrava porque as soluções estratégicas assim escolhidas não se baseiam em corpo sólido de análise, podendo, inclusive, incorporar estipulações irrealizáveis em razoável horizonte de tempo ou econômico, ou mesmo desviarem-se do que seja verdadeiramente estratégico, voltando-se para a montagem de discutíveis estruturas de gestão.

Exortação aos jovens brasileiros

Conduziu-se, acima, a discussão de tópicos basilares em relação à valorização da Defesa Nacional, tendo como propósito introduzir uma exortação esperançosa aos jovens brasileiros.

O Brasil já é uma nação adulta e precisa agir com maturidade em todos os sentidos. Cabe aos jovens assumirem tal postura e cobrarem da classe política as ações imediatas para eliminar, a curto prazo, as deficiências educacionais e culturais de parte significativa de nossa sociedade.

Junto a isso virá a consciência da essencialidade de se dar atenção acurada à Defesa Nacional para preservar nossos valores e conquistas, bem como completar o espectro dos elementos de poder compatível com as dimensões do país, sem a pretensão de afrontar ninguém.

Desde logo precisa-se trabalhar firme para montar o adequado instrumental de defesa, precário no atual estágio. Ao fazê-lo, assumir pensamento elevado, pautado tão somente pelos interesses nacionais genuínos, sem concessões a dogmatismos ideológicos, a posicionamentos partidários ou de quaisquer grupos. É empreitada árdua, que exige preparo de seus formuladores e executores, enquanto abomina o amadorismo primário, travestido com falsas máscaras de conhecimento.

Juventude brasileira! Batalhe por essa vitória!

Publicado pela Revista Marítima Brasileira (RMB – v. 1.30 n.04/06 –abr/jun2010),

Nota: (1) Pensamento Estratégico e Defesa Nacional –  Artigo do autor destas notas publicado na Revista Marítima Brasileira v.128, n.10/12 – out/dez 2008

Gerson Bastos

Gerson Bastos é um desenvolvedor de sites especializado na plataforma open source Wordpress. Trabalha com desenvolvimento de sites desde 2007 e atua principalmente em Brasília-DF. Email: gerson@gersonbastos.com.br

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