UTI ambiental: diagnóstico da água I

Pantanal

 

No artigo publicado no dia 07/05/2013, em que propus a ideia de montar uma UTI virtual para tratar de assuntos ambientais, terminei deixando um gancho para análise do recurso água, dizendo que a sua ocorrência ou não em determinada área está condicionada ao desenvolvimento do ciclo hidrológico e da circulação atmosférica. Vamos ao diagnóstico pertinente.

 

A água está constantemente ao nosso redor, na forma líquida, sólida ou de vapor. Mesmo quando olhamos em volta e não vemos nada parecido com água, ela estará presente; pode até ser em pequenas quantidades, mas se estamos respirando é porque há ar disponível e se há ar ele sempre conterá algumas moléculas de água na forma de vapor.

 

A água é brincalhona, gosta de aparecer e sumir de nossas vistas; também de nos pregar peças desagradáveis, muitas vezes, como se estivesse protestando contra a nossa falta de habilidade de lidar com ela.

 

A água na Terra está em armazenamentos e em movimentos de um armazém para outro. Felizmente os armazéns têm características de almoxarifados, ou seja, recebendo e entregando mercadorias. Às vezes a estocagem é por períodos mais longos, como no caso das geleiras ou dos reservatórios subterrâneos mais profundos, confinados entre camadas rochosas.

 

Mas pode, também, ser por períodos curtos, em reservatórios naturais ou artificiais, por exemplo, sujeitos a altas taxas de evaporação. O aparecimento e o desaparecimento pode ser resultado de fenômeno natural ou de atividade humana.

 

Todas essas andanças e descansos da água estão contidos no ciclohidrológico; aquele que já vimos muitas vezes nos esquemas publicados em livros didáticos e em obras científicas, ou seja, ele transita bem tanto no meio ambiente da Terra, quanto nas figuras de páginas diversas.

 

Entendê-lo bem é a condição primeira para a compreensão dos excessos e ausências de água em determinados locais ou regiões. Se o leitor não tem um ciclo hidrológico na memória, e se tiver ficado curioso para saber do que se trata, basta ir ao Google e solicitar imagens do mesmo.

 

Há inúmeras alternativas de representação, com mais ou menos detalhes. Vai encontrar, também, inúmeros textos explicativos das várias fases do ciclo hidrológico. Mas tanto as figuras como os textos mostram o trânsito da água entre os armazéns terrestres, como geleiras, aquíferos e lagos, oceânicos e atmosféricos.

 

Os movimentos entre eles se dão, principalmente, por evaporação e por cursos d’água. Há, ainda, movimentações dentro dos próprios armazéns, pois moléculas de água escoam pelos aquíferos e se movimentam nos oceanos, nos lagos e na atmosfera.

 

O mais importante meio de movimentação da água na terra é o atmosférico. A água evaporada dos almoxarifados pode alimentar precipitações em regiões distantes dos pontos de evaporação. E aí entra a circulação atmosférica como fator fundamental.

 

Exemplos são as zonas de convergência, muito citadas nas previsões de tempo da televisão, como a do Atlântico Sul, que acaba trazendo vapor d’água originado na Amazônia para ser precipitado na região Sudeste.

 

Já o Semiárido, da região Nordeste, sofre tanto pela falta de evaporação local (pouco armazenamento), como pela falta de correntes de ar que levem vapor d’água do oceano Atlântico para até aquelas áreas interioranas.

 

E como qualquer movimentação exige energia, o sol supre as demandas evaporativas, as diferenças de pressão e a rotação da Terra, criam correntes de ar para transporte de vapor e a gravitacional o fluxo dos cursos d’água.

 

O desconhecimento ou o abandono do ciclo hidrológico é que faz com que estejamos sempre bombardeados pela ideia de que uma nascente ou um rio pode ser mantido apenas com a proteção de pequenas faixas de seus entornos.

 

Tal conceito é uma perigosa tendência de simplificar um fenômeno natural bem mais complexo. E quando ele é repassado para alunos de cursos fundamentais, então, a coisa fica muito mais grave. Precisamos ter cuidado com aquelas belas imagens de alunos plantando árvores às margens de rios.

 

É preciso dar a elas o verdadeiro significado ambiental e não vender apenas desejos não embasados no ciclo hidrológico. Rios, córregos, ribeirões, riachos e outras denominações regionais são frutos da bacia hidrográfica e do ciclo hidrológico que nela se desenvolve.

 

Em tempo

 

O leitor pode estar achando que teria sido mais fácil se eu tivesse colocado um esquema de ciclo hidrológico, com a respectiva descrição. Talvez, mas isso já pode ser facilmente encontrado em busca na internet, como já indiquei, e a intenção, com os artigos da série “UTI ambiental”, é provocar a curiosidade dos que se interessarem pelos temas.

 

No caso, eles poderão, pelo menos, rabiscarem um esboço dos caminhos da água, que está sempre brincando de esconde-esconde.

 

Artigo de Osvaldo Ferreira Valente – engenheiro florestal, especialista em hidrologia e manejo de pequenas bacias hidrográficas, professor titular, aposentado, da Universidade Federal de Viçosa – UFV  e autor de dois livros recém-publicados:

 

“Conservação de nascentes – Produção de água em pequenas bacias hidrográficas”e “Das chuvas às torneiras – A água nossa de cada dia”; colaborador e articulista do EcoDebate. valente.osvaldo@gmail.com

 

EcoDebate, 24/05/2013

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