Tinha tudo para dar certo

Na metade de seu segundo mandato, em 2008, o presidente Lula previu que o Brasil se transformaria em uma “Arábia Saudita” verde, uma superpotência em energia renovável. Eram tempos em que o Cristo Redentor aparecia decolandona capada revista britânica The Economist. Em setembro do ano passado, a mesma revista publicou em sua capa o Cristo Redentor despencando e o título perguntava: “O Brasil estragou tudo?”.

 
Da mesma forma, o sonho da Arábia Saudita verde está se tornando um pesadelo. Este ano, entre 10 e 12 usinas podem fechar e 33 estão em recuperação judicial, dos quais 14 em São Paulo. As usinas estão endividadas, o que reduziu a capacidade de investimentos e consequentemente a produtividade. Além disso, a quatro safras o setor enfrenta problemas climáticos. Mas o pior inimigo vem do próprio governo, que para não impactar a inflação, vem concedendo subsídios à gasolina, afetando negativamente o setor de etanol e também a Petrobras, que compra gasolina a preços internacionais e vende mais barato no mercado interno.

 
Para explicar tudo o que vem ocorrendo com este setor, Elizabeth Farina, presidente da UNICA (União da Indústria de Cana-de-Açúcar) proferiu uma palestra na Associação Comercial de São Paulo (ACSP) no fim de maio. Veja a seguir os principais trechos desta palestra.

 
A entidade

 
A UNICA é a maior organização representativa do setor produtor de açúcar, etanol e bioeletricidade do Brasil, representamos a produção de 60% da cana-de-açúcar, açúcar e etanol. Embora a UNICA tenha nascido no Estado de São Paulo, que é o maior produtor e consumidor de etanol do País, as usinas paulistas têm se expandido para outros Estados. Isso fez com que a UNICA passasse a atuar em outras regiões – nossas associadas têm usinas em Mato Grosso do Sul, em Goiás e outros Estados. Basicamente, a nossa atuação é de relações institucionais, fazemos representação junto a órgãos públicos, seja no Brasil ou no exterior. Para tanto, produzimos estatísticas, informações técnicas, fazemos divulgação e comunicação para a sociedade.

 
Panorama do setor

 
A indústria brasileira da cana-de-açúcar é indutora de desenvolvimento econômico, social e ambiental. Temos hoje 389 unidades produtoras, organizadas em cerca de 200 grupos econômicos. Então, é um setor muito pulverizado e extremamente competitivo. Temos por volta de 70 mil fornecedores independentes, dos quais 14 mil estão em São Paulo. Um grande número desses fornecedores está no Nordeste, que tem uma estrutura produtiva bastante diferente do que temos aqui.

 
Os postos formais de trabalho, segundo a RAIS, somam mais de 1 milhão de empregos diretos. A receita na safra 2013/14 é estimada em US$ 35 bilhões. No ano passado, as divisas externas geradas foram de US$ 15 bilhões. Nós representamos 15,7% da matriz energética nacional, combinando combustível e energia elétrica. É uma indústria que produz 38 milhões de toneladas de açúcar, somos o maior produtor e exportador mundial, respondemos por 22% da produção global e 45% das exportações mundiais. Produzimos 28 bilhões de litros de etanol, somos o segundo produtor global – o primeiro são os EUA -, respondemos por 25% da produção e 37% das exportações mundiais.

 
Esta indústria foi se sofisticando e hoje a gente exporta para a rede 15 milhões de MWh, o que representa 3,3% do consumo total de energia elétrica no Brasil, ou 38% da geração anual prevista para a usina de Belo Monte, portanto, uma produção respeitável. Este é um exemplo de fonte energética que poderia ajudar na situação que estamos passando hoje de muita seca, pois o pico de produção é justamente na seca, quando se está colhendo a safra da cana, moendo e produzindo bagaço e palha, que irão alimentar as caldeiras.

 
Em termos internacionais, somos o terceiro segmento na pauta de exportações do agronegócio, depois da soja e das carnes, mas basicamente exportamos açúcar, com US$ 12,8 bilhões – o etanol responde por apenas US$ 1,9 bilhão em exportação.

 
Competitividade

 
Temos vantagens comparativas e competitivas importantes. A primeira são as condições de solo e clima, que são adequadas ao cultivo da cana-de-açúcar e com muita disponibilidade de terra. Hoje, menos de 2% das terras aráveis no Brasil são utilizadas para cultivo da cana-de-açúcar. As vezes parece que o Brasil é um grande canavial, mas são apenas 2%, a maioria para a produção de etanol. Este sistema funciona com base no Zoneamento Agroecológico da Cana-de-Açúcar, desenvolvido pelo Ministério da Agricultura.

 

Segundo este zoneamento, nós podemos utilizar 64,7 milhões de hectares (7,5% do território nacional) de áreas autorizadas ao cultivo da cana. Além disso, temos um know-how respeitável, adquirido nestes últimos 30 anos -na verdade, adquirido desde que o Brasil foi descoberto, pois a primeira grande atividade comercial produtiva brasileira foi a cana-de-açúcar, com os engenhos no Nordeste. Mas na história moderna, nestes últimos 30 anos desenvolvemos muito conhecimento.

 
Nos fóruns internacionais, as pessoas sempre perguntam se plantamos cana na Amazônia e se nós vamos desmaiar a floresta para abastecer os carros. No mapa de produção, o Nordeste responde por 10% da produção e moagem da cana e 90% se concentra no Estado de São Paulo e parte do Paraná, Mato Grosso do Sul, Goiás e Minas Gerais – a região fica a 2.500 Km da Floresta Amazônica.

 

Lembrando que estas questões de desmatamento e preservação do meio ambiente é bem recente e a cana-de-açúcar está no Brasil desde o seu descobrimento. Se fosse bom plantar cana na Amazônia ela já estaria lá, sem dúvida. Hoje, a gente tem regras bem claras sobre onde e como a gente pode plantar cana. Este fato é importante para a nossa competitividade, pois o acesso aos mercados melhora quando a gente mostra essas informações.

 

 
O Brasil tem 852 milhões de hectares de terra, dos quais 65% (554 milhões de hectares) de vegetação nativa, um número bastante alto, e 30% para agricultura e pastagem, ou 258 milhões de hectares – deste, apenas 1% (9,6 milhões) é destinada a cana – para etanol é metade disso, 0,5% (4,9 milhões). Nós ainda temos muito chão para plantar cana. E uma questão importante: a cana cresceu sem substituir culturas alimentares ou desmatando a Amazônia.

 

A cana tem crescido basicamente em áreas de pastagem, com uma densidade de utilização baixíssima e em terras degradadas,  ela é uma boa cultura para recuperação do solo. Esta preocupação de substituir área de cultivo de alimentos que se tem na Europa, nos EUA e outros países nós não enfrentaremos por um bom tempo. Mesmo em São Paulo, que é a região mais densamente utilizada para o plantio da cana. Isso acaba nos dando vantagens competitivas.

 
Modelo vencedor

 
A cana-de-açúcar tem um estigma de monocultura, de ser destrutiva. E preciso entender que nós desenvolvemos uma cultura, um sistema de produção e um modelo de negócio brasileiro que é vencedor. Se a gente mesmo não destruir este sistema, ele é vencedor. Este Zoneamento Agroecológico se pode achar que é mais um regulamento, mais um custo Brasil. Ele é formal, exclui o cultivo em biomas sensíveis como a Amazônia e o Pantanal, ele exclui a expansão em tipos de vegetações nativas, como cerrado e campos, e permite a expansão da cana em 64 milhões de hectares,  autoriza excluindo essas áreas e também identificando as áreas mais adaptáveis a esta cultura.
 

Isso acaba orientando as decisões de órgãos ambientais para licenciamentos e condiciona o financiamento público para a construção de novas usinas,  não se consegue ter uma usina e produzir etanol sem o registro na ANP, a gente está dentro do Ministério das Minas e Energia, regulado pela Agência Nacional do Petróleo.

 

E muito fácil monitorar as condições do plantio, porque você tem que plantar cana no máximo até 60 Km da usina, pois em 48 horas a cana precisa ser processada, pois ela tem uma perda de qualidade muito rápida. E um processo just in time do agronegócio, porque você põe o etanol entre a colheita e a produção em 14 horas. Ninguém faz estocagem de cana, não existe isso. E uma dinâmica própria e isso faz com que o monitoramento de onde se está plantando seja muito fácil, pois a área onde se faz o suprimento é restrita e você tem todo ano que renovar as suas autorizações.

 
Vantagens da cana

 
A cana é uma cultura muito boa para regenerar a terra, o balanço energético da cana é 9,3 – a energia que eu uso para produzir e a energia que tiro dessa cultura, é muito maior do que o do milho, trigo e beterraba, que são os nossos concorrentes mundiais em termos de produção de etanol. Olhando a produtividade, hoje a gente tem 6.900 litros por hectares – em milho é de 3.800 litros, trigo de 2.500 e beterraba, 5.500.

 
Nos EUA se tem feito progressos importantes com o milho, eles realmente aumentaram a produtividade. Na Europa, a beterraba não é mais o primeiro feedstock (matéria-prima) de etanol, o primeiro é trigo. Então, a discussão alimento é muito forte lá, pois hoje é trigo, milho e depois beterraba, nesta ordem. Mas eles ganharam uma competitividade enorme com a beterraba, tanto para produção de etanol, como de açúcar, e eles vão entrar pesado em exportação de açúcar em 2017, quando acabam as limitações da reforma agrícola – o etanol eles não vão exportar, eles produzem pouco e o mercado é muito pequeno. O açúcar a gente está de olho.

 

Além disso, o etanol de cana é reconhecido pelas metodologias dos EUA e da Europa como o que mais reduz as emissões de gases de efeito estufa, quando comparado à gasolina, isso em todo o ciclo de vida, desde a hora que se produz, colhe, usa o trator etc.

 

A gente tem ainda um espaço enorme para ganhar produtividade, na verdade, a gente anda patinando nos últimos anos, mas existem perspectivas de ganhar produtividade, tanto no etanol de primeira geração, que é o que a gente produz hoje a partir do caldo da cana, com 6.900 litros por hectare hoje e passando para 7.200 litros por hectare, mas especialmente se a gente for bem no 2G, o etanol de segunda geração, que é produzido a partir do bagaço, da palha e da ponta, ou seja, da celulose.

 

Então, a gente pode ter produtividade de 10 mil litros por hectare. Nós crescemos muito a produtividade, 3% ao ano ou até mais – nos anos 70 eram 2,5 mil litros, hoje são 6.900 por hectare. Mas tem oito anos que a gente anda patinando na produtividade por várias razões, em parte associadas a razões de perda de recursos para investimento.

 
Investimentos

 
Chegamos até aqui com muito investimento e que é uma das razões do endividamento que as usinas enfrentam hoje. Estes investimentos são para otimização do processo produtivo, que incentivou os investimentos em mais de cem novas usinas que foram feitas entre 2002 e 2010. Tem dois tipos de investimentos fundamentais: uma de uma usina greenfield (usina nova) e outra para explorar este ativo no qual se investiu – não dá para fazer uma usina nova e parar o investimento, tem de continuar.

 
Tivemos um avanço na colheita mecanizada por determinações ambientais, pois a colheita manual exige que se faça a queima da palha. Tem uma legislação que determina o fim da queima. Em São Paulo, esta legislação foi antecipada por um protocolo entre as usinas e o governo do Estado. Em São Paulo, nas áreas mecanizadas, já não há mais queima – 90% da produção paulista é sem queima, com a colheita mecanizada, que exige investimentos. A colheitadeira é uma máquina com cinco metros de altura e que custa na ordem de R$ 1 milhão, tem GPS, joystick, é toda moderna. Foram colocados US$ 4,5 bilhões em equipamentos entre 2006 e 2012.

 

Em 2012, a região Centro-Sul investiu mais de US$ 4 bilhões em renovação e expansão do canavial, que é uma cultura semiperene, leva seis anos, cada ano se planta uma parte, depois de seis anos é preciso fazer a renovação do primeiro ano. Se renova mais ou menos 18% do canavial por ano, de forma a ter um canavial jovem e produtivo, com uma curva de produtividade alta.

 

Quando não se faz investimento em renovação por algum problema, como climático, a produtividade cai, porque envelhece o canavial. Mas em 2012 foram investidos US$ 4 bilhões em renovação e expansão de canavial, uma parte com recursos do BNDES com taxa equalizada, que foi uma luta para conseguir, mas saiu e foi muito importante para financiar as usinas.

 
Houve investimento estimado de US$ 4,5 bilhões em cogeração de energia elétrica para venda de excedentes à rede em mais de 80 unidades produtoras. Não tem nenhuma usina que não seja autossuficiente e 40% delas exportam para rede o excedente, 60% não, dá ainda para crescer muito. Ainda há investimentos em infraestrutura da ordem de US$ 1,5 bilhão e um investimento que vamos ver se vai se concretizar até 2017 -uma parte já foi entregue e está sendo usado, que é o etanolduto, que vai ligar Jataí (GO) aos portos de Santos e Rio de Janeiro,  tem uma parte que é hidrovia e o resto é etanolduto.

 

A parte inaugurada fica entre Paulínia e Ribeirão Preto, no interior de São Paulo. Isso vai tirar mais de 95 mil caminhões de circulação e vai tornar ainda mais sustentável essa produção, porque não vai usar o diesel para transportar o etanol. A parte inaugurada está em operação, ainda tem ociosidade, pois foi inaugurada este ano. Quando for para o Rio de Janeiro, ainda está em discussão questões tributárias, que é sempre uma preocupação para melhorar a infraestrutura.

 
Ascensão e queda

 
De 2002 a 2010 houve um crescimento vertiginoso no número de usinas. O que estava acontecendo, o que era o back stage dos investimentos? Primeiro, tinha um preço do petróleo em alta no começo dos anos 2000 e isso levanta a bandeira do abastecimento, que sempre está atrás das energias renováveis,  começa com o abastecimento e depois vai para a questão ambiental.

 

Para aproveitar isso e superar a experiência negativa que o consumidor teve com o carro a álcool,  eventualmente ele ficava sem combustível para abastecer, foi lançado o carro flex, que foi importante para superar esse trauma, pois aí ninguém fica refém de ninguém, nem a usina é refém do consumidor e vice e versa. Acho que somos o único país no mundo em que o consumidor decide qual o combustível quer usar, olhando o preço relativo na bomba. Houve o incentivo com a redução de IPI para a indústria automobilística para o carro flex, foi um empurrão importante. Houve também uma decisão forte do governo de chamar as montadoras, dar incentivo e cobrar colaboração.

 
Neste período também, no início dos anos 2000, foi estabelecida esta Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico – CIDE. Este imposto é interessante, porque tem um diferencial tributário entre a gasolina e o etanol. E um imposto específico, pode ir até 89 centavos por litro, mas chegou a ser aplicado a 28 centavos por litro da gasolina, e o etanol zero. Este diferencial tributário funciona bem quando tem uma fonte de energia renovável que não é poluente e é redutora de emissão, gera uma externalidade positiva para a sociedade, que não é capturada no preço de mercado. Este diferencial tributário corrige isso, tributando aquele que gera a emissão de gás carbônico, aumentando os custos na saúde pública pela piora das condições ambientais.

 

O diferencial tributário é um bom instrumento no caso. A literatura fala em taxar o carbono, que não é tão trivial, pois precisa saber quanto se está emitindo de carbono, mas no nosso caso acaba sendo fácil porque se tem a gasolina, um combustível fóssil e poluente, e o etanol, uma energia renovável, menos poluente. Quando põe o imposto na gasolina, se faz a taxação de um jeito simples. Isso dava uma vantagem competitiva de 28 centavos por litro neste período.

 

Então, tinha a Cide, tinha o preço do petróleo aumentando e tinha uma política de preço interno que refletia as condições de preços do mercado internacional. Em São Paulo houve a redução do ICMS de 25% para 12%, um diferencial tributário que acaba dando competitividade para a energia renovável. E tinha neste período uma explosão de interesse em biocombustível no mundo,  nos EUA foi lançado o programa de incorporação de etanol na matriz de combustíveis, na União Europeia também, e o Lula falando que o Brasil ia ser a Arábia Saudita do etanol. O investidor tinha tudo para acreditar que era um bom negócio.

 
Este era o ambiente de investimento de 2002, que colocou cem usinas novas em um período de oito anos – foi incrível a capacidade de resposta, quando se acredita no negócio ele vai. Trouxe autoalavancagem, endividamento e tudo que se tem direito por conta desse entusiasmo e aí veio a trombada de 2008, com uma crise que não tinha nada a ver com etanol, mas o fato é que, com a crise financeira mundial, os recursos ficaram escassos, o custo do dinheiro cresceu e o endividamento explodiu.

 
Controle de preços

 
Veio a reação do governo, de transformar o tsunami em marolinha. Teve o incentivo para a indústria automobilística, zerando o IPI, teve a expansão do crédito para a compra de automóveis, todo um esforço em amparar a indústria automobilística e reduzir o impacto no emprego. E como parte do pacote entrou o combustível e começou o controle do preço da gasolina, que não tinha nada a ver com a inflação na época, tinha a ver com esse incentivo de usar o carro.

 

Pouco tempo depois começou a pressão inflacionária. Isso emendou na pressão inflacionária e para desmanchar o controle do preço da gasolina, que tinha que ficar baixo para estimular o consumo, passou a não dar para corrigir por conta da pressão da inflação. Eu achava que nunca mais veria o uso do controle de preços para baixar a inflação, não precisa ser economista, basta ser brasileiro para saber que isso não dá certo. Quantos planos econômicos nós tivemos e sabemos qual é o fim dessa história? Uma inflação maior, cada vez mais resistente. Você dá os anéis e perde os dedos.

 
Cria-se uma incerteza em relação aos combustíveis fósseis e o etanol hidratado é um competidor direto da gasolina. O consumidor conhece a eficiência energética do etanol, que é 30% menor que a gasolina em media, e ele faz a conta- se passar de 70% do preço da gasolina ele sabe que está caro e não consome. Nós competimos diretamente com o preço da gasolina, ninguém precisa controlar o preço do etanol. Cria-se uma incerteza e para suavizar o impacto sobre a Petrobras, a Cide foi sendo reduzida a zero – se dava um pequeno reajuste no preço da gasolina e ao mesmo tempo reduzia a Cide. O preço líquido da Petrobras ficava melhor, mas o preço do etanol que competia na bomba continuava sem poder ser reajustado. A eliminação gradativa da Cide tira 28 centavos de competitividade do etanol.

 
Tempestade perfeita

 
Este ambiente no Brasil começou a impactar muito negativamente nas usinas, que já estavam endividadas. Se tem um problema de redução de capacidade de investimento naqueles elementos que otimizam o seu ativo. Então deu a tempestade perfeita: o aumento do serviço da dívida, redução da capacidade de investimento, a renovação do canavial menor do que deveria por incapacidade de fazer o investimento, o canavial envelhece e ainda se tem quatro safras com problemas climáticos.

 

É a tempestade perfeita. Tem problema de gestão misturado nisso? Sim, tem problema de gestão, mas tem política econômica, tem problema climático, é um conjunto complicado de análise, mas certamente ele foi tremendamente aprofundado pela perda de competitividade do seu principal mercado, que, era omercadobrasileiro, sejapela eliminação da Cide, seja pelo controle de preço da gasolina.

 

E tem mais um elemento que está sempre escondido: tem umaaplicação de PIS/Cofins nos produtos, que é de 9,25% do faturamento. Só que você transforma este imposto, que é ad valorem (conforme o valor) num imposto específico, ad rem, isso lá em 2007, você congela ele. Hoje, o PIS / Cofin recolhido pela gasolina é por volta de 7%. Retirou a Cide, desonerou a gasolina, não só zerando a Cide, mas reduzindo o PIS/Cofins.

 
Nas discussões ano passado conseguimos do governo a desoneração do PIS/Cofins para o etanol, que era de 12 centavos por litro e foi para zero (em maio de 2013). Só que tem alguns detalhes operacionais que não conseguimos implementar até agora, depois de um ano. Por exemplo, acúmulo de crédito. Vário empresários devem ter problemas de acúmulo de crédito de PIS/Cofins, porque não é reconhecido como insumo. Os créditos acumulados no setor de etanol de PIS/Cofins é da ordem de R$ 1,4 bilhão e a gente não consegue recuperar estes créditos.

 

Dentro da MP que desonerou o PIS/Cofins do etanol, tem lá uma provisão para dizer vocês podem usar os créditos ou recuperar os créditos inclusive monetizados, só que levou um ano para sair o regulamento. Agora que saiu o regulamento, a gente descobriu que o governo tem um ano para analisar o pedido e cinco anos para pagar. A única vantagem é que ele não caduca – antes, a cada cinco anos se perdiam os créditos. Não tem correção, mas pelo menos para de caducar. Este é o ambiente que leva à crise recente.

 
Não podemos ignorar que houve uma pressão enorme de aumento nos custos do etanol, seja para cumprir as legislações ambientais, entre elas a mecanização e legislações trabalhistas que encareceram o custo de produção da agricultura em geral, mas em particular da cana. E houve um aumento do endividamento das despesas financeiras, além dos problemas climáticos, que fizeram a produtividade cair.

 
Entrada dos gigantes

 
Neste período, primeiramente com investimentos e depois crise, ocorreu a entrada de capital internacional, que não existia anteriormente. Era um setor de usinas administrada por famílias. Agora é um setor heterogêneo, entram trading como a Bunge que comprou o Grupo Moema; a Glencore; a British Petroleum, uma petroleira; a Tereos, uma cooperativa francesa, que entrou com a Petrobras e a Guarani; entrou a Cargill; a Odebrecht, uma empreiteira. Os horizontes de retorno são completamente diferentes, um enxerga seis meses, outro 20 anos. Hoje é um setor completamente internacionalizado do ponto de vista financeiro e portanto muito sensível em questão de retorno, não é mais patrimônio da família.

 
De 2005 até hoje muitas usinas entraram em operação, mais de uma centena, muitas entraram só como produtoras de etanol porque acreditaram nas promessas, mas hoje também produzem açúcar, pois aprenderam que não dá para ficar só com etanol. Hoje, a configuração típica da usina é açúcar, etanol anidro, etanol hidratado e eletricidade, nessa ordem. Mas existem usinas que só produzem etanol, têm aqueles que produzem mais açúcar, como a Guarani, existem as que produzem mais etanol, como a Odebrecht.

 
Temos então a entrada de cerca de 100 usinas neste período após 2005. Quando chega a crise (2007/08), começa a ter usinas fechando. Até o fim do ano, o número pode chegar a 58 unidades fechadas. Tínhamos mais de 400 usinas, hoje temos 389, e estamos esperando entre 10 e 12 fecharem este ano. Temos ainda 33 em recuperação judicial, dos quais 14 em São Paulo. O nível médio de endividamento equivale ao faturamento anual das indústrias nas safras 2011 /12 e 2012/13, antes era de um terço antes da crise. Em termos de serviço da dívida, quase 15% da receita vem sendo absorvida pelo pagamento de juros da dívida.

 
O grande rival

 
O mercado mundial está complicado. Os EUA estão revendo para baixo o seu mandato, assim como a União Européia, por causa das novas fontes de petróleo, que acabaram estendendo o horizonte das reservas – teremos mais tempo para estragar o meio ambiente, a custo mais barato.

 
O sistema americano é de incorporação de energias renováveis na matriz de combustíveis. Eles fizeram uma estimativa da demanda, de como ela iria evoluir, com um cronograma de 2009 até 2022. Mas isso estava sendo discutido no período em que as nossas usinas estavam sendo implantadas. O conjunto das distribuidoras tinham obrigação de comprar, em 2009, 39,7 bilhões de litros de etanol de milho, chamado convencional, e 1,89 bilhões de diesel de biomassa, feito de soja. Ano a ano se tem a entrada do etanol avançado, que é o etanol com menor emissão de C02 em relação a gasolina, acima de 60%, que é basicamente o etanol brasileiro.

 

No etanol convencional, como eles têm uma visão ambiental, vai crescendo até 2014 e de 2015 em diante ele congela a obrigatoriedade de compra por parte das distribuidoras do etanol de milho americano, pois tem a questão do uso da terra, por ser alimento, e da emissão. Já o etanol avançado vai crescendo – se a gente pegar 2014, nós poderíamos exportar para os EUA 3,79 bilhões de litros, pois lá não tem esse etanol. No ano passado, nós exportamos 2,4 bilhões, poderia ter chegado a 2,84 bilhões, principalmente para a Califórnia, que é o Estado mais verde.

 
Tem o etanol celulósico, que em 2013 deveria ter fornecido 3,78 bilhões de litros, mas está produzindo praticamente zero. Isso foi um dos motivos que levou a rediscussão desta estrutura, com uma pressão das petroleiras,  tem um comercial na TV que mostra uma pessoa de manhã tentando ligar o carro, que não pega e ele reclama que a culpa é da porcaria deste etanol misturado na gasolina. Com a mistura de etanol na gasolina, a demanda para veículos leves por esse combustível nos EUA caiu aos níveis de 2001. Eles estão revendo este mandato, mas de qualquer forma se tem um planejamento de consumo garantido de etanol até 2022.

 
Competindo contra o subsídio

 
Nós acompanhamos o preço deimportação da gasolina e o preço líquido na refinaria. Tornamos-nos um importador de gasolina. Só em 2012, a Petrobras teve um prejuízo de US$ 3 bilhões na importação de 3,78 bilhões de litros de gasolina, vendendo abaixo do preço de importação. Em 2013, o prejuízo foi de US$ 2,1 bilhões ao importar 2,88 bilhões de litros de gasolina. O etanol compete contra este subsídio – além de zerar a Cide, de reduzir o PTS/ Cofins, ainda vende abaixo do custo de importação.

 

A conta combustíveis na Petrobras é deficitária desde 2010. Se não houvesse este subsídio, o etanol seria mais competitivo aqui. Nós somos a toda hora metralhados com declarações, ou do ministro da Fazenda, ou da presidente, que o setor de etanol não ganha produtividade, é ineficiente em relação aos americanos, não faz investimentos.

 

Quando se tira a capacidade de investimento, fica difícil reagir. Mas mesmo assim, os números de investimentos em otimização são importantes, tivemos ganhos em produtividade, foram desenvolvidos variedades de cana próprios para a colheita mecanizada para as novas fronteiras de produção em Goiás e Minas Gerais. Também tem investimentos em etanol celulósico. Fico muito irritada quando falam que é um setor ineficiente, tradicional, retrógrado, que não investe.

 
O futuro

 
Até por dever de ofício, acredito que o etanol tem futuro, temos de acreditar nisso. As energias renováveis serão necessárias no mundo, pode ter revisão para baixo agora, mas elas serão necessárias. Do ponto de vista ambiental, não resta a menor dúvida de que serão necessárias.

 

Um relatório recente do IPCC – Intergovernmental Panei on Climate Change,  aponta para a necessidade de retomar a questão da substituição dos combustíveis. A questão climática e ambiental sempre é colocada de lado quando se tem uma crise econômica, que foi o que aconteceu na Europa, que abafou a questão do uso do etanol.

 
Nos EUA, teve a entrada do shalegas e shale oil, que fez com que eles recuperassem a competitividade de indústrias que estavam abandonadas. E lá é tudo muito rápido, ninguém atrapalha – se o gás está barato, já tem gente fazendo tecnologia para caminhão a gás rapidamente. Aqui, os estímulos são todos ao contrário. Está com problema de congestionamento e poluição nas metrópoles, se reduz o preço dos carros e dos combustíveis com desonerações de impostos.

 
Mesmo assim, acho que temos muitas oportunidades, todo mundo enxerga isso. Depende do que vai acontecer com o mercado de açúcar, pois no modelo brasileiro, o açúcar é importante. Precisamos trabalhar este mercado, mas depende muito de política pública, não tem como, pois energia renovável, queira ou não, precisa disso – tem gente que diz que se não atrapalhar, já ajuda, mas acho ingenuidade achar que não se necessita das políticas públicas em relação aos combustíveis.

 

Qual é o país que não trata combustíveis de maneira estratégica? Mas é preciso definir uma política para o etanol – se ele vai virar só aditivo, então reduzimos em 30% o tamanho da indústria, acabamos com o etanol hidratado, acabamos com o carro flex.

 
Na safra 2013/14 houve recorde em moagem, nunca se moeu tanta cana neste País. Nós aumentamos a oferta de etanol em 4,5 bilhões de litros, foram 12% de aumento na safra em relação ao ano anterior, que foi todo para o etanol, pois produzimos a mesma quantidade de açúcar, já que o mercado internacional estava com excesso do produto. Houve aumento na produção e redução das exportações para os EUA.

 

Esse crescimento da oferta de etanol foi suficiente para suprir todo o crescimento da demanda de veículos leves, reduziu a necessidade de importação de gasolina e reduziu os prejuízos da Petrobras, que é a única petroleira que, quanto mais vende, mais perde.

 
O que queremos

 
Reivindicamos, como agenda para retomada dos investimentos:

 
– Definição de objetivos claros para a participação do etanol na matriz de combustíveis

– Reestabelecimento e manutenção do diferencial tributário entre etanol e gasolina, reconhecendo as externalidades positivas associadas ao biocombustível

– Garantia de estímulo, via programa InovarAuto, para ganhos de eficiência dos veículos flex no uso do etanol hidratado e presença do bicombustível nos futuros modelos híbridos

– Melhoria das condições dos leilões para a bioeletricidade

– Programas de incentivo à inovação tecnológica

 

 

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