Sustentalismo Insustentável?

Agora com o chamado “Efeito Marina” motivou-se, de forma inusitada, uma reflexão sobre o Sustentalismo, particularmente em relação ao Desenvolvimento Sustentável em todas as suas implicações sócio-econômicas nacionais e globais. Quando nos utilizamos da palavra “Sustentalismo” estamos abordando o cerne desta questão, na medida em que alguns entendem que esta palavra seria um resumo do Capitalismo Sustentável e outros entendem que está palavra é nobre demais para ser só isto. Esta polêmica parece com aquela que dividiu a esquerda em comunistas e sociais-democratratas – uns não admitiam o capitalismo e outros que defendiam a solução evolutiva a partir deste, aliás, como praticamente toda a “esquerda ocidental” aceita e pratica nos dias de hoje, fora raras exceções.

Em outras palavras, uma revoluçãozinha a cada tempo, dependendo do espaço que a sociedade permita – esta a grande novidade – a sociedade passou a ter voz, além do antigo voto de cabresto – agora ela fala para si mesma pelos modernos meios interativos e cria-se na chamada periferia uma consciência cultural mais crítica, que inicia um movimento de identidade própria, coletiva, conservando valores que antes eram cultivados e mantidos exclusivamente pela classe média – são os emergentes, a nova Classe C, com capilaridade nas outras classes.

A relação entre estes dois processos de causa-feito nos remete para a questão do modelo de produção, fundamento das principais demandas e impactos sobre os recursos naturais, movidos pelo motor do consumo e pelas demandas por serviços sociais. Embora o nosso respeitado Leonardo Boff represente e defenda uma linha de abolição ou de profunda reforma do modelo capitalista vigente, não se apontam formas objetivas e eficazes para atingir um novo patamar de organização sócio-econômica mundial, na qual as desigualdades tenderiam a desaparecer, a justiça seria quase plena e a consciência planetária seria a ordem geral a orientar os sistemas de governança, com equiparação das pressões e contrapressões em relação aos recursos naturais – uma sociedade totalmente nova, baseada no atendimento do mínimo bem estar de todas as populações, um forte freio na febre consumista dos países centrais, também agora dos emergentes e um altíssimo grau de solidariedade mundial – seria uma “Globalização do Bem”.

Portanto, sabemos com certo grau de certeza onde queremos chegar, mas não sabemos com tanta certeza como chegar lá! Falta um projeto de ponte capaz de realizar esta transposição no qual todos apostem – senão todos – uma grande maioria, que inclui governos, instituições políticas em geral, organismos multilaterais, conglomerados econômicos, além da própria sociedade, organizada ou não. O que observamos pela dura realizada do dia-a-dia do país e do mundo são as disputas de mercado, as “guerras cambiais” e as “crises financeiras”, sintomas de que o capitalismo é um vírus entranhado em todo o sistema global, seja ele de tendência de esquerda, centro ou direita – embora esta classificação esteja meio desgastada, se aplica com exatidão ao problema – basta citar o gigantismo do embate EUA x China. Nada mais precisa ser dito – esta disputa é um exemplo claro de que o consumo, presente na mais alta expressão nestes dois mega-exemplos, é o motor a movimentar um sistema capitalista quase autônomo e onipotente, que ao se sentir ameaçado, como na recente crise de 2008, cria mecanismos de auto-preservação e retira recursos da sociedade global e redistribui prejuízos, afetando por sua vez o sistema produtivo num círculo vicioso cuja dinâmica e força, estamos longe de quebrar. Bem, a ligação com o “Efeito Marina” é que a política ambiental brasileira está sob análise e a pergunta que se coloca é qual prioridade se dará ao uso sustentável dos recursos naturais do país e quais serão as opções que garantam o legítimo Desenvolvimento Sustentável. Continuaremos a ter majoritariamente ganhos de divisas pela exportação de commodities, ou conseguiremos evoluir para uma pauta com produtos de expressivo valor agregado? Isto faria sim uma grande diferença em termos de uso racional dos nossos recursos necessários; mas para isto é necessário diagnosticar e resolver os gargalos que nos impedem de investir muito mais em C&T.

Nossa meta não é aprofundar o debate de soluções específicas, mas sinalizar para a questão posta sobre o sustentalismo brasileiro, pois se formos mais realistas que o rei poderemos cair na armadilha de sermos engolidos pelos lobos (EUA, China, EU, Japão e os demais Brics), mas se nada fizermos poderemos incorrer no erro de deixar de valorizar o nosso segundo maior patrimônio que são os nossos imensos recursos naturais, depredando-os – o que afetaria irremediavelmente o nosso primeiro maior patrimônio, que são as futuras gerações.

O Brasil ensaiou passos ousados ao assumir compromissos quantitativos quando à redução das emissões dos gases do aquecimento global, demonstrou algumas teses para sua viabilização, como a gradual redução da queima das plantações de cana – mas para sermos líderes verdadeiros de um processo de transformação mundial precisamos primeiro cuidar da nossa própria casa, fazendo valer, por exemplo, a plena aplicabilidade sustentada da Política Nacional de Saneamento Básico, aprovada em janeiro último.

Não só levar UPPS, mas fortes doses de cidadania e cultura para os milhões de excluídos, sem uma visão de que estes devam ser assistidos – não eles não precisam de assistência – eles são tão brasileiros quanto qualquer outro – precisam de serviços de qualidade, formação profissional e apoio ao desenvolvimento educativo e cultural rico e presente neste segmento da nossa sociedade.

Cito como um bom exemplo que tive a particular oportunidade de conhecer e estudar, a Biblioteca Parque de Manguinhos, Rio de Janeiro, semelhante ao projeto de Bibliotecas Parque de Medellín na Colômbia, fruto do Programa Mais Cultura do Ministério da Cultura, em parceria com o Governo do Estado. Vejo ai um bom sinal de um aprofundamento da inversão necessária, com respeito e valorização das comunidades do Rio de Janeiro, pela oportunidade democrática de acesso a principalmente das crianças e jovens a espaços e conteúdos realmente de qualidade. Encerro aqui com um elogio profissional à Dra. Silvana Meireles, Coordenadora do Programa Mais Cultura.

Engenheiro Everton Carvalho

Presidente da ABIDES

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