Sustentabilidade planetária, artigo de Roberto Naime

 

ecoativismo

[EcoDebate] Não ocorre tornar ideológicas as discussões, pois isto não contribui em nada para a formulação de soluções satisfatórias, mas algumas realidades se evidenciam, exigindo novas posturas e atitudes.

Se cada indivíduo ou cada cidadão da Índia ou da China alcançar o mesmo padrão de uso dos recursos naturais que um indivíduo ou cidadão norte-americano, então seria necessário ampliar a exploração de recursos naturais em mais de 20 vezes.

E obviamente o planeta não suportaria. Nada contra o “american way of life” que viabiliza uma indiscutível qualidade de vida para seus habitantes. Mas se há intenção séria de enfocar sustentabilidade, não há como tangenciar estas constatações.

Em momento algum ocorre confrontar o que se considera o apogeu do mundo civilizado, mas existem contradições notórias entre a sustentabilidade e este padrão de consumo.

A autopoiese sistêmica dominante necessita ser alterada. Pois hoje só o consumismo garante a manutenção dos círculos virtuosos da sociedade.

Ampliação de consumo gera maiores tributos, logo maior capacidade de intervenção estatal, maior lucratividade organizacional e manutenção das taxas de geração de ocupação e renda.

Mas o consumismo precisa ser substituído pela idéia de satisfazer as necessidades dentro de necessidades reais e de ciclos, e não de apelos publicitários fantasiosos. Ninguém que acabar com a publicidade, que movimenta a atual máquina da sociedade.

Nada é contra a livre-iniciativa. Que sem dúvida sempre foi, e parece que sempre será o sistema que melhor recepciona a liberdade, a democracia e a imprensa dita livre em certos parâmetros.

Já houve notáveis hecatombes ambientais patrocinadas pela falta de imprensa livre e liberdade em regimes socialistas.

Se confeccionam cenários distorcidos, de articular mudanças ideológicas como se fossem soluções para questões ambientais. Mas uma nova autopoiese sistêmica, no sentido livre das concepções de Niklas Lhmann e Ulrich Beck para o arranjo social, é urgente e indispensável, e precisa ser desenvolvida pela civilização humana.

Não é preciso esperar catástrofe ecológica ou hecatombe civilizatória para determinar nova autopoiese sistêmica.

Como mencionado, nada foi mais deletério em causar a maior catástrofe ambiental do planeta do que a falta de liberdade e imprensa livre dos ditos regimes socialistas. Que rezam pela mesma cartilha dos arranjos de livre iniciativa, ao desenvolverem concepções de crescimento permanente, sem considerar a finitude dos recursos naturais.

Todas as formas e atitudes de abordagem planetária precisam considerar as limitações dos recursos naturais. E sua insubstituibilidade por capital ou recursos humanos como fator de produção.

Por isto, sem fazer elucubrações forçadas, não se pode medir a existência humana pela produção de bens ou serviços, e sim por índices que considerem dimensões de satisfação existencial. Parece cada vez mais evidente que este é um caminho legítimo a ser construído pela civilização humana.

Questões como preservação da biodiversidade tem que atingir novos contextos. Como a biodiversidade é importante para o funcionamento dos ecossistemas, este é o paradigma.

Uma vez que a atual perda de biodiversidade ameaça seriamente os serviços que um bom funcionamento dos ecossistemas presta para a civilização humana, preservar a biodiversidade também pode ajudar a preservar a humanidade.

Não se pode reduzir as persistentes crises hídricas do sudeste brasileiro a meros problema de tubulações ou barragens. E nem de gestão ou de consciência, embora estas sejam atitudes fundamentais. A humanidade está envolvida numa crise civilizatória.

Esta mudança deve começar logo, juntando as lutas singulares, os esforços diários, os processos de auto-organização e as reformas para retardar a crise, com uma visão centrada numa mudança de civilização e uma nova sociedade em harmonia com a natureza.

Não é preciso esperar catástrofe ecológica ou hecatombe civilizatória para determinar nova autopoiese sistêmica.

Como isto vai ocorrer? Não se sabe, mas a gradativa mudança de valores e de significação que os indivíduos atribuem a todas as ações cotidianas, vai aos poucos invadindo todas as dimensões sociais, sendo determinante para a confecção do novo arranjo.

Bancos agora, antes de quererem maximizar ganhos ou empréstimos, procuram alertar sobre o uso responsável dos recursos financeiros. Investidores consideram os índices de sustentabilidade das empresas antes de decidirem suas inversões em bolsas de valores.

Obviamente que este não é um quadro suficiente, mas é alentador sobre os cenários de mudanças de valores. Ocorre acreditar na civilização humana, e no que evidências deste tipo significam.

 

Dr. Roberto Naime, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em Geologia Ambiental. Integrante do corpo Docente do Mestrado e Doutorado em Qualidade Ambiental da Universidade Feevale.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Copy Protected by Chetans WP-Copyprotect.