Sobre Aceleração do Crescimento Econômico.

Sobre Aceleração do Crescimento Econômico.

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Enfatizando que a perspectiva da análise do processo de crescimento econômico se baseia no diferencial positivo de competitividade (latus sensus) possível de ser incorporado na economia em um dado período de tempo, a velocidade do crescimento econômico é de fato o indicador principal das possibilidades de alteração do quadro distributivo da competitividade em nível nacional e mundial, no qual os países ricos levam uma vantagem excepcional em relação ao Brasil.

Considerando que a necessidade de maior velocidade de crescimento econômico tornou-se uma das poucas unanimidades, tanto na classe política como na econômica, é de grande valia a realização de um diagnóstico deste componente, para que se possa compreender melhor a conjuntura e prospectar caminhos novos e viáveis para o estabelecimento de uma política econômica estável e durável para o Brasil, capaz de romper o cenário de grande assimetria de ganhos de produtividade entre o Brasil e os países desenvolvidos.

Pelas leis da física, a mudança de velocidade é obtida por uma maior ou menor aceleração que se imprima ao corpo em movimento. Isto tanto vale para a física como também para a economia. O que governa a velocidade de fato é o comportamento da aceleração, sendo, portanto necessário avaliar este comportamento, para então extrapolar a velocidade. Claro que na economia esta função é muito complexa, por exemplo, muito mais complexa que calcular a velocidade de um carro de Fórmula 1, que em princípio depende de características do seu motor da aerodinâmica da sua carenagem e da pista, todas elas relativamente fáceis de serem determinadas.

Na economia, esta caracterização da aceleração é muito mais difícil de ser feita, porém não impossível, e no texto abaixo buscamos criar alguns parâmetro que representem este perfil específico.

O crescimento da economia é resultante de uma aceleração positiva, a estagnação corresponde à aceleração zero e a deflação corresponde a uma aceleração negativa.

A aceleração é a relação entre a força aplicada e da massa do corpo em movimento. Na economia a força deriva basicamente da capacidade de investimento e a massa equivaleria ao peso econômico do conjunto dos setores produtivos da economia.

A capacidade de investimento está associada aos fatores ligados à macroeconomia e à correspondente resposta do mercado aos indicadores de oportunidade, derivados de variáveis tal como o equilíbrio das contas públicas, comportamento da inflação e dos juros e das taxas cambiais. Certamente a estabilidade política é fator relevante na formação de expectativas do mercado.

Como a massa de economia é um fator quase constante, o aumento da aceleração dependerá do crescimento da intensidade da força aplicada – do aumento da taxa de investimento e da redução dos obstáculos ao movimento da economia vinculadas à redução dos gargalos burocráticos, flexibilidade e modernização da política fiscal, juros baixos e reforma política. É como fazer a economia fluir mais rapidamente através de dutos desobstruídos.

Como abordamos no segmento anterior, a disponibilidade de recursos para novos investimentos é crucial para a obtenção de um perfil favorável de aceleração do crescimento econômico, sendo, portanto plenamente justificável e necessário a criação de um Novo Fundo Nacional de Investimento (NFNI) capaz reunir dois componentes básicos: volume adequado de recursos e racionalidade na sua aplicação.

Sabemos que os bancos oficiais e fundos de pensão são detentores de recursos da ordem de R$ 5.5  Trilhões (US$ 3.4 Trilhões) em seus ativos. Parte deste montante pode muito bem fazer parte do fundo proposto, sem ferir a dinâmica de atuação destas instituições e seu equilíbrio financeiro, bastando para isto uma tomada de decisão política do governo.

Seria basicamente uma mudança de rubrica e da qualidade da gestão, com perspectivas de retorno superior ao gerado pelas aplicações atuais em títulos do tesouro, em conjunto com a simplificação da burocracia e na redução/eliminação de subsídios e  favorecimento de segmentos específicos praticados pelo BNDES e bancos públicos em geral.

Citamos por exemplo o financiamento tradicional da safra agrícola, que se tornou um problema  nos últimos tempos, com crescente nível de inadimplência(superou a margem de 2% no ano passado) e taxa de retorno de alto risco, face às questões sazonais envolvidos na atividade e sua relação estreita com o comportamento do mercado internacional de commodities, cujos preços são formados em outros centros de decisões, que não o nacional.

Vale lembrar que o setor de grãos, importante segmento do agro negócio e da pauta de exportações, é muito mais relevante para a dinâmica da economia interna. Na média dos últimos 10 anos a produção total, incluindo derivados secundários como óleo e farelo de soja etc., foi de 180 milhões de toneladas, sendo que 40% a 60% deste total foram destinados ao mercado interno e a diferença ao mercado externo. Como se pode constatar, o input para o mercado interno é muito expressivo, embora as exportações tenham a capacidade de retorno mais eficiente, dado que significa entrada de capital lastreado em moeda forte.

A título de exemplo, evolução da capacidade de armazenagem de grãos é indicador de um grave problema a ser resolvido e pode ser uma grande oportunidade de novos investimentos com retorno maior que  investimentos em títulos públicos pelo impacto que uma maior capacidade de armazenagem traz no aumento da renda do produtor e na garantia de preços justos no médio e longo prazos.

No final de 1990, o Brasil produzia 75 milhões de toneladas de grãos e tinha capacidade de armazenagem de 83 milhões.

Nesta safra, a 2016/17, o país deverá produzir o recorde de 232 milhões de toneladas de grãos, mas terá capacidade para armazenar apenas 158 milhões. Ou seja, 74 milhões de toneladas ficarão a céu aberto ou terão de sair direto dos produtores para os portos.

Cabe destacar, alguns avanços como o atendimento de pleitos importantes do setor agropecuário como a priorização do Programa de Construção de Armazéns (PCA), com manutenção do prazo máximo de 15 anos, retorno da linha Pró-Renova Rural para os produtores, como forma de minimizar este sério entrave à nossa capacidade de gerenciar a formação de preços, que acabam sendo manipulados nas bolsas de Chicago e Londres.

Resultados de investimentos do Novo Fundo Nacional de Investimento na capacidade de armazenagem podem se lastrear nos diversos ativos ligados à produção agrícola como os Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRAs) e de Certificados de Direitos Creditórios do Agronegócio (CDCAs). Em todo caso há uma grande margem de investimentos em armazenagem com retorno garantido dentro de um ambiente de negócios já estruturado.

Sabe-se que a formação do preço interno guarda uma relação direta com os preços externos, e como em geral nossa capacidade de armazenagem cresceu numa taxa muito inferior à da produção, estamos perdendo um importante fator de controle de preços. Fazendo uma analogia com o motor do carro de Fórmula 1, é como se este estivesse “atrasado”, “queimando óleo”.

Este exemplo demonstra que um critério para a seleção de novos investimentos neste segmento, seria a priorização da aplicação de recursos em capacidade nova de armazenagem. Seriam investimentos seguros e com perspectivas de alta taxa de retorno em médio prazo. São direcionamentos desta natureza que devem nortear a implantação do sistema que denominamos “Integração Paralela da Economia”.

Em decorrência deste fato, defendemos uma gestão dinâmica e eficaz do novo fundo, para que estes pontos críticos possam ser objeto de rápida avaliação e decisão.

O outro lado da moeda é representado pelo conjunto dos entraves burocráticos, jurídicos e administrativos, que dificultam os investimentos, o chamado Custo Brasil, funcionando como freio e, portanto redutor da aceleração. É parte essencial do processo de Integração Paralela da Economia a eliminação ou minimização destes entraves, pois a “força” dos investimentos será mais intensa na exata medida da redução destes obstáculos.

Destro desta visão, as ações e investimentos que busquem eliminar ou minimizar os entraves equivalem à liberação dos canais para os fluxos da economia, resultando em “ganho energético”, tão importante quanto à disponibilidade de recursos para investimentos produtivos. Investimentos em redução de entraves são combustíveis diferenciados necessários para o bom desempenho do motor da economia.

As altas taxas de juro também funcionam como “freio”, dificultando o crescimento da aceleração da economia. No conceito da “Integração Paralela da Economia”, será parte obrigatória do “Novo Plano Dinâmico da Economia” a definição diferenciada de taxas de juros mais baixas para os novos investimentos originados do Novo Fundo Nacional de investimento baseados em critérios técnicos, processo este que terá também como consequência e redução gradativa dos juros tradicionais, até se atingir uma reunificação, no final do processo de integração aqui proposto, de forma assemelhada ao Plano Real.

Claro que nesta estratégia de aceleração racional do crescimento da economia, a credibilidade dos gestores deste fundo é fator essencial, e para tal, deve-se definir salvaguardas e medidas de “compliance” adequadas de modo a evitar interferências políticas partidárias indevidas e assegurar a transparência das decisões de aplicação e gestão deste novo fundo, supervisionado por instituições públicas e privadas como o IPEA e a FGV entre outras.

Portanto, é possível sim melhorar o perfil da aceleração da economia e consequentemente da velocidade. O exemplo da agricultura serve de paradigma para análise de outros segmentos da maquina produtiva nacional, na perspectiva da identificação dos pontos críticos capazes de representar oportunidades diferenciadas de aumento de produtividade e renda.

Uma revisão profunda do programa PAC, por exemplo, terá por base os conceitos aqui apresentados com a finalidade de universalizar o acesso ao Novo Fundo Nacional de Investimentos a todos e será também mais um passo estruturante do novo ambiente de negócios dentro da ótica da desobstrução dos canais de crescimento econômico do país.

Eng. Nuclear Everton Carvalho

Presidente da ABIDES

 

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