SETOR ELÉTRICO – CRISE ANUNCIADA.

As altas temperaturas deste verão (2013/2014) e substancial redução das precipitações de chuva tendem a agravar a situação dos níveis dos reservatórios do Sistema Elétrico Interligado Nacional (SIN), exigindo a utilização máxima das térmicas convencionais. Como é sabido, perto de 80% das térmicas utilizam gás natural como combustível e informações do mercado indicam que grande parte desta demanda vem sendo coberta pela importação deste insumo, óleo diesel e óleo combustível, com compras da Petrobrás no mercado internacional, o que encarece ainda mais este tipo de geração.

Com a divulgação dos dados de abril/2014, podemos observar que o ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico) está utilizando como um dos principais recursos, a transferência de energia N – SE/CO, na média de 2500 MW, o que dá certa margem de segurança para manter os níveis atuais dos reservatórios da região SE/CO, mas frisando que esta energia corresponde a aproximadamente 1/3 da capacidade máxima das térmicas convencionais da região, portanto há um limite para esta utilização, cujo efeito compensador dependerá do comportamento das chuvas.

Observando as séries de 2012 a 2014, dois fatos chamam atenção e indica que ocorreu neste período uma importante mudança no regime hidrológico nas bacias localizadas na Região SE/CO:

  • O valor máximo acumulado em 2012 atingiu 80% (Fev/2012), pouco acima de 60% em 2013 (Abr/2013) e  40% em 2014 (Jan/2014). A recuperação do nível em 2012 ocorreu com apoio de térmicas que não superaram a casa dos 2.000 MW nos três meses anteriores; em 2013 as térmicas contribuíram com mais de 4.000 MW nos três meses anteriores e em 2014 esta contribuição foi acima de 3.000 MW, que se somou à transferência de 2.500 da Região Norte.

 

  • O período de recuperação em 2012 foi de dez/2011 a fev/2012, em 2013 foi de jan/2012 a abr/2013 e em 2014 somente observa-se uma leve recuperação em dez/2013, já declinando em jan/2014 e mais acentuadamente em fev/2014. O deslocamento do período da recuperação de 2013 em relação a 2012 e de 2014 em relação a 2012 e 2013 indica que a sazonalidade das chuvas vem se alterando significadamente, embora haja que ser considerado o uso intensivo de térmicas ao longo de todo o ano de 2013.

A forte queda (-14%) no nível de fev/2014 em relação à jan/2014 é um dado bastante preocupante, pois esta queda ocorreu mesmo com um aumento substancial da geração térmica convencional conforme dados do ONS, que atingiu o máximo histórico nos últimos três anos em análise, de 5.561,25 MW. Esta elevação brusca da geração térmica confirma o diagnóstico de que o ONS poderia ter errado em manter relativamente baixa esta geração em janeiro/2014.

O histórico da acumulação em 2014 continua a demonstrar que o período que deveria ser de chuvas de dezembro de 2013 a março de 2014 foi atipicamente seco, resultando num acúmulo de 38.78% do máximo nos reservatórios da Região SE/CO com plena carga das térmicas convencionais garantindo a quase constante acumulação desde março. A geração térmica acumulada em abril/2014 foi de 5537 MWh contra 4919 MWh em março, um aumento de 11%. No balanço para manter este valor constante, além do aumento da geração térmica manteve-se uma alta taxa de transferência de energia da Região Norte para a Região SE/CO de 2.364 MW médios.

Vemos que quase todos os indicadores para Região SE/CO estão em trajetória desfavorável para a recuperação dos reservatórios, portanto para a redução do risco de desabastecimento em 2014 (alguns analistas falam em risco de 20%).

Único fator positivo é a constância do regime hidrológico na Região Norte e da carga de demanda nesta mesma região, o que permite a continuidade da transferência de energia N-SE/CO de 2.500 MW médios.

Portanto, frente a este cenário desfavorável e a incerteza no regime de chuvas para os próximos meses (já com tendência declinante) a prudência recomenda medidas de “racionalização” do consumo de energia elétrica (por exemplo, através de uma campanha educativa para evitar o fator político) no curto prazo e o desenvolvimento de um plano emergencial de médio prazo com aceleração das obras de geração e transmissão de energia elétrica e a montagem de uma estratégia de longo prazo.

Com a observação dos dados de abril/2014, consolida-se a situação cada vez mais crítica, com um alerta mais claro sobre o fim do período chuvoso convencional (dezembro a março) e uma perda mais acentuada dos níveis dos reservatórios.

Em decorrência da relutância do Governo Federal em desencadear uma campanha de economia de consumo em função do ano eleitoral, a tendência é uma redução bem mais intensa do nível dos reservatórios como consequência do período seco e da impossibilidade de aumento da carga térmica e de transferências inter-regionais, ambas no limite atualmente.

 

Realizamos exercício de expectativa de esvaziamento dos reservatórios acima apontada, tomando duas taxas de referência, uma em vermelho que corresponde à taxa de depreciação do período seco de 2012 e em amarelo a taxa de 2013 , e pela observação desta simulação, o esvaziamento total dos reservatórios ocorreria entre setembro e dezembro de 2014, observado no gráfico abaixo.

crise

Portanto, para a Copa de 2014, não há risco de desabastecimento significativo, mas a partir de setembro/2014, é somente uma questão de tempo para se atingir uma situação bem crítica, caso nenhuma medida emergencial (ou um conjunto de medidas emergenciais) de curto prazo seja tomada.

Eng. Everton Carvalho

Presidente da ABIDES

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