Saneamento é chave para desenvolvimento sustentável, diz brasileiro que preside Fórum Mundial da Água

Nesta segunda (12), começa o Fórum Mundial da Água, na França, com o objetivo de estabelecer metas reais sobre a gestão e uso da água.

O presidente do Comitê Internacional do Fórum, o brasileiro Benedito Braga, acredita que o saneamento básico é ao mesmo tempo um dos maiores problemas da água hoje no mundo e também uma grande solução.

Segundo Braga, que também é vice-Presidente do Conselho Mundial da Água, 2,5 bilhões de pessoas no mundo, ou quase 30%, não têm acesso à saneamento básico, o que aumenta o número de doenças e mortes.

Além disso, o saneamento melhora a qualidade das águas dos rios e exige obras de infraestrutura que contratam mão de obra não qualificada, contribuindo para a erradicação da pobreza e do desenvolvimento sustentável.

“Fala-se muito de florestas, biodiversidade, clima, mas as pessoas esquecem que os rios urbanos no país inteiro são esgotos a céu aberto. Se você vai a Manaus, no meio da Amazônia, os rios são imundos como em São Paulo. Os igarapés são tão sujos quanto o Tamanduateí.”

Esse é um grande problema que precisamos atacar e ao atacar esse problema com saneamento nós vamos pensar em um crescimento verde”, disse Braga em entrevista exclusiva para o UOL.

Fala-se muito de florestas, biodiversidade, clima, mas as pessoas esquecem que os rios urbanos no país inteiro são esgotos a céu aberto.

Benedito Braga, presidente do Cômite Internacional do Fórum Mundial da Água.

Mais de 180 países se reúnem, entre órgãos nacionais, locais, setor privado e sociedade civil, em Marselha, na França, de 12 a 17 de março. Veja abaixo a entrevista completa com Braga.

UOL – Qual o principal problema da água hoje?

Braga – Existem problemas de escassez, causada pelo clima, e falta de acesso, que é complicado em função da necessidade de investimento. Mas há ainda um terceiro que é o problema da qualidade da água.

Não é só a quantidade e o acesso, mas o não tratamento dos esgotos, principalmente domésticos, traz consequências desagradáveis para a população. Temos a maioria de nossos rios comprometidos.

2,5 bilhões de pessoas no mundo não têm acesso a saneamento e 900 milhões não tem acesso à água potável.

O problema do saneamento traz complicações de saúde pública, a mortalidade infantil é principalmente causada por doenças de veiculação hídrica, como a diarreia, que mata algo como 30 milhões de crianças ao ano.

Posso dizer ainda que R$ 1 aplicado em saneamento significa a economia de investimento em saúde pública de R$ 7 até R$ 15.

UOL – O Brasil tem cerca de 12% da água doce superficial do planeta e também possui grande parte da maior bacia hidrográfica do mundo, a Amazônica. Mas temos um grave problema de saneamento básico no país, não é?

Braga – No Brasil, nós temos um nível de coleta de 60% da população, mas desses só uma proporção muito pequena é tratada antes de cair nos rios, na ordem de 20% a 30%. Então temos uma ordem de 10 a 15% do total que é tratado. Então, este é um tema que vamos discutir no Fórum.

Para servir a população com água potável, ela precisa ser tratada, e se a qualidade do rio é ruim, cada vez você tem que investir mais para deixá-la em nível adequado para beber. É o cachorro correndo atrás do rabo: não trata o esgoto, mas tem que tratar a água para beber.

Já temos problemas de abastecimento aqui por causa disso?

As regiões metropolitanas correm risco, sem dúvida. Na região metropolitana de São Paulo, os mananciais de água com qualidade adequada para ser tratada para servir a população estão cada vez mais distantes.

Você já não tem mais na região próxima. Isso significa que essas obras de grandes dimensões que precisam ser feitas, de grandes investimentos, demoram tempo para serem construídas e serem colocadas em operação. Se São Paulo não começar a construir hoje, daqui a 10 anos vai faltar água. Mas, não há nenhuma obra sendo construída.

Na Amazônia temos 70% da água do país, onde há 7% da população. No Nordeste temos 30% da população e somente 3% da água.

Então o problema é no gerenciamento da água, é você trabalhar tanto na construção da infraestrutura, nas obras hidráulicas e ao mesmo tempo trabalhar no uso eficiente da água. Não só no uso doméstico, na torneira, mas na produção de alimentos.

O principal consumo de água no Brasil hoje é a agricultura, certo? Há como reduzir este uso?

70% da água do mundo é usada para produzir alimentos pela irrigação, e o Brasil não é exceção à regra. E você tem q economizar água na área agrícola. Há desperdício, mas os mecanismos econômicos são os mais eficientes. O Brasil possui o mecanismo de cobrança pela água para incentivar o uso eficiente.

Este mecanismo deve ser usado para dar para as pessoas a noção de que a água é um recurso escasso, que é um recurso econômico, é o ouro azul. Se a população cresce, se a demanda por alimentos cresce, nós vamos usar cada vez mais a água e nós precisamos estabelecer critérios para o uso e ver se ele está sendo eficiente, cobrar por ele e as pessoas vão ser parcimoniosas e vão cuidar da água. Esse é um ponto muito importante que muitas vezes passa despercebido.

Ao longo do século 20 ouvimos muito que a terceira guerra mundial seria por causa da água. Como é a questão das disputas internacionais pela água?

Se você não tiver uma boa gestão da água nos rios que cortam 2 ou mais países, se você não tiver um bom sistema de comunicação entre esses países, existe o risco de conflito. Entretanto a história nos mostra que não há registro de conflito pela água.

Hoje, existe muito mais cooperação dos dados, de quanto choveu, por exemplo. Em uma época se falou de hidro-pirataria, mas isso é uma grande bobagem. O gasto para transportar essa água não seria viável.

A água mineral é exportada, mas encher um navio água doce é inviável. A água é um assunto local, de cada país ou região, quando a bacia é compartilhada.

Ligado a isso há a questão da dessalinização da água. Como estamos hoje com esta possibilidade?

Está cada vez mais barato. Está na ordem de meio dólar por metro cúbico. A dessalinização é uma solução para cidades de pequeno e médio porte à beira mar, para países que tem escassez absoluta de água.

Como você espera que a água seja abordada na Rio +20?

O governo brasileiro sabiamente colocou entre os temas que serão discutidos o tema da água. Eu acho que nós deveríamos olhar esse tema da água na Rio +20 do ponto de vista da importância da água para assegurar o crescimento econômico e a inclusão social.

O saneamento é um setor que gera uma quantidade de empregos muito grande para mão de obra não qualificada e isso em um país menos desenvolvido africano ou asiático é ótimo, porque gera emprego, gera renda e diminui a pobreza. E a Rio +20 está preocupada com isso. E nós precisamos assegurar água para produção de alimentos para conseguir o crescimento verde e erradicar a pobreza.

E depois na água para a proteção dos ecossistemas aquáticos, que são os mais deteriorados no nosso pais.

Esse é um grande problema que precisamos atacar e ao atacar esse problema nós vamos pensar em um crescimento verde. E vamos limpar através de um saneamento adequado, o que gera empregos e desenvolvimento. Isso é que é desenvolvimento verde de verdade.

Fala-se muito de florestas, biodiversidade, clima, mas as pessoas esquecem que os rios urbanos no país inteiro são esgotos a céu aberto. Se você vai a Manaus, no meio da Amazônia, os rios são imundos como em São Paulo. Os igarapés são tão sujos quanto o Tamanduateí.

E o que você espera de resultado do Fórum? Ele está bem focado em 12 prioridade de ações e 3 condições de sucesso. Espera ter um acordo com metas reais?

Espero que nosso Fórum possa trazer soluções inovadoras, compartilhamento de soluções que foram exitosas em alguns países –já colocamos na internet mais de 1.200 soluções.

E que seja possível que alguns países possam assumir compromissos de colocar essas soluções em prática, que as metas que foram definidas no âmbito das comissões do Fórum possam ser aceitas por governos nacionais, locais, sociedade civil organizada e setor privado, por que nosso Fórum é multiatores, nós temos um universo de participação variado. Queremos que os jovens assumam compromissos com a água.

Matéria de Lilian Ferreira, no UOL, em São Paulo.

EcoDebate, 13/03/2012

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