RS: A capital da soja

RS: Na capital da soja, assentados driblam uso de agrotóxicos e investem na produção orgânica.

 

Entre os motivos para o fortalecimento desta atuação no último ano, está a busca de um novo modelo de produção e a localização dos assentamentos.

 

RS: Na capital da soja, assentados driblam uso de agrotóxicos e investem na produção orgânica

 

Por Catiana de Medeiros
Da Página do MST

 

O incentivo à produção de alimentos saudáveis, sem o uso de venenos e agroquímicos, integrou as principais ações desenvolvidas por meio do Programa de Assessoria Técnica, Social e Ambiental à Reforma Agrária – ATES, do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária – INCRA, no ano de 2015 no município de Tupanciretã, na região Central do Rio Grande do Sul.

 

Entre os motivos para o fortalecimento desta atuação no último ano, realizada pelos técnicos da Cooperativa de Trabalho em Prestação de Serviços Técnicos – COPTE, está a busca de um novo modelo de produção e a localização dos assentamentos: “a região é uma das que mais investe no monocultivo de soja à base de agrotóxicos”, lamenta Roberto da Silva, um dos coordenadores do núcleo operacional da COPTEC no município.

 

Segundo informações do Fórum Gaúcho de Combate aos Impactos dos Agrotóxicos, o RS ocupa a quarta posição entre os estados que mais usam veneno no Brasil. A estimativa de consumo destas substâncias, por habitante, é de 8,3 litros ao ano.

 

Já em abrangência nacional, de acordo com o Instituto Nacional de Câncer – INCA, são consumidos cerca de 7,5 litros por pessoa anualmente – 0,8 a menos que no RS. Este dado coloca o Brasil no topo da lista dos países que mais consomem agrotóxicos no mundo.

 

Contrariando esta realidade local, estadual e nacional, que tem causado cada vez mais doenças nos seres humanos e prejudicado o meio ambiente e os bens naturais, há cerca de seis anos um grupo de agricultores ligado ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra – MST  optou por adotar uma alternativa mais sustentável: a produção de alimentos orgânicos.

 

Hoje, além de servir para o autossustento das famílias e a comercialização em feiras e direto ao consumidor, os produtos saudáveis chegam nas instituições de ensino através do Programa Nacional de Alimentação Escolar – PNAE. Somente em Tupanciretã, os assentados abastecem 20 escolas municipais e seis estaduais, envolvendo, ao todo, 23 projetos e mais de 10,5 mil quilos de alimentos.

 

Entre elas, está a Escola Estadual de Ensino Fundamental Tupanciretã. A instituição tem em torno de 200 alunos e há cerca de seis anos adquire, entre outros produtos, orgânicos por meio do PNAE.

 

Conforme o diretor Rogério Carnelosso, os alimentos são preparados para o lanche escolar, que é oferecido de segunda a sexta-feira, entre os intervalos das aulas, em dois horários: 10h15 e 15h10.

 

“Apesar dos procedimentos burocráticos para adquirir os alimentos, o Pnae é um bom programa, pois nos possibilita alimentar em horário escolar os nossos alunos. Muitos, às vezes, nem têm o que comer quando retornam às suas casas. Eles gostam, principalmente quando são produtos saudáveis”, disse o diretor.

 

Assistência e incentivos

 

Segundo o coordenador Silva, o grupo de produtores é composto atualmente por 14 famílias, oriundas de quatro assentamentos, que comercializam alface, repolho, tempero verde, folhas de couve, mandioca descascada, batata-doce, moranga cabotiá, alho, cenoura, beterraba, laranja, bergamota e feijão, no PNAE.

 

Para fortalecer o grupo e auxiliar na produção, a Coptec realiza reuniões, cursos e oficinas a cada 15 dias, além de visitas individuais nas propriedades. A cooperativa também dá assistência na elaboração de projetos de venda e na organização dos produtos para entrega, controle e prestação de contas.

 

Este incentivo na produção de orgânicos envole ainda outros objetivos fundamentais, que vão desde a geração de renda para os assentados até uma alimentação mais saudável para produtores e consumidores.

 

“Nosso intuito é diversificar a produção e auxiliar os agricultores na transição para a produção orgânica”, explicou Silva.

 

“O povo gosta de um alimento sadio”

 

Inserido na prática do trabalho coletivo, o agricultor Jolcimar Guilardi, 48 anos, do Assentamento Santa Rosa de Tupanciretã, trabalha há mais de 15 anos com a produção orgânica. Para ele, mesmo estando em uma região onde há intenso uso de agrotóxicos, produzir alimentos saudáveis gera muitos benefícios.

 

“Nós vivemos num município que é conhecido como a capital da soja, por ser o maior produtor deste grão no estado, e, consequentemente, como um dos que mais usa agrotóxicos.

 

Estamos cercados por esta realidade, que também nos traz prejuízos, mas firmes para combatê-la em nossos meios e continuar a produção de alimentos saudáveis, obtendo renda e vivendo com dignidade”, destacou.

 

Além de entregar para escolas e vender em feiras e mercados, o assentado revelou que há projeções de a produção orgânica de assentamentos de Tupanciretã se expandir para o município de Santa Maria, também na região Central.

 

“Existe este desejo e já temos experiências. O povo gosta de um alimento sadio, muitas vezes não tem o que chega. Além termos mais vida e saúde, ainda conseguimos proporcionar isso à sociedade, o que é muito gratificante”, finalizou Guilardi.

 

in EcoDebate, 08/01/2016

 

 

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