PROGRAMA NUCLEAR: CHOQUE DE ÉTICA.

PROGRAMA NUCLEAR: CHOQUE DE ÉTICA.

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Neste momento em que há sinais de recuperação econômica, o setor nuclear deve olhar para si e buscar reconhecer os fatos e fatores que influenciaram e influenciarão seu destino.

Saímos das suspeitas internacionais quanto ás finalidades do nosso programa, assinamos o TNP e construímos Angra 2 – estamos próximos do reator multipropósito e urge a criação da Agência Nacional de Energia Nuclear – ANEN, há anos inexplicavelmente em gestação inerte.

O trauma da Lava-Jato, com o indiciamento e prisão de diversos envolvidos em atos de corrupção, independente das culpas, trouxeram uma grande dose de descrédito para o setor, em particular para a Eletronuclear, herança de difícil superação, porém desafio a ser encarado de frente e com toda a seriedade que tal situação deplorável exige.

Já havíamos vivenciado uma séria crise com os desvios no Núcleos e os loteamentos políticos nas empresas estatais do setor. Em 2004, quando retornei de Londres, onde ocupei cargo de representação no Centro de Coordenação da WANO, percebi “algo de podre no Reino” – pessoas sem a devida qualificação profissional ocupando cargos de direção, para não dizer dos graves problemas de gestão, facilmente detectáveis por uma simples auditoria. Preferi sair da empresa, pois percebi que não havia como contribuir neste quadro de favorecimentos e perseguições político-ideológicas.

Vejo de forma positiva a recomposição da diretoria da Eletronuclear, com a nomeação de quadros técnicos formados na própria empresa, técnicos conhecedores dos problemas da empresa e do setor e espero que o Governo Temer tenha assimilado a lição nefasta da gestão petista, no que tange ao loteamento político nas empresas estatais do setor nuclear, que gerou anos e anos de atraso para a evolução positiva da área nuclear, com claros prejuízos, tanto para a construção de Angra 3  quanto para o ciclo do combustível nuclear, objeto de algumas decisões ainda a serem esclarecidas.

Na gestão do Eng. Roberto da Franca na INB, que acompanhei de perto, havia uma preocupação constante com o acompanhamento da evolução tecnológica, mesmo sem ter as condições ideais, foi possível manter o patamar de modernização requerido para este segmento, gestão esta que estabeleceu as bases para a implantação do enriquecimento de urânio em escala industrial. Será necessário que se tome as medidas para recuperar o patrimônio tecnológico, tanto da INB como da Eletronuclear, que é a base para uma possibilidade futura de retomada do programa nuclear em bases sólidas e principalmente com a devida transparência que a sociedade exige e merece.

O grande desgaste da Lava-Jato não será resgatado sem uma postura muito clara do Governo Temer e dos dirigentes  quanto a um compromisso com a reforma do setor – exige-se um novo modelo institucional, pois este que ai está se esgotou e a participação do capital privado nacional e internacional é requisito básico para se obter algum sucesso numa eventual retomada, sem os vícios que eivaram as propostas e negociações, principalmente com empreiteiras e grandes grupos internacionais – essas parcerias serão necessárias, porém vamos nos manter atentos para que os desvios de conduta não contaminem mais uma vez estas negociações.

É necessário um “choque ético“, capaz de identificar e banir os desvios que porventura subsistam – uma das principais receitas é a transparência que ainda está escassa – os funcionários, dirigentes e  principalmente o Governo Federal devem se comprometer com este choque, incluindo-se ai o fundo de pensão do setor.

A separação do segmento de fiscalização do setor de produção com a criação da nova agência reguladora é passo inadiável, levando a atual NUCLEP e INB para a competência do MME, de modo a responder às críticas históricas de ambientalistas. cientistas e formadores de opinião que vem apontando historicamente esta incompatibilidade.

Que se aja agora, para evitar que o setor venha a amargar um novo escândalo e possa retomar o seu papel fundamental para a nossa segurança energética e desenvolvimento tecnológico.

Eng. Nuclear Everton Carvalho

Presidente da ABIDES

 

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