Povos Indígenas do Acre: fortalecimento da soberania alimentar através do intercâmbio de sementes tradicionais

india

 

Com intuito de cada vez mais fortalecer uma articulação entre os povos indígenas na região do Alto Juruá, valorizar os conhecimentos tradicionais e apoiar, de fato, suas estratégias de gestão territorial e ambiental, é que foi realizado o seminário “A gestão territorial e ambiental das Terras Indígenas na faixa de fronteira e I Intercâmbio de Sementes Tradicionais do Alto Juruá”, na Terra Indígena Kaxinawá/Ashaninka do Rio Breu, realizados e coordenados pela Comissão Pró-Índio do Acre – CPI/AC  e pela Associação do Movimento dos Agentes Agroflorestais Indígenas do Acre AMAAIAC, em parceria com a Associação Kaxinawá do Rio Breu – AKARIB  e Ashaninka do Rio Breu AARIB.

 

Este trabalho contou com o apoio da FUNAI e faz parte do projeto “Gestão Indígena no Acre”, que conta com o patrocínio da Petrobras através do Programa Petrobras Socioambiental.

 

Trata de uma iniciativa local dos povos indígenas da região do Alto Juruá: o intercâmbio de sementes tradicionais, que tem significativo valor para sustentar a conservação e diversificação dos recursos genéticos e conhecimentos tradicionais associados à biodiversidade e agrobiodiversidade.

 

O evento ocorreu no período de 09 a 15 de abril, quando também ocorria a grande mobilização nacional pelos direitos indígenas, os quais estão cada vez mais ameaçados.

 

Estas são iniciativas importantes para a manutenção dos povos indígenas e seus conhecimentos tradicionais, que agora sofrem mais uma ameaça, quando o Projeto de Lei 7735, aprovado recentemente pelo Congresso Nacional, restringe, senão nega, direitos indígenas, no que diz respeito a participar, justa e corretamente, do controle, acesso e benefícios decorrentes do uso destes conhecimentos tradicionais associados à biodiversidade.

 

Troca de sementes tradicionais, visitas aos roçados, SAFs e parques medicinais

 

O intercâmbio contou com a presença de cerca de 80 indígenas: sendo 25 agentes agroflorestais indígenas e os demais professores, agentes de saúde, artesãs, estudantes, representantes de nove TIs do Acre, e uma comunidade nativa do Peru, demonstrando a diversidade de sete povos indígenas no encontro – Huni Kuĩ – Kaxinawá, Asheninka, Noke Koĩ – Katukina, Nukini, Puyanawa, Jaminawa-Arara e Yanesha.

 

A atividade de intercambiar sementes tradicionais, faz parte da formação de Agentes Agroflorestais Indígenas desde 1996. Por meio dela são valorizados os conhecimentos tradicionais ligados ao uso e manejo da agrobiodiversidade, como a conservação das sementes tradicionais, dialogando com os princípios da agroecologia.

 

A atividade tem contribuído significativamente para evitar a erosão genética e a perda de conhecimentos associados à agrobiodiversidade, em uma decisão clara de impedir o uso de sementes híbridas e transgênicas em terras indígenas.

 

Um dos momentos das discussões das visitas aos roçados indígenas buscou evidenciar a diversidade existente nos locais e o conhecimento de vários povos indígenas sobre o status da agrobiodiversidade em suas terras e a troca de experiências para evitar que os impactos do entorno, ameacem a soberania e segurança alimentar dos povos da região e enfraqueçam a conservação da agrobiodiversidade nestes territórios.

 

A troca de sementes tradicionais propriamente, foi realizada na Aldeia Vida Nova, onde foram compartilhadas 88 tipos de plantas, entre espécies e variedades, cultivadas na terra indígena em áreas de roçado, sistemas agroflorestais, quintais e parques medicinais. Foi destaque ainda, os pratos tradicionais do povo Huni Kuĩ que foram oferecidos durante o intercâmbio que mostra a bela situação da agrobiodiversidade  na TI.

 

Além de fortalecer a segurança e a soberania alimentar destes povos, a partir da diversificação de seus plantios e da recuperação de algumas espécies que já não existiam mais em determinadas terras indígenas, a troca de sementes foi importante para aumentar a variabilidade genética dessas espécies.

 

Todo o material produzido no intercâmbio, como depoimentos e reflexões dos participantes, está sendo sistematizado para retornar aos AAFIs e suas comunidades, com objetivo de auxiliar no trabalho de conservação da agrobiodiversidade em suas comunidades.

 

Para o agente agroflorestal indígena Aldemir Mateus Kaxinawá, da Aldeia São José:“Intercâmbios como esse são muito importantes porque, além de promover a troca de sementes entre vários povos, fortalece muito o conhecimento tradicional de todos. Nosso trabalho é um trabalho bonito, com muita luta, onde a gente procura defender a nossa floresta, nosso território, pra gente garantir a vida do nosso povo e de nossas futuras gerações”.

 

Com o estímulo das sementes adquiridas no intercâmbio, atividades práticas de agrofloresta foram desenvolvidas na Aldeia Jacobina, como a construção de um viveiro e uma sementeira para produção das mudas de espécies frutíferas e florestais. Além de um mutirão para o plantio direto de plântulas de açaí e bacaba levadas pela equipe da CPI/AC.

 

O plantio ocorreu no entorno do açude da aldeia visando à recomposição da mata ciliar e ao mesmo tempo oferecendo alimento para a comunidade e peixes de criação. Também foi realizada uma caminhada pelos variados sistemas de produção agroecológica da aldeia, destacando uma diversificada área de ervas medicinais, onde o agente indígena de saúde, Ruinete Sereno desenvolve, com sua comunidade, um trabalho tradicional de “farmácia viva”.

 

Nesta proposta, cultivam espécies medicinais, produzem remédios naturais e potencializam a saúde coletiva da comunidade.

 

“Nós sempre estamos juntos na luta e agora que chegou a vez da gente se encontrar aqui na Terra Indígena Kaxinawá/Ashaninka do Rio Breu, trazendo a equipe da CPI/AC, os parentes, para conhecerem nossa terra, nosso rio, nossa aldeia, conhecer pessoalmente as lideranças, AAFIs e nossa comunidade. É muito importante que a gente tenha esse seminário, essa troca de experiências, entre nós Huni Kuĩ e outros povos, sobre como a gente planta, quais as sementes que usamos. É bom discutirmos isso para entendermos o que aquele parente consome, daquela plantação, que já havíamos perdido a semente e vamos trazer de volta aqui pra aldeia, pra segurança alimentar da nossa comunidade… A gente vai fortalecer as nossas plantações e isso cabe a nós organizarmos no dia a dia esse trabalho junto aos AAFIs, aproveitando esse momento para aprendermos mais e lutar pela nossa soberania.” Fernando Henrique Kaxinawá – presidente AKARIB.

 

1Por Paula Lima e Marcos Catelli1

 

Com a colaboração de Vera Olinda e Wanessa Marinho

 

Publicado no Portal EcoDebate, 11/06/2015

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Copy Protected by Chetans WP-Copyprotect.