Por uma agricultura sustentável

Na Science, especialistas de vários países, inclusive do Brasil, sugerem medidas para que a produção de alimentos cresça sem causar danos à natureza e ao clima do planeta. Investimento em novas tecnologias é o melhor caminho.

O mundo se encontra diante de um gigantesco desafio: aumentar a produção de alimentos sem destruir a natureza nem piorar o aquecimento global. O problema, dizem os cientistas, é que a humanidade já chegou muito perto de seu limite seguro.

O planeta abriga hoje 7 bilhões de pessoas, e a produção atual seria capaz de nutrir entre 8 bilhões, segundo estimativas mais conservadoras, e 10 bilhões, para os mais otimistas.

Como a população não para de crescer, torna-se urgente a ampliação da capacidade agropecuária, caso contrário, em algumas décadas, a fome não será um problema apenas político e econômico, mas também numérico.

Como incrementar a produção sem que isso signifique aumentar a emissão de gases do efeito estufa e sem destruir ainda mais florestas para transformá-las em campo?

É essa pergunta que especialistas governamentais de várias partes do mundo, incluindo o Brasil, buscam responder em um comentário publicado na edição de hoje da revista científica Science.

O artigo aponta que o caminho para a conciliação entre agricultura e proteção ambiental é pavimentado em grande parte pela ciência.

O desenvolvimento de ferramentas que intensifiquem de maneira sustentável a agricultura, segundo os gestores, seria a ferramenta mais eficiente para aproveitar melhor o solo e a água, sem que isso implicasse em danificar os ecossistemas.

Além disso, as mudanças climáticas, em ritmo acelerado, também provocarão a necessidade de adaptação da forma como a agropecuária trabalha hoje.

“Precisamos definir nosso foco em agricultura, estabelecendo como prioritárias as práticas que continuam a aumentar o rendimento e melhorar a sua eficiência”, explica ao Correio a norte-americana Molly Jahn, da Universidade do Wisconsin–Madison, nos Estados Unidos, uma das autoras do comentário.

Para o grupo de especialistas ouvidos, o primeiro passo para solucionar a questão é a tomada de consciência, por parte dos países, de que o combate às mudanças climáticas não passa apenas pela mudança do padrão energético, com a redução do uso de combustíveis fósseis. Uma produção agrícola menos agressiva também tem um papel importante nesse processo.

“O investimento em pesquisa aumenta a produtividade e a estabilidade da produção, e também reduz o impacto ambiental da agricultura”, afirma Jahn – veja quadro com as recomendações.

“Os governos devem reconhecer claramente o desafio da segurança alimentar, que é um problema crônico em alguns lugares no mundo em desenvolvimento, mas também é um problema nos países desenvolvidos, como o meu”, completa a norte-americana.

A agricultura precisa se tornar um eixo central da questão das mudanças climáticas” Carlos Nobre, secretário de Políticas e Programas de Pesquisa e Desenvolvimento do MCTI

Bons exemplos

Na tentativa de fazer com que a ciência seja mais ouvida na tomada de decisões, os especialistas citam casos de sucesso em nações ricas e pobres.

De acordo com o artigo, no Níger, a implantação de 5 milhões de hectares de agroflorestas, um sistema que integra agricultura e florestas para alcançar produtividade e ao mesmo tempo preservar o solo, beneficiou 1,25 milhão de domicílios, aumentou em 500 mil toneladas a produção de grãos, além de manter e ampliar o sequestro de carbono.

A implantação de iniciativas mais verdes na Dinamarca vem reduzindo em 28% as emissões de gases de efeito estufa, com aumento de produtividade.

Para eles, a abordagem integrada de agricultura e mudanças climáticas deve se tornar um dos eixos centrais tanto na discussão de como alimentar a população de regiões de extrema pobreza quanto na solução dos problemas do clima.

Contudo, ainda falta vontade política para que saiam do papel. “Muitas práticas agrícolas se mostram promissoras no que se refere a reduzir os riscos inerentes à produção de alimentos, cortar as emissões de gases de efeito estufa e, ao mesmo tempo, proteger as florestas e outros recursos naturais”, afirma, por meio de sua assessoria de imprensa, Tekalign Mamo, do Ministério da Agricultura da Etiópia.

“No entanto, as políticas atuais não dão um estímulo suficiente para a adoção de abordagens sustentáveis nem estão preocupadas em preparar o setor agrícola mundial para as mudanças climáticas”, completou.

O secretário de Políticas e Programas de Pesquisa e Desenvolvimento do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação – MCTI, Carlos Nobre, concorda. Para ele, as negociações sobre o tema em nível internacional precisam ser agilizadas.

“Na COP-17, não podemos dizer que não houve avanços, mas eles foram poucos e muito lentos”, lembra o secretário, referindo à conferência das Nações Unidas sobre mudanças climáticas realizada na África do Sul em dezembro passado.

“A agricultura precisa se tornar um eixo central da questão das mudanças climáticas. Se somarmos o carbono liberado pela produção agrícola, de maneira direta e indireta, que inclui o que é desmatado para plantar, veremos que o efeito é maior do que o da produção de energia, incluindo combustíveis fósseis”, aponta.

Para ele, o desafio central na questão é que tanto países ricos quanto pobres não veem na questão uma oportunidade de crescimento, e sim, uma forma de limitação da produção. “Os países pobres alegam que produzem pouco e não têm histórico de emissão.

Dizem que a questão não é interessante para eles”, explica o secretário do MCTI. “Já os países ricos, que têm uma agricultura de ponta e altamente emissora, enxergam na mudança uma ameaça à produtividade.”

Menos carbono

No caso do Brasil, Carlos Nobre acredita que já existe uma larga gama de alternativas para produzir mais de maneira mais sustentável, já que o país seria um dos líderes em tecnologia agrícola e ambiental no mundo.

“Já está implantado o programa de financiamento da agricultura de baixo carbono, existem várias práticas de integração de agricultura e pecuária que não diminuem a produtividade, melhoram a produção e produzem menos carbono.

Sem falar em formas de fixação de nitrogênio no solo sem a necessidade de uso de fertilizantes, o que diminui a liberação de óxido nitroso, um dos gases do efeito estufa”, exemplifica.

“O problema é que a procura pelos empréstimos, por exemplo, ainda é muito baixa. O setor agropecuário precisa responder se está disposto a aderir a essas iniciativas”, questiona.

Para ele, a participação dos produtores precisa ser melhor trabalhada, pois existe uma cultura que dificulta a inovação na área.

“No Brasil, esse é um setor culturalmente muito conservador, tradicionalmente lento para incorporar novas tecnologias”, declara Carlos Nobre.

“A mudança de paradigmas na produção agrícola é inevitável. Não vejo, daqui a 20 anos, uma agricultura igual à de hoje”, acrescenta.

Rodrigo Justus de Brito, assessor da Comissão Nacional de Meio Ambiente da Confederação Nacional da Agricultura – CNA, concorda com a posição dos especialistas de que a agricultura tem sido deixada de lado na discussão ambiental.

“A produção agrícola vem sendo vista com um detalhe na questão do desmatamento, vem sendo empurrada com a barriga”, acredita.

“A questão vem de encontro ao que pensamos em relação à política internacional. A ciência deve colaborar. Principalmente produzindo estudos que mensurem quanto emitimos em cada atividade para que as áreas mais problemáticas sejam melhoradas”, completa o representante.

Para ele, contudo, ao contrário do que afirma o secretário Carlos Nobre, o setor agrícola brasileiro está aberto à inovação. “A agricultura brasileira é de baixa emissão. A maior parte das emissões de carbono brasileiras estão ligadas ao desmatamento”, afirma o assessor da CNA.

“A baixa adesão a alguns programas se deve muito mais à falta de regulamentação estatal e à dificuldade que o agricultor tem de acessar esses programas”, opina.

De acordo com Brito, nos próximos anos, o panorama deve melhorar. “As regulamentações dos programas de concessão de crédito para produção de baixo carbono saíram e provavelmente teremos um aumento da procura em 2012″, aposta.

“Na verdade, teremos um problema maior. Foram R$ 2 bilhões para esse tipo de financiamento. Na medida em que todos procurarem, deve faltar dinheiro.”

Soluções

Veja as recomendações do grupo de especialistas para a mitigação das mudanças climáticas:

» Integrar a segurança alimentar e a agricultura sustentável nas políticas globais e nacionais, incluindo as de adaptação e mitigação de mudanças no clima.

» Aumentar o investimento global em sustentabilidade na agricultura e em sistemas de produção de alimentos.

» Intensificar a produção agrícola de forma sustentável e, ao mesmo tempo, reduzir as suas emissões e outros impactos ambientais.

» Criar programas-alvo e políticas de apoio às populações mais vulneráveis.

» Remodelar o acesso e o consumo de alimentos e assegurar que as necessidades nutricionais básicas sejam atendidas.

» Reduzir a perda de resíduos alimentares e de toda a cadeia de abastecimento.

» Criar sistemas de informação abrangentes sobre as dimensões humanas e ecológicas das mudanças climáticas e da fome.

Fonte: Science

Artigo de Max Milliano Melo

Artigo no Correio Braziliense, socializado pelo ClippingMP.

Do Globo Natureza.

ECODEBATE – 24/1/2012

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