ORGIA CONSERVADORA NO BRASIL.

ORGIA CONSERVADORA NO BRASIL.

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Observamos o fenômeno do surgimento de diversas manifestações de intolerância religiosa e outras modalidades de intolerância decorrente de fundamentalismo de cunho religioso.

 
O caso que mais chamou atenção, recentemente, foi o ataque a Kayllane Campos, 11 anos, atingida na testa por uma pedra no último dia 14 ao sair de um culto do candomblé. A menina caminhava pela Avenida Meriti, acompanhada por sete pessoas que haviam saído de um evento religioso, quando dois homens que estavam em um ponto de ônibus do outro lado da rua, com Bíblias sob os braços, começaram a insultá-los.

 
É sintomático que esta manifestação de intolerância tenha acontecido num momento em que o Congresso Nacional adota uma pauta de deliberações pontuada por temas nitidamente de caráter conservador, como a redução da maioridade penal e a redução de direitos básicos dos trabalhadores.

 
Bancadas religiosas e outras ligadas a temas conservadores trabalham dentro da “lógica da exclusão” e não da “inclusão”, da “punição” e não da “prevenção”. Pautas propositivas são trocadas por pautas punitivas, aproveitando-se de preconceitos e tradições arraigadas na nossa sociedade.

 
A atual Constituição estabeleceu em seu artigo 19, o seguinte: “É vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios: I – estabelecer cultos religiosos ou igrejas, subvencioná-los, embaraçar-lhes o funcionamento ou manter com eles ou seus representantes relações de dependência ou aliança, ressalvada, na forma da lei, a colaboração de interesse público.”
Com base nesta disposição, o Estado brasileiro foi caracterizado como laico, palavra que, conforme o dicionário Aurélio, é sinônimo de leigo e antônimo de clérigo (sacerdote católico), pessoa que faz parte da própria estrutura da Igreja. Neste conceito, Estado leigo se difere de Estado religioso, no qual a religião faz parte da própria constituição do Estado.

 
Portanto, sendo o Estado Brasileiro um Estado Laico, é ilegal a criação de “bancadas religiosas”, seja de qualquer religião, no Congresso Nacional, pois, fora da lei, constituem-se em organizações criminosas, que dentro da própria lógica das lideranças conservadoras deveriam ser proibidas e seus integrantes devidamente criminalizados. Por mais paradoxal que pareça, as bancadas religiosas seriam ilegais, porém bancadas, também conservadoras, como a chamada “bancada da bala” e a “bancada ruralista” seriam legais.

 
Infelizmente algumas religiões cresceram recentemente no Brasil, aproveitando-se de preconceitos e tradições, e mesmo da ignorância, de amplos segmentos da nossa sociedade sem acesso à educação e cultura. O preconceito contra minorias, como os homossexuais, usuários de drogas lícitas e ilícitas, jovens negros e pobres das periferias e mesmo manifestações culturais tradicionais, como as religiões afro-brasileiras, alimentam o crescimento da atual onda conservadora.

 
Estas religiões se aproveitam do sofrimentos dos segmentos marginalizados da sociedade utilizando os mais diversos mecanismos de exploração, como a promessa de curas milagrosas, fórmulas de enriquecimento e de obtenção de sucesso financeiro e, além de fomentar a intolerância, obtém enormes lucros através de “dízimos” e doações que enriquecem os “líderes” destas organizações.

 
No bojo desta conjuntura, governantes inescrupulosos fecham os olhos para os abusos e agressões contra os mais vulneráveis, ignorando e até incentivando as ações de grupos de extermínio paraestal, ou mesmo se associando a organizações criminosas, com o fim único e exclusivo de manter o controle sobre “currais eleitorais”, pela via do medo e do terror, que agora se apresenta na nova forma de intolerância religiosa.

 
Cabe ao Estado Brasileiro, através dos governantes sérios e do Congresso Nacional, cumprir o seu papel de levar condições dignas de vida para todos, propiciando educação de qualidade, acesso aos equipamentos culturais, oferecendo serviços de saúde e saneamento básico, que são obrigações constitucionais e que não estão sendo cumpridas, abrindo espaço para esta verdadeira orgia conservadora, que poderá levar o Brasil ao caos social e econômico.

 
Eng. Everton Carvalho
Presidente da ABIDES

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