O fluxo migratório haitiano e o seu impacto na economia

A migração decorrente em muitas partes do mundo atualmente revela a incapacidade desses povos diante das diversidades que os atingem.

Desde 2010, quando um terremoto provocou milhares de mortes no Haiti, caribenhos tem se lançando rumo a novas oportunidades de emprego e de uma vida digna no Brasil.

 

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Beco da Alegria, número 300, bairro Rubem Berta em Porto Alegre, é onde mora o haitiano Elysée Bazile, 29 anos, que há pouco mais de seis meses deixou o seu país em busca de emprego no Brasil. O endereço é bastante sugestivo e coincide com a expectativa de encontrar em solo brasileiro uma oportunidade para recomeçar.

Após contar com a ajuda de familiares e somar o valor equivalente a US$ 1.258para compra de uma passagem de avião, Bazile transpôs os mais de quatro mil quilômetros que separam o Brasil do Haiti em busca de melhores condições de vida.

Atualmente, Bazile está buscando uma oportunidade de emprego, após ser iludido com a promessa de um contrato verbal que não lhe conferiu o valor salarial combinado. “Emprego é a principal motivação que me trouxe ao Brasil”, afirma o jovem haitiano que busca pela segurança do serviço fixo,bem como da carteira de trabalho assinada, que ofereça a ele todos os benefícios que um trabalhador deve receber.

Elysée Bazile faz parte da onda migratória haitiana que desde 2010 vem buscar oportunidades empregatícias no Brasil. Segundo dados da Policia Federal, mais de 39 mil haitianos entraram no Brasil entre o período de 2010 e setembro de 2014.

Após o terremoto que registrou grau sete na escala Richter e matou 250 mil pessoas no Haiti, além de deixar 1,5 milhão de desabrigados no país mais pobre das Américas, teve início esse movimento de imigração em pleno século XXI. O difícil cenário econômico no país em que 80% da população sobrevive abaixo da linha da pobreza gerou uma onda migratória cujos efeitos se sente no Rio Grande do Sul, bem como nas capitais do Brasil que são destinos dos haitianos.

Bete Correa, integrante da Assessoria de Imprensa da Fundação Gaúcha do Trabalho e Ação Social, diz não haver dados sobre os haitianos em particular, mas através das Agências FGTAS/SINE é possível constatar que as vagas preenchidas pelos imigrantes em sua grande maioria são de nível médio (veja tabela no final da matéria).

Segundo a administração do Centro Vida Humanístico, localizado na zona norte de Porto Alegre, entre os 60 haitianos vinculados atualmente à associação, apenas seis encontram-se desempregados, enquanto um está trabalhando sem carteira assinada em uma lavagem de veículos.

Morando de aluguel na companhia de três amigos e conterrâneos que conheceu em Porto Alegre, Elysée Bazile era professor de francês no Haiti quando decidiu vir ao Brasil.Porém, o aluguel de R$ 400, no bairro Rubem Berta, dividido entre os quatro moradores da casa de três cômodos e banheiro, revela a difícil situação.

Bazile pertence à denominação cristã Adventista do Sétimo Dia, através de suas relações com outros fiéis pretendia morar no Rio de Janeiro com o intento de cursar engenharia mecânica, mas em razão das limitações financeiras decidiu permanecer em Porto Alegre e adiar o sonho de estudar.

Diferente dos imigrantes italianos, alemães e poloneses que chegaram ao Rio Grande do Sul em meados do século 19, os caribenhos são naturais da cidade, e nos municípios do interior é que eles estão encontrando mais espaço no mercado de trabalho, isso se dá devido à demanda existente por parte das empresas, além do alto custo de vida das grandes cidades. Estima-se que atualmente cerca de sete mil haitianos estejam vivendo no Rio Grande do Sul.

Conforme dados do Ministério do Trabalho e Emprego em pesquisa realizada em âmbito nacional entres os períodos de janeiro de 2010 e setembro de 2013, o número de carteiras de trabalho emitidas para haitianos é equivalente a 6.136 mil, sendo a maior parte desse número de homens na faixa etária de 21 a 30 anos.

Link pesquisa: http://reporterbrasil.org.br/wp-content/uploads/2014/01/CTPS-Haitianos-até-30-09-2013.xlsx

A busca das empresas por esse perfil, somado ao bem visto serviço oferecido pelos haitianos, favorece aos caribenhos que tem preenchido as vagas na linha de frente de produção. “Os brasileiros não querem trabalhar”, explica Iraci Avila, coordenadora do Centro Vida Humanístico, ao ser questionada sobre a razão pela qual há tão grande demanda por esses profissionais por parte dos empresários que contatam a associação com o objetivo de contar com os imigrantes como seus colaboradores.

A entrada dos imigrantes no país é vista com bons olhos por empresários e a permanência é facilitada devido ao interesse que há nessa massa trabalhadora. Segundo dados do Conselho Nacional de Imigrantes e do MTE, o Haiti lidera o ranking de pedidos de refugio no Brasil seguido de longe por Bangladesh e Senegal. Embora haja uma resistência por parte de alguns brasileiros quanto à vinda dos imigrantes para o Brasil, os haitianos estão às portas e muitos já têm encontrado aqui uma nova chance.

Na cidade de Santa Maria, interior do Estado, recentemente o senegalês Che Cheikh Oumar Foutyou Diba, 25 anos, foi alvo de três homens que atearam fogo ao colchão em que dormia o estrangeiro, após ser socorrido a ocorrência foi registrada na Polícia Federal que investiga o caso.

As razões para atitudes discriminatórias como essa são as mais diversas, em determinados casos as motivações podem ser racistas e xenofóbicas, resultando em ações extremas por parte dos criminosos. Porém, de forma mais sutil, alguns haitianos são rechaçados no ambiente de trabalho por alguns brasileiros que veem a presença deles como uma concorrência e ameaça que tem tirado dos brasileiros a oportunidade de trabalhar.

Bazile relata que na experiência que teve trabalhando em Porto Alegre, deparou-se com a indiferença de um colega que se recusava lhe dirigir qualquer palavra que fosse.

Outro caso, que por sua vez recebeu repercussão nacional no programa CQC, aconteceu com um frentista haitiano que trabalha em um posto de gasolina em Porto Alegre. Alvo de um homem cujo discurso era preconceituoso e que o acusava de tomar o emprego de pais de família, o haitiano em entrevista a uma emissora de televisão disse não entender os motivos pela qual foi agredido verbalmente.

O argumento usado pelo agressor ao afrontar o frentista haitiano é semelhante ao de muitos outros que pensam da mesma forma. O fato de os haitianos estarem empregados significa para uma parcela da sociedade uma ameaça e intensifica o desemprego de brasileiros. Recentemente, na assembleia geral da ONU, a presidente Dilma se posicionou sobre os imigrantes: “Somos um país continental e todos os refugiados que quiserem vir trabalhar, viver em paz, ajudar a construir o país, criar seus filhos, viver com dignidade, nós estamos de braços abertos”, salientou a presidente.

É possível dimensionar as marcas, ainda que de forma lenta e gradativa, que os haitianos têm deixado na economia por aqui em razão a forma com que os mesmos têm sido inseridos no mercado de trabalho. Os novos imigrantes fugiram da pobreza e conseguiram embora no saturado mercado de trabalho encontrar o seu lugar. Ainda que esses empregos em sua grande parte envolva o trabalho braçal, o resultado para eles é satisfatório e compensador.

O Haiti, por sua vez,também tem sido favorecido conforme aponta os Indicadores de Desenvolvimento Mundial em seus dados mais recentes e que dizem respeito ao ano de 2012. O PIB do país apresentou um crescimento de 20,6% devido às remessas dos emigrados que trabalham no exterior e enviam dinheiro as suas famílias.

O Brasil é um país cuja formação no passado se deu através de uma miscelânea de raças e ainda hoje é possível perceber de forma bem clara isso acontecendo. Expulsá-los do nosso meio ou impedir a entrada de estrangeiros na nação seria o mesmo que desconsiderar parte da história e negligenciar as nossas raízes.

 

Artigo de Felipe dos Santos Moraes é acadêmico de jornalismo na FACS em Porto Alegre

in EcoDebate, 09/10/2015

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