O esverdeamento da economia: discussão em pauta na Rio+20. Entrevista com Fabio Scarano

Confira a entrevista.

“O ‘esverdeamento’ da economia é um pré-requisito para o desenvolvimento sustentável e pode vir a erradicar a pobreza sem degradar ainda mais os recursos naturais do planeta”.

Com essa visão otimista Fabio Scarano tem a expectativa de que o governo brasileiro “perceba a oportunidade histórica de o Brasil assumir a liderança” em relação às questões ambientais postas em pauta na Rio+20, que acontece no próximo mês no Rio de Janeiro.

Por ser um dos países mais ricos em recursos naturais, o Brasil tem a “obrigação de liberar o tema”, disse ele à IHU On-Line, em entrevista concedida por e-mail.

“Se aqui não conseguirmos criar uma economia verde, tenho dificuldade de imaginar como os outros países poderão fazê-lo”, reitera.

Para Scarano, o Brasil, como anfitrião da Rio+20, não pode esperar por acordo, “mas pode assumir compromissos estratégicos e financeiros para, ao menos em território nacional, exercitar o que vem defendendo teoricamente nas convenções”.

Fabio Scarano é graduado em Engenharia Florestal pela Universidade de Brasília – UnB e doutor em Ecologia pela Universidade de St. Andrews, na Escócia. É professor associado da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Em que consiste o manifesto ambiental Declaração do Estado do Planeta, lançado em Londres? Quais são as principais reivindicações do movimento ambientalista?

Fabio Scarano –

A conferência Planet Under Pressure foi uma reunião científica que, ao final, apontou uma série de recomendações que foram encaminhadas aos organizadores da Rio+20.

Os cientistas alertaram, ainda esta vez, para o risco que a espécie humana corre com a velocidade das mudanças climáticas e a degradação dos recursos naturais renováveis.

Portanto, não se tratou de uma ação do movimento ambientalista, mas sim de mais um entre os vários alertas feitos pela comunidade científica.

IHU On-Line – Como você avalia o rascunho zero, texto-base da Rio+20?
Ele aponta alguma novidade? E, por outro lado, quais os principais impasses desse texto?

Fabio Scarano –

O texto-base joga para o futuro soluções que precisaríamos ter posto em prática há 20 anos. Espero que o evento Rio+20 não se torne um Rio+30 ou +40.

IHU On-Line – Quais as razões deste adiamento das questões ambientais?

Fabio Scarano –

Algumas iniciativas foram postas em prática: surgiram órgãos na ONU para tratar do tema;

• as convenções nascidas na Rio+20, a biodiversidade, clima e desertificação, se fortaleceram;

• houve um aumento expressivo nas áreas protegidas do planeta;

• surgiram instâncias de avaliação científica como o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas – IPCC

• e agora o Intergovernmental Science-Policy Platform on Biodiversity and Ecosystem Service – IPBES.

Porém, o resumo da opera é que hoje temos a maior taxa de emissão de CO2 da história, uma taxa de perda de espécies na ordem de 1.000 a 10.000 vezes mais do que seria de se esperar sem a ação humana no planeta, e uma perda financeira estimada ao PIB do Japão por ano, só em degradação de habitats, e quase 1 bilhão de pessoas com fome. Enfim, ainda há muito que fazer e o tempo urge.

IHU On-Line – Como fica a posição do Brasil na Rio+20, uma vez que os parlamentares tentam aprovar o novo Código Florestal e o governo já prevê a construção de diversas hidrelétricas nos próximos anos?
Há contradições na agenda ambiental brasileira?
Qual sua expectativa para sair das mesas de negociações e encontrar soluções práticas para resolver os problemas ambientais do planeta?

Fabio Scarano –

Há uma tendência da posição do governo brasileiro de ser igual ao que se vê nas convenções: propor metas futuras e cobrar financiamento dos países desenvolvidos.

A minha expectativa otimista é de que o governo perceba a oportunidade histórica de o Brasil assumir a liderança no tema, que é o tema do século.

Para isso, o Brasil precisa, até mesmo como anfitrião do evento, não esperar por acordo, mas desde o início assumir compromissos estratégicos e financeiros para, ao menos em território nacional, exercitar o que vem defendendo teoricamente nas convenções.

Imagino um fundo, pelo menos três vezes maior que o Fundo Amazônia, que possa fomentar iniciativas locais de desenvolvimento verde que, em tempo, possam ser amplificáveis para o resto do país.

Recursos de compensação ambiental poderiam ser o início desse fundo. Naturalmente, a atual tendência do código florestal e da expansão das grandes hidrelétricas na Amazônia não está em harmonia com uma iniciativa desse tipo.

No entanto, um compromisso político e financeiro de tratar de maneira integrada a agenda de desenvolvimento e a ambiental já poderia ser um começo.

IHU On-Line – Um dos temas a ser debatido na Rio+20 é a economia verde como alternativa para erradicar a pobreza.
Como você vê esse debate e a postura dos governos de serem favoráveis a essa proposta?
Pode-se dizer que, novamente, o mercado tenta mercantilizar as questões ambientais com propostas como REED, venda de carbono, economia verde, etc?

Fabio Scarano –

O “esverdeamento” da economia é um pré-requisito para o desenvolvimento sustentável e pode vir a erradicar a pobreza sem degradar ainda mais os recursos naturais do planeta.

O Brasil, sendo o país que mais significativamente abriga esses recursos, 20% da biodiversidade está aqui, além de 15% da água doce, o maior estoque de carbono, e grande produção de alimentos, tem a obrigação de liderar o tema.

Se aqui não conseguirmos criar uma economia verde, tenho dificuldade de imaginar como os outros países poderão fazê-lo.

Não concordo que esse conceito signifique mercantilizar o ambiente. O problema é que, hoje, a economia tradicional não atribui valor às coisas ambientais e as assume como dadas.

Por exemplo, cerca de 90% da energia gerada no Brasil provém de hidrelétricas. 80% das águas que abastecem os reservatórios nascem em unidades de conservação.

As empresas que geram, vendem ou usam energia repassam algum de seus lucros para a gestão de Unidades de Conservação?

Ecodebate, 10/05/2012

Publicado pela IHU On-line

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Copy Protected by Chetans WP-Copyprotect.