O BRASIL NÃO PRECISA DE CORPOS.

O BRASIL NÃO PRECISA DE CORPOS.

corpos
A greve geral do dia 28/04 nos traz relevantes informações:

– não foi uma greve geral típica na qual uma grande massa de trabalhadores de diversos setores resolvem em assembleias de categorias paralisar as atividades por um ou mais dias em âmbito nacional – foi uma mescla de greves localizadas vinculadas a uma tática de afetar os serviços de transporte público de massa e bloqueio de vias urbanas e eixos rodoviários seletos;

– esta combinação acabou levando a uma paralisação de trabalhadores maior do que seria se decidida em assembleias pelo simples efeito de impedimento do deslocamento de trabalhadores para seus locais de trabalho – prova disto é o esvaziamento dos centros comerciais das principais cidades do país, dando uma falsa aparência de uma greve geral clássica;

– inegável que o objetivo da greve-protesto foi atingido em grande parte em termos de pressionar o Congresso Nacional e o governo a recuar nas reformas – servirá para alimentar os discursos da oposição nos debates e na mídia e terá o efeito de inflar o ego daqueles que organizaram e participaram dos protestos e ações;

– deu certo pelo lado da autoconfiança que os setores organizadores da atividades ganharam, pois planejaram em detalhes as ações e mobilizações e houve a massa crítica necessária para realizar a grande maioria das operações previstas;

– ficou claro que há setores radicalizados infiltrados nas mobilizações, alguns oriundos do lumpesinato, outros de grupos pequenos de extrema esquerda e anarquistas, black blocs, punks etc.; mas também grupos radicais e treinados dentro de movimentos sociais tais como MST, MTST, CUT e algumas tendências dentro de partidos tradicionais de esquerda.

Deste quadro, a conclusão mais importante é que o movimento identificado com Lula se reunifica sob a liderança do PT, seus organismos e partidos aliados, dentro da aliança Frente Brasil Popular – em suma, esta “greve geral” reunifica diversos movimentos que estavam de certa forma desmobilizados e na defensiva desde a queda de Dilma e a prisão de diversas lideranças do PT tanto no mensalão quanto, mais recentemente, na Lava-Jato.

Os sindicatos, movimentos sociais, federações, organizações da igreja e intelectuais conseguiram juntar recursos humanos e materiais suficientes para dar este importante passo e sabem muito bem hoje o que tem disponível em termos de potencial e sabem que a partir de agora a tática é repetir ações com o mesmo caráter desta “greve”, aumentando o grau de confronto com o Estado, visto como dominado pelas forças conservadores que depuseram Dilma e governam através de Temer com desdobramentos em estados não governados por governadores do PT e partidos aliados.

Dentro desta lógica, vamos considerar o depoimento de Lula ao Juiz Sérgio Moro antes previsto para o dia 03/05 e agora transferido para o dia 10/05 – em suma, não será mais possível adiar novamente este evento, sob o risco de sério desgastes da Operação Lava-Jato e tudo que simboliza. Neste sentido, há praticamente 100% de garantia de que o depoimento ocorrerá e vamos considerar as condições que o cercam, principalmente a partir das lições da “greve geral”.

Lula emerge dessa “greve” como o líder que viabilizou o sucesso do movimento contra as reformas, o grande general e que conta com pesquisas eleitorais muito favoráveis chegando a ter intenções de voto de até 47% (última pesquisa do IBOPE) – está claríssimo que Lula é a aposta única da esquerda para 2018. De fato nem se trata de atacar/derrubar o Governo Temer, mas sim retornar ao poder, reocupar os cargos e o aparelho de estado perdidos com a queda de Dilma, a grande culpada da queda na visão de petistas importantes.

Ou seja “vamos retomar o espaço que foi nosso em passado recente“, e para isto vale tudo.

Dentro desta visão, o dia 10 de maio será decisivo e o adiamento não terá nenhum efeito desmobilizador, até pelo contrário, deverá favorecer a reorganização das forças que participaram das operações da “greve geral”, agora dentro de uma outra estratégica mais fácil de ser colocada em prática, que será a concentração de massas militantes para um único local, diferente da dispersão em nível nacional da “greve”. Com a imagem do sucesso, a moral alta das organizações e o fortalecimento do comando central, esta estratégia pode muito bem colocar até 500 mil pessoas em Curitiba, favorecido pela proximidade do centro-sul que concentra a grande massa de militantes no campo e nas cidades. Ficará relativamente barato levar militantes de ônibus para Curitiba, por um ou dois dias, e até marchas de cidades mais próximas.

A decisão da Segunda Turma do STF em libertar José Dirceu é mais um fator psicológico que levará mais militantes para as ruas sob o comando da Frente Brasil Popular, em apoio à Lula.

Se este entendimento em termos da relevância deste evento para o movimento de Lula rumo a 2018 for correto, o movimento Frente Brasil Popular e todos os seus agregados farão todos os esforços para colocar uma grande massa em Curitiba e confrontar a Lava-Jato de frente, o que significa confrontar o Poder Judiciário nas suas teses da pretensa culpa de Lula por desvios diversos e corrupção.

Certamente, se esta grande ação, digamos, tenha o mesmo sucesso da “greve geral”, está lançado o início da campanha e marcha de Lula, do PT e partidos aliados para a retomada do Palácio do Planalto, em alto e bom som.

Entretanto, um cenário como este traz um lado explosivo – a possibilidade de perda de controle por parte das lideranças do movimento incluindo ai o próprio Lula da massa manifestante, pelo grau de radicalização que está sendo insuflado nessa massa, que se constitui em parte de pessoas de baixa escolaridade, baixo poder aquisitivo e pouca formação política, alvos fáceis do discurso radical até mesmo em função da grave crise econômica e social que, paradoxalmente, o próprio PT e seus aliados causaram.

O radicalismo já escolheu suas armas, o Juiz Sérgio Moro é o “grande inimigo do povo” a ser derrotado a todo custo, e ai mora o perigo da perda de controle da massa, e termos como consequência um grave conflito em Curitiba, até com a hipótese da geração de “um corpo” ou “vários corpos” que pode servir para gerar conflitos com sérias consequências em todo o país – um clima de pré-guerra civil. O incidente com um estudante gravemente ferido por um policial em Goiânia é um sinal concreto de que situações de confronto estão saindo do controle e podem gerar algo muito mais grave.

Certamente o Brasil de hoje não suportaria um clima de guerra civil, pois a nossa economia está muito fragilizada com sinais ainda fracos de recuperação, que dependerá da retomada de investimentos que por sua vez depende da confiança do mercado nas reformas estruturais ora em discussão e em andamento, que por outro lado, geram as condições do crescimento das oposições e dos movimentos de protestos – um retrocesso neste momento causado por violência nas ruas e paralisia do sistema produtivo por um período relativamente longo levará inexoravelmente ao aprofundamento da crise econômica, social e política, abrindo espaço para duas situações: 1) a anarquia e a desorganização total do pais; 2) intervenção militar constitucional para repor a ordem com um novo ciclo de governos militares.

A invasão da Câmara dos Deputados pelos agentes penitenciários criou um precedente muito grave em termos de incentivo à violência com a presença de agentes armados na sede do Congresso Nacional.

A colocação de uma grande massa em Curitiba em apoio ao Lula terá também como contrapartida a presença de grupos de apoio à Lava-Jato e o potencial de conflito entre estes dois grupos é significativa, na medida em que dentro de ambos há elementos e setores muito radicalizados, embate este que poderá requerer a ação das forças de segurança com todas as potenciais consequências em termos de violência, inclusive envolvendo a população, o comércio e demais instalações e aparelhos públicos e privados de serviço, que podem ser afetados por atos de vandalismo.

Uma perda de controle nas proximidades do Tribunal Federal de Curitiba pode gerar uma tentativa de invasão do prédio com consequências imprevisíveis, dada à presença de forças de segurança a proteger o prédio, inclusive forças federais como PF – imaginemos que um ou mais agentes das forças de segurança forem feridos ou mortos num confronto como este – é como o estopim de uma bomba de efeito devastador.

Portanto, estas reflexões servem para a formulação de cenários, a partir dos dados da realidade, principalmente pela quase inevitabilidade do evento no dia 10, dos resultados da “greve geral” e do projeto “Lula 2018”. Todo o pragmatismo deve ser utilizado nesta reflexão de alternativas e não desejamos que o pior cenário prevaleça, e para isto nossa sugestão é antecipar possibilidades e medidas preventivas corresponde à gravidades e risco dos cenários potencialmente perigosos.

Certamente seria tecnicamente possível preparar e colocar em operação uma grande operação de proteção do local do depoimento, nas dimensões adequadas a uma determinada hipótese de presença de massa – mas se a massa exceder em muito esta hipótese, o controle pode ser perdido, exatamente por uma eventual subavaliação ou pelo prevalecimento de uma condição não prevista de uma grande massa convergindo inesperadamente para este local.

O certo porém é que não necessitamos de corpos gerados em conflitos de massa que possam levar a um estado de pré guerra civil no Brasil e tanto  contestadores como apoiadores da Lava-Jato tem enorme responsabilidade nisto, se é quem pensam no interesse do povo brasileiro.

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