Modelo prediz comportamento de preços para açúcar e etanol

Modelo prediz comportamento de preços para açúcar e etanol
Por Valéria Dias, da Agência USP
Um modelo econométrico que fornece as principais variáveis que influenciam os preços do etanol e do açúcar doméstico é o resultado de um estudo apresentado na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da USP, em Piracicaba. O trabalho, realizado pela recém-doutora em Economia Aplicada, Silvia Kanadani Campos, traz ainda outro modelo econométrico para os preços do açúcar internacional. Com base nas variáveis dos modelos é possível prever se haverá aumento, queda ou estabilização dos preços dos produtos analisados, considerando análises mensais no período entre 2002 e 2009.

A pesquisadora destaca que os modelos econométricos apresentam uma margem de acerto de cerca de 80% para o comportamento do preço do açúcar doméstico. Já para o açúcar internacional, essa margem é de 70%. Enquanto que para o etanol o índice é de 60% de acerto na previsão do comportamento de seu preço.

“O comportamento do preço do etanol é mais difícil de ser determinado pois, além de estar relacionado ao mercado de combustíveis, outras variáveis interferem em sua trajetória. Há ainda poucas transações internacionais e o produto acaba sofrendo maior influência de fatores específicos ao setor, como períodos de safra e entressafra, falta de crédito doméstico, e tamanho da frota de veículos flex”, esclarece.

Para realizar a pesquisa, Sílvia analisou a trajetória dos preços desses três produtos no período entre janeiro de 2002 e setembro de 2009. Ela explica que determinados fatores puxam os preços dos produtos para baixo ou para cima. É o resultado entre essas forças que determina a trajetória final dos preços. Sílvia analisou fatores macroeconômicos (como a taxa de câmbio, a taxa de juros e a liquidez) e microeconômicos (relação oferta/demanda, queda na safra e preços do petróleo e gasolina) para determinar os fatores que explicam a trajetória dos preços.

Influências múltiplas

“O preço do etanol sofre influência principalmente do preço do açúcar no mercado doméstico; já o preço do açúcar doméstico é determinado pelas variações do preço do açúcar no mercado internacional; e o açúcar internacional tem seu preço explicado pela liquidez, pelo índice de preços de commodities CRB-Reuters e pelo preço do petróleo”, aponta a pesquisadora. Ela destaca que são consideradas as variações dos preços em um mês. “Por exemplo, se o preço do açúcar internacional variar para cima, de um mês para o outro, é muito provável que o preço doméstico também suba no mesmo período; mas ao longo de todo período analisado, os preços podem apresentar tendências diferentes.”

Sílvia explica que “a liquidez é representada pelas reservas estrangeiras das quatro regiões mais importantes no mundo: zona do euro, Japão, Reino Unido e Estados Unidos, e está associada às baixas taxas de juros nestas regiões. Os investidores tomam recursos emprestados às baixas taxas de juros para investir em ativos de maior risco e rendimento, como commodities e petróleo, aumentando seus preços”.

Já o preço do açúcar doméstico, é influenciado, principalmente, pelo preço do açúcar internacional e pela taxa de câmbio interna. “Com o real mais forte, o açúcar doméstico fica mais caro no mercado internacional. Caem as exportações e há uma queda no preço interno”, explica.

O estudo demonstrou que o preço do etanol praticamente não afetou o açúcar doméstico, ocorrendo exatamente o inverso: o preço do açúcar doméstico afetou o do etanol. “Apesar de existir uma relação direta entre os preços, visto que ambos utilizam a mesma matéria-prima no processo produtivo, acreditamos que pelo açúcar ser mais consolidado no mercado internacional, esta influência acaba sendo mais forte”, sugere.

Sílvia conta que a pesquisa inova na formalização desses modelos que ainda não estavam disponíveis na literatura. Os modelos poderão ser úteis tanto para os compradores como para os produtores, no planejamento, produção, estocagem e investimentos na área.

Análise constante

A pesquisadora destaca ainda que os modelos requerem uma análise constante, pois a importância de cada variável pode mudar de um período para outro. Como exemplo, ela cita os períodos 2002/2003, em que houve uma alta mundial das commodities e do câmbio (Real), afetando o preço do açúcar doméstico. Já em 2005/2006, o preço foi influenciado pela elevação das commodities, e em 2008/2009, pela desvalorização cambial no real.

Os preços para o açúcar nacional e o etanol foram obtidos junto ao Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) da Esalq e da base de dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEAData). Já os preços internacionais tiveram como referência a Bolsa de Valores de Nova York. Sílvia também utilizou dados da Associação Nacional dos Veículos automotores (Anfavea) para o número da frota de veículos flex do Brasil, do Instituto Nacional de Meteorologia, para dados ligados aos períodos de safra e entressafra, da Agência Nacional do Petróleo, e do Banco Central.

A tese de doutorado Fundamentos econômicos da formação do preço internacional de açúcar e dos preços domésticos de açúcar e etanol foi defendida em 26 de novembro de 2010 e teve a orientação do professor Geraldo Sant’ana de Camargo Barros, professor Esalq e coordenador científico do Cepea. Atualmente Silvia Kanadani Campos é pesquisadora da EMBRAPA Estudos Estratégicos e Capacitação, em Brasília (DF).

Mais informações: (19) 8108-7959 ou email silvia.kanadani@embrapa.br

(Envolverde/Agência USP de Notícias)

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