Modelo inédito de extração será aplicado no Ceará

 

aquilinosenra

O presidente do INB (Indústrias Nucleares do Brasil), Aquilino Senra, visitou o Jornal O POVO. Ele detalhou que o complexo minero-industrial de Santa Quitéria, que entra em operação em 2018, vai receber modelo inédito de separação de fosfato e urânio

Um modelo inédito de separação de urânio e fosfato será operado pela primeira vez em Santa Quitéria, quando o complexo minero-industrial estiver em operação na jazida de Itataia, distante 212 quilômetros de Fortaleza. Criado pelas Indústrias Nucleares do Brasil (INB) e o Grupo Galvani, o projeto está em processo de licenciamento no Ibama. A estimativa é que esteja em operação em janeiro de 2018. O presidente do INB, Aquilino Senra, esteve no Jornal O POVO, onde concedeu entrevista. Confira.

 santaQ01 021

JAZIDA DE URÂNIO DE SANTA QUITÉRIA – CEARÁ/BRASIL


O POVO – Como vai funcionar a mina de Santa Quitéria?

Aquilino Senra – É uma mina de fosfato, só que esse fosfato está associado ao urânio, já que os dois estão juntos na rocha. O Brasil é altamente dependente de insumos para fertilizantes agrícolas. O País é um gigante da área agrícola, mas é um gigante pé-de-barro, porque a maior parte dos fertilizantes que usamos vem do exterior: 75% do potássio do Brasil vêm da Rússia. E 50% da nossa demanda de fosfato é importado. Isso cria vulnerabilidades. Além disso, os produtos não são bem distribuídos no País, já que 75% da demanda dos fertilizantes estão no Sudeste, 15% no Sul e 10% no Nordeste.

 

OP – E a mina do Ceará foi identificada com esse foco?

Aquilino – A jazida de urânio com fosfato de Santa Quitéria foi identificada em 1975. É preciso separar o fosfato do urânio. Uma vez separado, o urânio, que é nosso business, é levado para Rezende. Mas o principal foco da jazida de Santa Quitéria é o fosfato.

 

OP – Como é feita a separação?

Aquilino – Separar fosfato de urânio não é trivial. Existem diversas minas com essas mesmas características ao redor do mundo e não existia tecnologia para fazer essa separação. O INB, seus técnicos, pesquisadores, ao lado de um instituto de pesquisa, desenvolveu um modelo inédito, que não existe em nenhum outro lugar do mundo. Temos que registrar a patente para ter o uso dela comercialmente, inclusive porque isso implica em royalties aos pesquisadores.

 

OP – Esse modelo inédito vai começar a ser operado na jazida de Santa Quitéria?

Aquilino – A primeira operação dele será no Ceará. O responsável desse modelo foi o Instituto de Engenharia Nuclear, no Rio de Janeiro.

 

OP – Como é esse procedimento?

Aquilino – É um processo químico. Passa por diversas etapas para a retirada de componentes de estruturação. É feita a eliminação de outros materiais que estão dentro do minério e, depois, através de uma etapa química e solvente, retira-se o fosfato para um lado e o urânio para o outro. Ficamos com o urânio e o fosfato de Santa Quitéria será o business daqui.

 

OP – O Consórcio da jazida é uma parceria entre a INB e o Grupo Galvani. Essa parceria da INB, que detém o monopólio estatal de urânio, com uma empresa privada também é inédita, não é isso?

Aquilino – Sim. Foi assinado um contrato depois de uma licitação. Apresentaram-se três candidatos (Galvani, Vale e Bunge). Por conta da rota tecnológica, na época, foi condicionado que o contrato seria adjudicado, ou seja, só valeria se em dois anos eles tivessem obtido um processo tecnológico para separar o fosfato do urânio.

 

OP – A energia nuclear é vista com desconfiança. Como vocês lidam com isso?

Aquilino – Está em forte expansão. Há mais de 65 usinas novas sendo construídas, principalmente na China, nos Estados Unidos e na Inglaterra. Hoje, está sobrando urânio no mercado, mas em 2035 vai faltar, e muito.

 

OP – Onde está essa produção?

Aquilino – Está em países que, talvez, não tenham muita estabilidade politica, como Cazaquistão e Nigéria, além de nós. Esse monopólio brasileiro visa proteção, já que o mercado nacional é pequeno e a gente tem restrição de exportação. Só podemos exportar o excedente da demanda do Brasil.

 

OP – Os resíduos da indústria vão para onde?

Aquilino – O urânio que está na jazida do Ceará é o que está na natureza. Ele vai ser separado e vai aumentar a concentração, mas a radiação dele é a mesma que está lá. O alto risco apenas surge quando é processado. Só que o processamento dele não será feito no Ceará, será em Rezende. Ele é transportado sem nenhum problema.

 

OP – E se for para um reator nuclear?

Aquilino – Entra o urânio no reator e pode sair centenas de elementos, que são altamente radioativos e tem um longo tempo de vida. Já há propostas para incinerar esses rejeitos radioativos, não no sentido da combustão, mas de encurtamento do tempo de vida. Estamos falando diminuir de 10 mil anos para 250 anos.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Copy Protected by Chetans WP-Copyprotect.