Mesmo sem acordo climático global, mundo toma medidas contra emissão de gases

Quando se trata das maiores migrações anuais do mundo, as negociações na Organização das Nações Unidas – ONU sobre o clima carecem do espetáculo da HAJJ – peregrinação dos muçulmanos à Meca, ou do esplendor das manadas de gnus.

Mas emoção é o que não deverá faltar quando milhares de pessoas de quase 200 países viajarem a Durban, na África do Sul, ao final deste mês, para a Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas de 2011.

Porém, acredita-se que os negociadores fracassarão mais uma vez em relação àquilo que há muito tempo é considerado o teste mais crucial da eficácia dessas reuniões: criar um pacto global que obrigue legalmente os países a reduzir a quantidade de dióxido de carbono lançado na atmosfera, o gás de efeito estufa que é considerado o causador do aquecimento global.

O mundo já fez isso anteriormente, quando o Protocolo de Kyoto de 1997 foi adotado na cidade japonesa de mesmo nome.

Mas aquele tratado só fez com que os países se comprometessem a reduzir as suas emissões de dióxido de carbono até o final do ano que vem.

Desde que Kyoto passou a vigorar, em 2005, sucessivas reuniões sobre o clima na ONU tentaram – sem sucesso – chegar a um segundo consenso quanto a um período de cumprimento da regra, e a mais infame delas foi a altamente propagandeada conferência de Copenhague, em 2009.

Mas algo de curioso está ocorrendo neste ano. Está ficando cada vez mais evidente que, apesar do ritmo glacial das negociações na ONU, vários dos maiores países e companhias do mundo estão pressionando assim mesmo para que se chegue a um acordo.

Da China à Califórnia, da Ford à PepsiCo, tem havido um aumento surpreendente das atividades para promover a redução das emissões.

“Nós nunca antes vimos algo como isso”, diz Adam Matthews, secretário-geral da Globe International, uma associação de legisladores que monitora as leis climáticas em 17 grandes economias mundiais.

“Um número sem precedentes de países está instituindo ou redigindo legislações abrangentes sobre a alteração climática. E isso ocorre especialmente nos principais países emergentes”.

Por exemplo, no seu último plano quinquenal, a China incluiu pela primeira vez planos para o comércio de emissões e metas de redução da intensidade das emissões de carbono.

Já a Indonésia instituiu uma moratória de dois anos das novas autorizações para a derrubada de florestas primárias.

“No universo das corporações também tem havido uma mudança profunda”, diz Nick Robins, diretor do grupo do HSBC para mudança climática.

“As empresas estão deixando de fazer apenas manobras inócuas de relações públicas sobre políticas verdes e estão modificando a maneira como fabricam os seus produtos, e até mesmo modificando os próprios produtos, à medida que percebem que há benefícios financeiros advindos da redução das emissões de carbono”, explica Robins.

Um exemplo é a DuPont, grupo químico dos Estados Unidos, que anunciou neste ano que os seus programas de eficiência energética a ajudaram a economizar mais de US$ 6 bilhões a partir de 1990.

Outro exemplo é a Shell, a companhia petrolífera europeia, que criou uma joint-venture brasileira multibilionária no setor de biocombustíveis, e que será a maior companhia produtora de etanol do mundo.

Nesta semana, a empresa francesa PPR Group, que inclui marcas de luxo como a Gucci e a Yves Saint Laurent, anunciou que está instituindo um sistema que contabiliza “lucros e prejuízos ambientais” que medirá o impacto das suas operações.

No decorrer das últimas duas semanas, a Austrália instituiu leis referentes a um imposto de carbono, e a Ford deu início à produção europeia do menor motor à gasolina que já fabricou na sua história, o EcoBoost, de um litro, cujo nível de emissões quase que se equipara ao dos modelos Toyota Prius.

E, no mês passado, a Califórnia adotou formalmente um sistema de comércio de emissões; e a BP anunciou um projeto de US$ 750 milhões para a construção de mais turbinas eólicas, em uma expansão agressiva dos seus projetos eólicos já existentes nos Estados Unidos.

Enquanto isso, o HSBC e alguns dos mais conhecidos bancos da Europa instituíram regras que proíbem o financiamento de usinas termoelétricas “sujas”, que queimam carvão.

Até mesmo a guerra entre a Pepsi-Cola e a Coca-Cola adquiriu certo caráter verde. Cada uma delas tenta superar a eficiência das garrafas plásticas leves da outra, feitas de materiais baseados em plantas.

“O que aconteceu no último ano e meio foi que a metade do mundo quase que foi virado de ponta cabeça”, explica Sir David King, que ajudou a criar algumas das políticas climáticas mais avançadas do mundo como ex-principal cientista dos Estados Unidos.

Ele agora dirige a Escola Smith de Empreendimento e Meio Ambiente da Universidade de Oxford.

Para ele, a onda de ações climáticas em todo o mundo expõe a irrelevância cada vez maior da tentativa de chegar a um acordo quanto a uma segunda fase do Protocolo de Kyoto, uma iniciativa que, segundo ele, “até o momento nos fez progredir muito pouco na direção das metas desejáveis”.

Mas outros argumentam que existe um vínculo entre as mudanças voluntárias, de “baixo para cima”, promovidas na Ford ou na Califórnia, e os esforços internacionais no sentido de impor tratados globais “de cima para baixo”.

Ele aponta para o acordo firmado por países participantes da conferência global de Copenhague em 2009 no sentido de assegurar à ONU que eles reduziriam voluntariamente as suas respectivas emissões.

Os Estados Unidos – que não ratificaram Kyoto e que são o segundo maior emissor de carbono depois da China – dizem que reduzirão as suas emissões em 17% até 2020, em relação aos níveis de 2005, e em 83% até 2050.

Já a China prometeu reduzir as suas emissões de carbono por unidade de produto interno bruto em pelo menos 40% até 2020, em relação aos níveis de 2005.

“Se o encontro de cúpula de Copenhague não tivesse ocorrido, eu duvido que estaríamos presenciando hoje tal proposta”, diz Sir Nicholas Stern, que trabalha na China desde 1988 e que redigiu a avaliação dos fatores econômicos da mudança climática no Reino Unido em 2006.

Stern discutiu o plano quinquenal de Pequim com autoridades chinesas quando o projeto estava sendo elaborado e acredita que o plano foi influenciado pelos compromissos assumidos pela China durante a reunião de cúpula de Copenhague.

“Assim, eu reagi energicamente à ideia de que nós tentamos a abordagem de cima para baixo e que essa abordagem fracassou, de forma que agora tentaríamos a abordagem de baixo para cima”, diz ele.

“Quem pensa assim não está entendendo de fato a maneira como essas coisas reforçam umas às outras”.

Até o momento, quase 90 países apresentaram planos para a redução de carbono à ONU.

Mas mesmo se todos eles honrassem as suas promessas, a ONU diz que até o momento elas representam apenas 60% do que é necessário para limitar o aumento da temperatura global a um máximo de 2ºC, o nível que, segundo os cientistas, possibilitaria que houvesse uma chance razoável de evitar os piores impactos da mudança climática.

Enquanto isso, conforme a Agência Internacional de Energia confirmou neste mês, as emissões globais de carbono vinculadas à produção de energia continuaram a aumentar incessantemente, recuperando-se de uma queda ocorrida durante a recessão, e dando um salto de 5,3%, atingindo o nível recorde de 30,4 gigatons em 2010.

Apesar de toda a atividade dos governos e das companhias, é isso o que de fato tem importância, explica Bill McGuire, um vulcanólogo britânico especializado nas consequências geológicas da alteração climática.

“Por mais impressionantes que sejam os números referentes a várias fontes de energia, carros elétricos e outros fatores, nada disso está fazendo qualquer diferença nos índices totais de emissões”, adverte ele.

“Se esses índices são capazes de aumentar 5% durante uma recessão, é difícil ter qualquer esperança nessa área”.

Tradução: UOL

Reportagem de Pilita Clark, Financial Times.

No UOL Notícias.

EcoDebate, 21/11/2011

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