Integração Paralela da Economia

Integração Paralela da Economia – Ação Coletiva do Brasil na busca de sua afirmação como nação justa com seu povo e soberana no conjunto das nações.

O trabalho aqui apresentado é fruto da reflexão de diversos especialistas, que buscam alternativas para o desenvolvimento econômico do Brasil.

Este texto busca demonstrar que para um país com as características brasileiras, a aplicação do conceito de Integração Paralela da Economia IPE é um caminho válido e adequado para reverter o atual quadro de crise econômica e social, capaz de direcionar a evolução da política econômica, na busca de abreviar etapas rumo a um país justo socialmente e inserido no espectro das maiores economias do Planeta.

 

  1. Introdução.

O Desenvolvimento Sustentável (DS) foi incorporado na agenda global, porém não há uma teoria geral de DS que seja capaz de possibilitar a inclusão do conceito em um programa abrangente de desenvolvimento de um país. Por outro lado, dentro do se conhece de DS a partir das deliberações das organizações da ONU e das conferências sobre aquecimento global, com ênfase na Conferência Rio+20, que definiu uma agenda positiva a ser desenvolvida até 2020, há um conjunto de tópicos que já estão maduros para que um país formule uma estratégia de desenvolvimento calcada nos conceitos ligados ao DS.

A Conferência do Clima – COP 21 de Paris deu formas, ainda que não definitivas, com a aprovação do Objetivos de Desenvolvimento Sustentável.

Tomemos, como uma referência, a definição de DS segundo Pezzey (1989) /1/: “O Desenvolvimento é sustentado ao longo de um processo de desenvolvimento se o bem-estar (per capita) não decresce em nenhum ponto ao longo deste caminho”. Acreditamos que esta definição serve aos propósitos deste estudo, na medida em que ele é bastante rígido no sentido de não admitir retrocessos na construção níveis crescentes de melhoria de qualidade de vida das populações, objetivo maior de qualquer programa ou modelo de desenvolvimento econômico pós-moderno. Tanto isto é consistente, que algumas instituições já formulam índices de “aferição do grau de felicidade” de um país, como indicador contemporâneo de DS.

 

Entretanto, sem que uma nação tenha a capacidade de introduzir os conceitos vinculados ao DS dentro de um planejamento nacional capaz de identificar e utilizar as suas vantagens comparativas dentro do processo de competição global, não se obterá os ganhos de qualidade de vida que teoricamente poderiam advir desta ação. A partir desta constatação, é necessário inicialmente definir um conjunto de fatores que sirvam de base para fomentar esta capacidade de identificar, selecionar e aplicar conceitos constitutivos de uma “nova estratégia de desenvolvimento”. Para efeitos deste estudo optamos pelo conjunto de patrimônios definido por Partha Dasgupta /2/:

 

  • Capital Reproduzível (estradas, edificações, portos, maquinas, equipamentos).

 

  • Capital Humano (educação, capacitação, conhecimento tácito, saúde).

 

  • Conhecimento (Ciência & Tecnologia).

 

  • Capital Natural (ecossistemas nacionais, biomas, recursos do subsolo, recursos marítimos).

 

Um país como o Brasil, que convive na atualidade com grandes dificuldades em identificar alternativas para seu crescimento sustentado e sustentável, há uma demanda pela correta incorporação destas formas de patrimônio no plano nacional de desenvolvimento, considerando a variável temporal como fator imperioso, na proporção da nossa defasagem competitiva em relação aos países detentores de economias mais avançadas.

 

A consideração corrente da promoção do consumo de produtos e serviços precisa ser necessariamente vinculada à sua capacidade de produzir o bem estar da população, como forma de se produzir uma visão integrada do capital reproduzível, do capital humano, do conhecimento e do capital natural, combinados na forma de gerar resultados em termos de melhoria da qualidade de vida e da aceleração do crescimento econômico.

 

Para se atingir condições para promover esta integração é necessário dispor de indicadores capazes de incorporar estas quatro dimensões, e a partir daí definir novas estratégias de desenvolvimento capazes de quebrar a espinha dorsal da inércia, conceito este que utilizaremos para compor o que denominamos “Integração Paralela da Economia”.

 

  1. Índice Brasileiro de Desenvolvimento Sustentável e Competitividade.

 

Para esta análise, consideramos que o Brasil é um país em desvantagem em relação às economias consolidadas. Devemos estabelecer esta diferença, para que possam ficar mais evidentes e definíveis os fatores mais críticos que caracterizam esta assimetria de competitividade.

Para qualificar esta discussão, fatores críticos são:

  • IDH

 

  • Mercados

 

  • Poder Militar

 

Para que a assimetria de competitividade possa ser devidamente quantificada e qualificada em sintonia com os conceitos de DS, criamos o Índice Brasileiro de Desenvolvimento Sustentável e Competitividade – IBDSC, composto pelos indicadores acima delineados.

O IDH, Índice de Desenvolvimento Humano da ONU, reflete a realidade sócio-econômica de forma ampla, por combinar fatores sociais com fatores econômicos, definindo níveis universais de medida da qualidade de vida das populações. O IDH é um fator que indica a influência do capital reproduzível no capital humano, tornando esta relação explicita nos resultados calculados do IBDSC.

O acesso aos mercados dá uma dimensão real – uma foto instantânea – da capacidade dos países em participar do comércio internacional, representando a habilidade de produzir bens e serviços com qualidade e competitividade. Nesta dimensão também se insere a influência do conhecimento (C&T) no capital reproduzível. O índice reflete a soma das exportações e importações de cada país relativas ao maior índice.

De forma inovadora, introduzimos poder militar na composição do IBDSC, pois a capacidade de defesa dos interesses nacionais é um elemento presente historicamente nas grandes disputas de caráter econômico – é instrumento utilizado pelas nações quando a diplomacia não é mais capaz de resolver os conflitos. Na nossa conceituação o fator militar é medido pela soma de pontuações de 0.25 para países que dispõe de forças armadas regulares significativas, 0.25 para países membros de blocos militares e 0.5 para países possuidores de arsenais nucleares.

Para se estabelecer o Índice Brasileiro de Competitividade, os fatores IDH, o Acesso a Mercados (AM) e Poder Militar (PM), foram ponderados pelos pesos 5, 3 e 2 respectivamente. Os resultados estão sumarizados no gráfico abaixo.

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Como podem ser observadas, as diferenças do índice de competitividade dentro do conjunto das sete maiores economias, são significativamente menores que as diferenças em relação ao Brasil. Poderíamos ter algumas diferenças na ordem desta classificação, se adotássemos outros índices como o GCI do World Economic Forum, mas os resultados relativos em termos do Brasil e outros emergentes não se alterariam muito.

Destacamos a influencia do poder militar, que consideramos fator a ser incluído na aferição da competitividade de um país, e que no GCI não é levado em conta. Claro que existe interesse dos países desenvolvidos em desconsiderar o poder militar, que utilizam fartamente no desenvolvimento de suas estratégias econômicas.

Devemos enfatizar que a China é um exemplo de superação que nos deve servir de espelho ao observarmos como esse país acelerou a queda das diferenças de IBDC nos últimos 10 anos, fenômeno que o Brasil não conseguiu acompanhar. A China realizou de fato uma grande revolução sem armas.

Então a conclusão principal deste quadro, que irá substanciar toda a análise e proposição futura, é que “não existe a possibilidade de se atingir valores de DIBC de mesmo nível dos observado entre as sete maiores economias, se mantivermos o atual ritmo de inversão dos fatores que influenciam a formação destes índices”.

Rebatendo esta conclusão no plano da economia real, a nossa competitividade deve crescer por um fator não linear positivo, para que possamos atingir nível de desenvolvimento sócio-econômico desejado pela sociedade. Em outras palavras, as ações conservadoras, que hoje pautam a política econômica do devem ser substituídas por ações muito mais criativas e eficazes, focadas na superação dos graves problemas sócio-econômicos da sociedade brasileira.

Isto implica que deveremos estar aptos para desenvolver novas estratégias e novos processos calcados nesta visão, conjunto este que comporia um “plano conjuntural dinâmico”, paralelo ao mesmo plano correspondente ao atual modelo sócio-econômico que vivenciamos, de modo que se possa fazer uma migração coordenada para este novo patamar. É exatamente o processo de formação deste plano que estaremos denominando de “Integração Paralela da Economia”.

 

  1. IBDSC-CO2.

 

Como forma de introduzir uma variável vinculada ao capital natural, selecionamos as emissões per capita de CO2, por ser um dado disponível e confiável, sem as incertezas. Com isto estamos nos capacitando para demonstrar como a variável ambiental influencia o IBDSC (puro).

Os resultados dos cálculos do IBDSC-CO2 são apresentados nos gráficos abaixo:

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A comparação do IBDSC-Puro com o IBDSC-CO2 mostra que os países que utilizam intensivamente fontes emissoras de CO2 (Carvão, Petróleo e Gás Natural) na geração de energia apresentam uma vantagem consideravelmente menor.

Os EUA que no índice puro tem valor 1 (um) para todos os anos do levantamento, passa a ter o valor abaixo de 0.90, ou seja uma redução de 10 pontos percentuais. A China, que no índice puro atingiu pico perto de 0.8 em 2010, tem este pico reduzido para 0.70.

Países emergentes passam a ter uma defasagem menor em relação às economias desenvolvidas, com emissões mais substantivas relativamente.

Estes indicadores são relevantes para percebermos onde se localizam as oportunidades no pós COP21, pois, embora ainda somente no papel, as conclusões da conferência, e principalmente as Metas do Desenvolvimento Sustentável aprovadas serão os conceitos que nortearão governos, organismos multilaterais e principalmente o mercado e em particular o sistema financeiro. O Brasil precisa atuar com competência para atrair investimentos em setores estratégicos do ponto de vista da sustentabilidade, principalmente dos fundo do qual fazemos parte, como o novo Banco dos Brics, no qual temos participação relevante, entretanto sem aproveitarmos esta posição em nosso favor, em parte pela falta de transparência da gestão deste banco, que repete infelizmente, outras experiências semelhantes – isto precisa ser superado.

Outro ponto relevante é promover a revisão das nossas metas de redução de emissões, pois os compromissos assumidos pelo Governo Dilma (nos dois mandatos) foram calcados em previsões pouco realistas e não condizem com as bases necessárias para a formatação de projetos sustentáveis nas áreas da agricultura, energia e florestas.

Concluímos que a inclusão de um fator ambiental no IBDC (emissão per capita de CO2) é uma iniciativa pioneira na linha de atender as decisões da Rio+20 no sentido de se criar indicadores de desenvolvimento sustentável.

 

 

  1. Integração Paralela da Economia – IPE.

Considerando a análise dos resultados dos cálculos do IBDSC e do IBDSC-CO2 acima, passamos a construir uma plataforma de um sistema econômico capaz de introduzir uma nova dinâmica competitiva na economia brasileira, utilizando os conceitos de Desenvolvimento Sustentável de forma proativa na seleção e aplicação de fatores de competitividade que nos favoreçam de forma significativa em termos de aceleração de crescimento.

 

Fatores críticos.

 

  • Competitividade
  • Valores
  • Mobilização Nacional

 

Ações e Políticas.

 

  • Um amplo programa de desenvolvimento sustentável das regiões norte, nordeste e centro-oeste será fundamental para agregar elementos novos na propulsão do nosso processo de desenvolvimento. Neste sentido, um programa agro-pecuário sustentável, envolvendo a recuperação de áreas degradadas será básico. O Governo, em parceira com a iniciativa privada deverá constituir um núcleo de estudos para a valoração dos serviços ambientais e estratégias de torná-los instrumentos financeiros na forma de garantias e fatores de aumento da taxa de retorno interno dos empreendimentos.

 

  • Este programa integrará a produção de biodiesel e outras formas de biomassa com o conssorciamento de culturas de subsistência, fruticultura e reflorestamento, passando pelo desenvolvimento de florestas terciárias e o extrativismo, chegando ao seqüestro de carbono pelas florestas replantadas e produtivas.

 

  • O Modelo de Ecoagrovilas propugnado pela ABIDES será o elemento estrutural básico deste novo processo de desenvolvimento, nos moldes dos Kibbuz’s de Israel, propiciando uma dinâmica nova nos assentamentos e cooperativas de pequenos e médios agricultores.

 

  • Dentro desta proposta, haver-se-á que estabelecer uma consistente política de incentivos fiscais e crédito para que estas regiões possam dispor dos mecanismos que possibilitem o máximo de valor agregado às matérias primas regionais, propiciando mais empregos e mais renda. O aprofundamento dos programas de bolsas assistenciais com maior ênfase a contrapartidas é um passo essencial no caminho da inclusão econômica e social – este aprofundamento implicará em contrapartidas dos beneficiados nas áreas de educação, alimentação e cultura.

 

  • O mesmo conceito deverá ser adotado para áreas urbanas de maior densidade, dentro de um processo sinérgico com a oferta de novos postos de trabalhos dentro de programas de saneamento básico, habitação, educação e cultura.

 

  • Os bancos comunitários deverão ser incentivados para apoiar o micro-crédito.

 

  • Os nossos sistemas regulatório e fiscalizador deverão sofrer reformas profundas que garantam eficácia, transparência e independência. Em princípio deverá ser substituído o conceito da punição (comando e controle) pelo conceito da responsabilidade (responsabilidade e fiscalização). Os dirigentes das agências reguladoras deverão ser concursados e seus nomes referendados pelo Congresso Nacional tendo por base uma avaliação criteriosa e não tão somente homologatória como hoje é feito. A vinculação das agências com os setores governamentais a elas relacionadas será eliminada para evitar os desvios políticos recentemente verificados.

 

  • Fim do processo de “criar dificuldades para vender facilidades” – eliminação das barreiras burocráticas e aperfeiçoamento do nosso sistema regulatório inclusive com a regulamentação do direito de greve dos servidores públicos, principalmente aqueles das carreiras típicas de estado.

 

            Fundo Nacional de Investimento e Poupança.

 

  • Criação de um Fundo Nacional de Investimento e Poupança, atrelado a uma nova modalidade de caderneta de poupança, com rentabilidade favorecendo aos pequenos poupadores, tendo por base as taxas de retorno previstas para os projetos financiados pelo fundo. Será criada uma taxa mínima e retorno garantido com formulação de incremento a partir dos resultados dos investimentos.

 

  • Este fundo terá um núcleo composto por parte de recursos hoje existentes nos bancos federais e nos fundos de pensão das empresas estatais, recursos da iniciativa privada e de pequenos e médios poupadores. A CPMF Reversa, na qual os bancos pagam a taxa aprovada no Congresso Nacional, será direcionada para compor este fundo.

 

  • Parte da dívida externa e interna será convertida em títulos específicos do novo fundo.

 

  • Créditos de Carbono pela conservação das nossas florestas, dentro do mecanismo REDD+, a ser regulamentado pela ONU, farão parte do fundo.

 

  • As atuais obras do PAC passam a receber recursos deste fundo assim como outros programas de infraestrutura a serem criados. O retorno financeiro destas obras (serviços, energia, transportes etc.) deverá ser definido de modo a remunerar as cadernetas de poupança atreladas ao fundo para que o poupador seja um fiscal da aplicação de recursos nestes programas evitando os desvios e a corrupção hoje inegavelmente presentes neste segmento.

 

  • Esta forma de gestão democratiza os benefícios dos investimentos dos recursos públicos e privados, beneficiando os poupadores e a toda a sociedade, sem privilegiar grupos de interesse específicos, como hoje ocorre. Esta é uma forma inteligente e efetiva de distribuição de renda, sem paternalismos.

 

Combate Sistemático à Burocracia.

 

  • É parte essencial do processo de integração paralela da economia a eliminação ou minimização dos entraves burocráticos, pois a “força” dos investimentos será mais intensa na exata medida da redução destes obstáculos. A dinâmica de transferência de medidas saneadoras hoje em discussão no Congresso Nacional e outras medidas oriundas do poder executivo serão definidas no novo Plano Dinâmico da Economia e sua aplicação será feita gradativamente, dentro do processo e do cronograma de implantação da IPE.

             Valorar os Produtos de Exportação.

 

  • Desenvolver um amplo programa de agregação de valor para um conjunto de produtos de exportação selecionados;

 

  • Este programa envolverá as organizações da indústria e os centros de geração de tecnologia de forma integrada e sinergética.

 

  • Os minerais estratégicos serão objeto de um diagnóstico profundo para subsidiar um Programa Nacional de Valor Agregado para este segmento.

 

  1. Aceleração do Crescimento Econômico.

 

Enfatizando que a perspectiva da análise se baseia no diferencial de competitividade (latus sensus), a velocidade do crescimento econômico é de fato o indicador principal das possibilidades de alteração do quadro distributivo da competitividade, no qual os países ricos levam uma vantagem excepcional em relação ao Brasil.

 

Considerando que a necessidade de maior velocidade de crescimento econômico tornou-se uma das poucas unanimidades, tanto na classe política como na econômica, é de grande valia a realização de um diagnóstico deste componente, para que se possa compreender melhor a conjuntura e prospectar caminhos novos e viáveis para o estabelecimento de uma política econômica estável e durável para o Brasil.

A mudança de velocidade é obtida por uma maior ou menor aceleração que se imprima ao corpo em movimento. Isto tanto vale para a física como também para a economia. O que governa a velocidade de fato é o comportamento da aceleração, sendo, portanto necessário avaliar este comportamento, para então extrapolar a velocidade. Claro que na economia esta função é muito complexa, por exemplo, muito mais complexa que calcular a velocidade de um carro de Fórmula 1, que em princípio depende de características do seu motor e da aerodinâmica da sua carenagem, todas elas relativamente fáceis de serem determinadas.

Na economia, esta caracterização da aceleração é muito mais difícil de ser feita, porém não impossível, e no texto abaixo buscamos criar alguns parâmetro que representem este perfil específico.

O crescimento da economia é resultante de uma aceleração positiva, a estagnação corresponde à aceleração zero e a deflação corresponde a uma aceleração negativa.

A aceleração é a relação entre a força aplicada e da massa do corpo em movimento. Na economia a força deriva basicamente da capacidade de investimento e a massa equivaleria ao conjunto dos setores produtivos da economia.

A capacidade de investimento está associada à macro-economia e à correspondente resposta do mercado, numa inter-relação estreita. Como a massa de economia é um fator quase constante, o aumento da aceleração dependerá do crescimento da intensidade da força aplicada – do aumento da taxa de investimento e da redução dos obstáculos ao movimento da economia vinculadas às medidas políticas acima relacionadas.

Como abordamos no segmento anterior (Integração Paralela da Economia), a disponibilidade de recursos para novos investimentos é crucial para a obtenção de um perfil favorável de aceleração do crescimento econômico, sendo, portanto plenamente justificável a criação do Fundo Nacional de Investimento capaz reunir dois componentes básicos: volume adequado de recursos e racionalidade na sua aplicação.

Sabemos que os bancos oficiais e fundos de pensão são detentores de recursos da ordem de R$ 400 bilhões em seus ativos. Parte deste montante pode muito bem fazer parte do fundo proposto, sem ferir a dinâmica de atuação destas instituições. Seria basicamente uma mudança de rubrica, com perspectivas de retorno superior ao gerado pelas aplicações atuais, que tem na burocracia e no favorecimento de segmentos específicos praticados pelo BNDES, entraves de difícil administração.

Citamos por exemplo o financiamento tradicional da safra agrícola, que se tornou um problema crônico nos últimos tempos, com crescente nível de inadimplência e taxa de retorno de alto risco, face às questões sazonais envolvidos na atividade e sua relação estreita com o comportamento do mercado internacional de commodities, cujos preços são formados em outros centros de decisões, que não o nacional.

Vale lembrar que o setor de grãos, importante segmento do agro negócio e da pauta de exportações, é muito mais relevante para a dinâmica da economia interna. Na média dos últimos anos a produção total, incluindo derivados primários como óleo e farelo de soja etc., foi de 180 milhões de toneladas, sendo que 80% deste total foram destinados ao mercado interno e 20% ao mercado externo. Como se pode constatar, o input para o mercado interno é muito expressivo, embora as exportações tenham a capacidade de retorno mais eficiente, dado que significa entrada de capital lastreado em moeda forte.

Na década de 2000, o Brasil exportou, em valores monetários, cerca de 5 vezes mais soja em grão do que óleo de soja, que é um dos produtos originados da industrialização deste grão (FAO, 2012). Além disto, considerando-se os últimos 20 anos, a taxa anual de crescimento do valor das exportações de grão de soja foi de 13%, contra apenas 7% de crescimento anual no valor das exportações do óleo (FAO, 2012).

O setor agrícola tem grande importância na economia brasileira. Em 2005, toda a cadeia de agronegócio no País gerou 28% do PIB nacional (GUILHOTO et al., 2007). Além disto, o Brasil é também um dos maiores produtores mundiais neste setor. Considerando-se o valor da produção agropecuária dos países da Organização Econômica para Cooperação e Desenvolvimento (OECD), a produção brasileira perde apenas para a europeia e americana. Entretanto, o País tem ainda grande potencial de crescimento. Em 2007, a produção agropecuária da União Europeia foi mais de 2,5 vezes superior à brasileira. Já o valor da produção dos Estados Unidos foi o dobro da produção do Brasil naquele mesmo ano (OECD, 2011).”

Ao observar os impactos de choques de demanda nos setores “soja” e “óleos vegetais”brasileira (Cinthia Cabral da Costa; Joaquim José Martins Guilhoto; Denise Imori) , verifica-se que o processamento da soja gerou, em relação ao não processamento: três vezes mais empregos (o que corresponde a cerca de 50 empregos nesta simulação) e valor de produção (VBP) na economia; o dobro da geração de PIB, remuneração e importação para a economia. Considerando estes resultados e dado que em 2006 o Brasil teve 22 milhões de hectares cultivados com a oleaginosa e que cerca de apenas 50% da produção foi processada, as perdas na economia resultantes do seu não processamento, apenas para aquele ano, foram de: cerca de 550 mil empregos; R$ 6,5 bilhões de remuneração; R$ 50 bilhões de VBP; R$ 12,5 bilhões em PIB.

A evolução da capacidade de armazenagem de grãos é indicador de um grave problema a ser resolvido. Esta capacidade era superior à produção até 2001, quando a curva de produção superou a de armazenagem. Em 2004, por exemplo, em Mato Grosso, a produção alcançou 21 milhões de toneladas, enquanto que a capacidade de armazenagem ficou em 16 milhões de toneladas, tendência que predomina até hoje, com sério entrave à nossa capacidade de gerenciar a formação de preços, que acabam sendo manipulados nas bolsas de Chicago e Londres.

Sabe-se que a formação do preço interno guarda uma relação direta com os preços externos, e como em geral nossa capacidade de armazenagem cresce numa taxa muito inferior à da produção, estamos perdendo um importante fator de controle de preços. Fazendo uma analogia com o motor do carro de Fórmula 1, é como se este estivesse “atrasado”, “queimando óleo”.

Este exemplo demonstra que um critério para a seleção de novos investimentos neste segmento, seria a priorização da aplicação de recursos em capacidade nova de armazenagem. Seriam investimentos seguros e com perspectivas de alta taxa de retorno em médio prazo. São direcionamentos desta natureza que devem nortear a implantação do sistema que denominamos “Integração Paralela da Economia”.

Em decorrência deste fato, defendemos uma gestão dinâmica e eficaz do fundo, para que estes pontos críticos possam ser objeto de rápida avaliação e decisão.

O outro lado da moeda é representado pelo conjunto dos entraves burocráticos, jurídicos e administrativos, que dificultam os investimentos, funcionando como freio e, portanto redutor da aceleração. É parte essencial do processo de Integração Paralela da Economia a eliminação ou minimização destes entraves, pois a “força” dos investimentos será mais intensa na exata medida da redução destes obstáculos.

Destro desta visão, as ações e investimentos que busquem eliminar ou minimizar os entraves equivalem à liberação dos canais para os fluxos da economia, resultando em “ganho energético”, tão importante quanto à disponibilidade de recursos para investimentos produtivos. Investimentos em redução de entraves são combustíveis diferenciados necessários para o bom desempenho do motor da economia.

As altas taxas de juro também funcionam como “freio”, dificultando o crescimento da aceleração da economia. No conceito da “Integração Paralela da Economia”, será parte obrigatória do “Novo Plano Dinâmico da Economia” a definição diferenciada de taxas de juros mais baixas para os novos investimentos originados do novo fundo de investimento, processo este que terá também como conseqüência e redução gradativa dos juros tradicionais, até se atingir uma reunificação, no final do processo de integração aqui proposto, de forma assemelhada ao Plano Real.

Portanto, é possível sim melhorar o perfil da aceleração da economia e conseqüentemente da velocidade. O exemplo da agricultura serve de paradigma para análise de outros segmentos da maquina produtiva nacional, na perspectiva da identificação dos pontos críticos, passíveis de correção, dentro do enfoque da “Integração Paralela de Economia”.

 

  1. Conclusões.

 

  • A utilização do conceito de Integração Paralela da Economia tem todas as condições de introduzir um novo dinamismo no nosso processo de crescimento econômico, na medida em que se constitui num instrumento estruturante inserido na nossa realidade.

 

  • A Integração Paralela da Economia não é um programa clássico de ajuste econômico.

 

  • Engloba ações e segmentos dinâmicos com plena capacidade de utilizar os nossos recursos e vantagens comparativas para quebrar a assimetria competitiva em relação aos países das economias centrais e outras nações do nosso porte. Ao oficializar atos legais no Novo Plano da Economia, o país contará com instrumentos para atuar nos fóruns do comércio internacional, combater barreiras não tarifárias e promover a nossa competitividade.

 

  • Constituindo-se em instrumento de alcance nacional e intergeracional, a IPE terá no Presidente da República e demais lideranças expressivas nacionais, os agentes mobilizadores coordenadores de todo o processo, oferecendo ao conjunto da sociedade uma nova utopia, capaz de reinventar a auto-estima e a mobilização nacional.

 

/1/ Pezzey, J. C. V. (1989). Economic Analysis of Sustainable Growth and Sustainable

Development. E. Department. Washington DC, World Bank.

 

/2/ Partha Dasgupta Inclusive National Accounts: Introduction.University of Cambridge

And University of Manchester. September 2011

 

Autor; Eng. Everton Carvalho – Presidente da ABIDES (evercar123@yahoo.co.uk)

 

“A Ética é um caminho que separa o bem do mal, cabe a cada um de nós encontrá-la por si próprio.”

 

 

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