Importância Econômica e Social da Produção e Consumo de Mel,

 

abelhas

 

Uma das principais preocupações em relação à biodiversidade é a diminuição das abelhas.

 

Quase todos os estudos indicam que principalmente por causa dos agrotóxicos e outros produtos neonicotinóides e organofosfatos o colapso das colmeias seja um fenômeno mundial. Além destes produtos, outros fatores são citados como possíveis causadores, ácaros, vírus, fungos, manejo inadequado, fenômenos naturais como extremos de frios e estiagens,  mas mesmo estes estudos apontam a diminuição da resistência natural e da imunidade das colmeias aos agentes causadores quando expostas a produtos químicos nocivos capazes de alterar o metabolismo e as respostas biológicas individuais ou coletivas das abelhas.

 

Os impactos sobre o meio ambiente e a biodiversidade ainda estão sendo estudados, mas é consenso que por se tratarem de insetos polinizadores a possível diminuição drástica ou desaparição das abelhas causaria uma série de alterações em nichos e habitats de plantas, outros insetos e mesmo outros animais que dependem das cadeias alimentares relacionadas, incluindo-se o mel. As abelhas são responsáveis por 80% da polinização realizada por insetos e três quartos das culturas alimentares dependem deste serviço ecossistêmico.

 

Entre os animais consumidores de mel e derivados, própolis, geleia real, ceras, estão os seres humanos. Por isto, este artigo pretende dar destaque além do enfoque ambiental, aos aspectos econômicos e sociais da produção e consumo de mel: quem são os produtores, quanto produzem, quais as regiões brasileiras são as principais produtoras, quais países importam e exportam, quem consome, qual a importância na alimentação, quem controla o mercado e outros questionamentos fundamentais a esta atividade econômica. Indispensável destacar, que o mel é um produto diretamente relacionado com os serviços ecossistêmicos e que sua produção não é possível através de processos industriais convencionais.

 

No Brasil, os principais produtores de mel são pequenos agricultores em que a apicultura soma-se com outras atividades econômicas e a principal região produtora é a Sul com 49% da produção brasileira. Individualmente, o Rio Grande do Sul é o maior produtor nacional com 20%, Paraná com 16,2% e Santa Catarina com 12,9%, destacando-se também Minas Gerais e São Paulo. No Nordeste há uma produção significativa: aproximadamente 46 mil apicultores de nove estados nordestinos produzem 40% do mel brasileiro em épocas com índices de chuvas normais. Em todo o país são 350 mil produtores, sendo 90% agricultores familiares com renda anual de até R$ 6.000,00.

 

De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE, em 2012 a produção brasileira de mel gerou R$ 40 milhões e cresceu 24% nos últimos seis anos. Em volume foram aproximadamente 33.931 toneladas. Em 2011, foram exportadas 22.390 toneladas e o Brasil ficou em 5º lugar entre os exportadores com 4,5%.

 

Estado Produção em 2012 (em toneladas)
Rio Grande do Sul 6.774
Paraná 5.496
Santa Catarina 4.388
Minas Gerais 3.398
São Paulo 2.821
Ceará 2.016
Bahia 1.595
Piauí 1.563
Mato Grosso do Sul 820
Pernambuco 635
Total 33.931

 

Tabela 1 – Principais Estados produtores de mel no Brasil em 2012.

Fonte: Revista Destaque Rural nº 6, página 10.

 

Na África, os produtores de mel também são pequenos agricultores familiares inseridos em contextos econômicos em que este é fundamental à subsistência. Em muitas regiões, as mulheres cuidam das colmeias, que muitas vezes são móveis para aproveitamento das floradas. A apicultura também diminui as queimadas e além desta produção, existe também a coleta em colmeias selvagens, geralmente para consumo familiar ou de grupos. Neste sentido, o mel no continente africano tem uma grande importância econômica como fonte de energia na dieta e segurança alimentar das comunidades.

 

Mas também existem programas que incentivam os produtores como em Moçambique através da Iniciativa de Terras Comunitárias – ITC e a Fundação Micaia que orienta a assistência técnica e a produção e facilita a comercialização. O Banco Africano de Desenvolvimento – BAD também financia projetos desenvolvidos por associações apícolas. O maior consumidor mundial de mel é a República Centro Africana com 3, 80 kg de consumo anual por habitante em 2009, segundo a FAO. Angola, Etiópia, Moçambique, Quênia e muitos outros países africanos também são grandes consumidores.

 

Os maiores produtores mundiais São a China que em 2013 produziu 27,4%, Turquia com 5,5%, Argentina com 4,7%, Estados Unidos com 4,2% do total. A Índia está em quinto lugar com 61 mil toneladas. A argentina até 2012 era a segunda colocada, mas manteve a sua produção de 75,5 mil toneladas. O Brasil está em sétimo lugar e caiu duas posições desde 2011. A produção mundial em 2013 calculada pela Food Administration Organization – FAO foi de 1.59 milhões de toneladas.

 

O número total de colmeias é de 79 milhões, sendo chinesas 11,1 milhões. No Brasil existem divergências: a FAO afirma existirem 1 milhão de colmeias e a produção em 2013 de 33,5 mil toneladas, mas as associações de apicultores calculam em 1,7 milhões de colmeias e produção de 50 mil toneladas para o mesmo ano.

 

Os principais consumidores, além dos países africanos, são os asiáticos e do Oriente Médio como Kuwait, Irã e Emirados Árabes, inclusive em muitas destas regiões o mel está relacionado com aspectos e representações sociais culturais e/ou religiosas. Os países europeus também são grandes consumidores e importam a maior parte de várias regiões e países produtores.

 

A Grécia é o segundo consumidor mundial com 1,5 kg de consumo anual por habitante em 2009. Alemanha, Portugal, Espanha, França e Reino Unido são os principais consumidores. Na Oceania, a Nova Zelândia e a Austrália destacam-se na produção e consumo deste alimento.

 

País Consumo (kg/habitante/ano) – Em 2009
República Centro Africana 3,80
Grécia 1,5
Angola 1,40
Nova Zelândia 1,00
Turquia 1,10
Alemanha 0,90
Portugal 0,70
Espanha 0,70
Austrália 0,60
Irã 0,60
França 0,60
Reino Unido 0,60
Estados Unidos 0,50
Canadá 0,70
Uruguai 0,60
Irlanda 0,30
Japão 0,30
Kuwait 0,20
México 0,30
China 0,20
Brasil 0,10
Argentina 0,10

 

Tabela 2 – Principais consumidores mundiais de mel em 2009 segundo a FAO

Fonte: Revista Destaque Rural nº 6, página 9.

 

Portanto, o mel e seus derivados têm uma importância fundamental em várias regiões geográficas do planeta, assim como internamente ao país e para muitos Estados produtores. Além dos aspectos econômicos relacionados com a sua produção, distribuição, comercialização, geração de trabalho e renda interna ou externa às regiões e áreas produtoras, o seu uso como alimento e fonte de energia em muitos lugares em situação de vulnerabilidade econômica, social e alimentar é essencial a estas comunidades.

 

Também sua produção estimula a cooperação entre os produtores, geralmente pequenos agricultores familiares que se associam para garantirem melhores condições, inclusive de preservação das áreas e plantas essenciais às abelhas. Um impacto sobre a saúde das colmeias terá consequências imediatas na disponibilidade mundial deste produto, assim como de outros alimentos que necessitam da polinização realizada por estes insetos.

 

Referências:

 

– Especismo e ecocídio: o sumiço das abelhas. José Eustáquio Diniz Alves. Disponível em:

http://www.ecodebate.com.br/2013/09/18/especismo-e-ecocidio-o-sumico-das-abelhas-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/

 

– Estudo mostra que pesticidas neonicotinóides e organofosfatos afetam o cérebro das abelhas. Disponível em:

http://www.ecodebate.com.br/2013/03/28/estudo-mostra-que-pesticidas-neonicotinoides-e-organofosfatos-afetam-o-cerebro-das-abelhas/

 

– Desordem de colapso das colônias (Colony Collapser Disorder, CCD) derruba exportações de mel do Brasil. Janara Nicoletti. Disponível em:

http://www.ecodebate.com.br/2013/09/10/desordem-de-colapso-das-colonias-colony-collapse-disorder-ccd-derruba-exportacoes-de-mel-do-brasil/

 

– Sinal de alerta. Fabiana Rezende. Revista Destaque Rural, ano I, nº 6, páginas 8-10, maio-junho/2014, Editora Riograndense. Tapejara/RS.

 

Artigo de Antonio Silvio Hendges, Articulista no Portal EcoDebate, professor de Biologia, pós graduado em Auditorias Ambientais, assessoria em sustentabilidade em educação ambiental –

www.cenatecbrasil.blogspot.com.br

EcoDebate, 15/08/2014

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