Importa que suma uma árvore?

Costumeiramente, no mês de julho, em função do dia do Engenheiro Florestal, fico cuíra(1), ou sou instado por colegas a escrever alguma coisa sobre florestas, engenheiros florestais ou sobre a importância social, economica, cultural e ambiental das florestas. Temas sem dúvidas instigantes e interessantes para nós que vivemos na Amazônia e laboramos este segmento do saber científico e tecnológico.

Este ano, entretanto a motivação e a inspiração (no caso, mais transpiração), ainda que não se distanciem muito da temática, são outras como veremos. Reporto-me a uma espécie e em especial a uma árvore desta essência florestal, às quais consagro atenção e apreço, no caso a Sumaúma (Ceiba penthandra)

Não é a mais alta do mundo – perde para as sequoias americanas – mas com certeza o é quando se trata de Amazônia, chegando com facilidade a 45- 50 metros de altura e 2 metros de diâmetros, além de desenvolver enormes sapopemas (formações laterais na parte inferior do tronco), que lhe confere características impares, pois são usadas pelos povos da floresta para se comunicação e localização nas matas. Um tipo caboclo de celular provido de GPS, com a vantagem de estar sempre carregado.

Biólogos asseveram que sua copa abriga mais elementos da biodiversidade que glebas inteiras de formações vegetais de climas temperados, por exemplo. È capaz de dispersar suas sementes a quilômetros de distância, espalhando e distribuindo generosamente sua gênese por muitos acres das terras Amazônicas.

É usada para confecção de caixas, brinquedos, canoas, jangadas e palitos. As sementes enchem colchões, travesseiros e salva-vidas. Pode ser usada na alimentação, iluminação e na confecção de sabões. A sabedoria popular conta de suas propriedades terapêuticas; a seiva pra conjuntivite, a casca como diurético e no combate a hidropsia e malária.

No imaginário popular da época que o Ex-governador do Aampá, Pauxi Nunes tinha uma chácara por lá (muito antes do aterro da praia do Araxá e da Vacaria), o Curupira, o protetor das florestas, postava-se na Sumaúma e era muito comum encontrar seu rastro por aquelas paragens.

Muito antes, dizem que os Tucujus adoravam plantar milho, feijão e jerimum ao seu redor, pois a copa rala permite a entrada de luz e, portanto não precisava derrubar a floresta para cultivar esses alimentos. Responsáveis nossos Tucujus.

A árvore da espécie a que me refiro é o exemplar de sumaúma localizado no terreno do Ministério Público do Estado do Amapá no Araxá. Já há algum tempo é objeto de atenção de parte muitos servidores e membros de MP.

Lembro das primeiras visitas ao local, onde foi proposta e realizada uma primeira poda de formação, com o levantamento da copa e remoção de alguns galhos mortos, que aliada a limpeza de seu entorno, transformou seu aspecto, até certo ponto entristecido, em elemento destaque de uma paisagem por si vibrante.

A partir deste cenário a admiração pelo que virou “a nossa sumaúma” só fez aumentar. Logo foi declarado exemplar imune de corte por ato do Procurador Geral, na época Marcio Alves. Foi adotada incialmente como símbolo da Promotoria do Meio Ambiente pela Dra. Ivana Cei, subindo a seguir mais um degrau, instalando-se como símbolo do MP.

Avançou mais ainda quando a sua iluminação e decoração de natal do ano 2007 a transformou em cartão postal da cidade e fonte de inspiração e reflexão para muitos, extrapolando as fronteiras da instituição e instalando-se em definitivo nos corações de todos os que aqui moram ou por cá passam.

Em 2011 a “nossa Sumaúma” nos deu um susto, apresentando sinais de debilidade, com a queda de folhas e mortalidade de parte dos ramos, atribuídas por alguns ao processo natural de envelhecimento, por outros a alguma doença, por outros ainda uma mistura de todas as alternativas.

Uma vistoria técnica constatou que na realidade tratava-se um ataque de cupins, que foram combatidos, possibilitando sua pronta recuperação, pra usar um jargão emprestado aos médicos. Foi salva. Não sumiu.

Evidentemente que situação preocupou a muitos, mas gostaria de registrar, que dentre todos, quem mais externava preocupação, quem mais pedia providências e quem mais vibrou com sua recuperação foi o saudoso Promotor de Defesa do Meio Ambiente, Haroldo Franco, a quem aprendi a gostar e admirar nos últimos anos, que foram os que eu tive o privilégio de desfrutar.

Acho que existem paralelos interessantes entre o Haroldo e a Sumaúma. A árvore – forte e exuberante. Haroldo, o Promotor – a firmeza de caráter, dedicação profissional e o saber denso.

A planta – abrigo de ampla diversidade biológica. O Haroldo, pai, filho, irmão e esposo, extremadamente zeloso e dedicado, responsável, protetor, lenho forte a sempre disponível a todos os seus. O vegetal – fornecedor de bens e serviços ambientais. Haroldo, o amigo – provedor de prosa inteligente, dispersor de conhecimento, companheiro de todos os momentos, pronto pro que der e vier, pau pra toda obra.

Voltando do Dia do Florestal. Durante muitas décadas na Amazônia as políticas públicas eram formuladas e implementadas com base na blague “Com tanta Ceiba penthandra não faz mal que suma uma”. Foi, e em alguns casos ainda é, a perfeita aliança entre governantes irresponsáveis, empresários inescrupulosos e omissão generalizada.

O nosso papel além dos estritamente técnicos é de lutar pela proteção e conservação das florestas, pois estas, além dos produtos florestais, são as únicas fornecedoras de serviços ambientais imprescindíveis á humanidade, com destaque para o equilíbrio do clima.

Nosso lema deveria ser: “Importa muito que suma uma só árvore”

Viva 12 de Julho. Viva a Floresta. Vivas ao Haroldo. Vivas aos Florestais. Vivas aos Construtores do Verde.

(1)Termo regional, com significado aproximado a inquieto.

Eng º Florestal Alcione Cavalcante
EcoDebate, 13/07/2011

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