Impactos dos agrotóxicos

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Em reportagem de Pedro Carrano, pesquisas médicas apontam que os agrotóxicos prejudicam a saúde das pessoas que trabalham com essas substâncias químicas.

Os agrotóxicos estão entre os principais agentes tóxicos no país, com índices abaixo apenas de medicamentos, animais peçonhentos e produtos sanitários.

Este impacto pode ser definido de forma mais evidente a partir dos chamados efeitos agudos nos trabalhadores, mas há também os efeitos crônicos.

De acordo com dados do Sistema Nacional de Informações Tóxico-Farmacológicas – SINITOX, 28% dos mais de 8 mil casos de contaminação estão relacionados a circunstâncias profissionais.

São Paulo e Rio Grande do Sul estão nas primeiras posições. Os índices são elevados também na Bahia e em Santa Catarina. A SINITOX também apontou que foram registrados, no país, mais de 19 mil casos de intoxicação por agrotóxico.

O médico e professor da Universidade Federal do Mato Grosso – UFMT, Wanderlei Antonio Pignati, enumera as doenças causadas pelos agrotóxicos nos trabalhadores.
“São agravos, na saúde, agudos e crônicos. Intoxicações agudas e crônicas, má formação fetal de mulheres gestantes, neoplasias, distúrbios endócrinos, distúrbios neurológicos e distúrbios respiratórios.

Produtos são desviados para os centros urbanos para ser usado como raticida. O produto glifosato, aplicado no cultivo de soja transgênica, é responsável por 51% do uso de agrotóxicos no país.

Há, no Brasil, cerca de 451 produtos ativos e 1,4 mil produtos no mercado, cada um com nocividade específica. Os especialistas admitem que é difícil desvendar o nexo entre a doença e o produto que a causou.

Um dos problemas é a chamada subnotificação das ocorrências, que acontece porque não se reconhece o vínculo entre a doença do trabalhador e a sua causa. Por isso, os dados de intoxicação são ainda maiores.

No Mato Grosso, o médico Pignati realiza estudos comparando dados epidemiológicos das regiões do estado com diferentes níveis de utilização de agrotóxicos.

Nas três regiões do agronegócio da soja, milho e algodão, há uma incidência três vezes maior de intoxicação aguda.

“Analisando por regiões o sistema de notificação de intoxicação aguda da secretaria municipal, estadual e do Ministério da Saúde, percebemos que onde a produção é maior, há mais casos de intoxicação aguda, como diarreia, vômitos, desmaios, mortes, distúrbios cardíacos e pulmonares, além de doenças subcrônicas que aparecem um mês ou dois meses depois da exposição, e de tipo neurológico e psiquiátrico, como a depressão.

De acordo com Gilberto Salviano da Silva, assessor da Secretaria de Saúde do Trabalhador da Central Única dos Trabalhadores – CUT, há uma política de saúde do trabalhador mais consistente entre os trabalhadores urbanos.

Mas os casos de acidentes e doenças na zona rural ainda têm menor notificação.

“O que notamos é que todas as normas em saúde do trabalhador têm sido focadas no trabalhador da cidade, então existem normas mais presentes e avançadas no setor da metalurgia, no setor financeiro, químico, da construção civil, e nem por isso, com estas normas, se conseguiu diminuir o número de acidentes de trabalho no Brasil; temos que entender que sempre foram subnotificados. Temos o problema dos empresários que negam as doenças e não comunicam.”

Salviano entende que o índice de notificações é insuficiente. Desde abril de 2007, começou a aumentar devido ao novo modelo de concessão de benefícios do INSS, denominado como Nexo Técnico Epidemiológico da Previdência Social – NETEP.

Dessa forma, tem aumentado o número de registros de acidentes e doenças no Brasil. De acordo com o assessor da Central única dos Trabalhadores – CUT, em 2006 foram registrados 510 mil acidentes. Em 2008, as estatísticas apontavam para quase 750 mil acidentes de trabalho.

“Essa subnotificação de doenças dificulta a visibilidade sobre o que acontece no local de trabalho. E o setor rural existe ausência de informações, doenças e mortes por consequência dos agrotóxicos, o que dificulta as ações de políticas públicas. Esta subnotificação no campo, é parecida com a da cidade”.

Se nega que os trabalhadores fiquem doentes no campo. O serviço médico não está preparado para o diagnóstico; às vezes, os trabalhadores se contaminam ou morrem, e aparecem outras doenças. Logo, as dificuldades no campo, têm sido maiores.

Para a prevenção dos acidentes, Salviano compara as ações realizadas contra o uso do material amianto na construção civil.

Hoje o amianto está proibido em uma série de estados do Brasil, por meio da articulação internacional com entidades contrárias ao uso deste material.

“Começar a chamar a atenção civil e criminal daqueles que fabricam produtos que provocam impacto no meio ambiente, morte e doença dos trabalhadores, caminho possível para fazer valer a justiça social”, diz ele.

O uso de agrotóxicos provoca efeitos graves na saúde humana, como o desequilíbrio do sistema endócrino, infertilidade masculina, más formações e abortos, efeitos nas crianças e doenças no sistema nervoso.

Os impactos para a saúde dos trabalhadores do campo, pelo uso dos agrotóxicos, evidenciam a necessidade de um debate sobre o tema no amplo conjunto da sociedade.

Cada bioma tem uma realidade específica, e gera um trabalho específico, mas o da produção saudável, de ter saúde, é questão hegemônica.

 

Referência:

Impactos dos agrotóxicos na saúde dos trabalhadores do campo

 

Artigo do Dr. Roberto Naime, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em Geologia Ambiental. Integrante do corpo Docente do Mestrado e Doutorado em Qualidade Ambiental da Universidade Feevale.

Sugestão de leitura:

Civilização Instantânea ou Felicidade Efervescente numa Gôndola ou na Tela de um Tablet – EBook Kindle, por Roberto Naime, na Amazon.

 

in EcoDebate, 19/01/2016

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