Hospital São Pio X e plantas medicinais

Imagem: Plantas medicinais: o saber sustentado na prática do cotidiano popular, Esc. Anna Nery vol.15 no.1 Rio de Janeiro Jan./Mar. 2011

 

Num país com biodiversidade tão extremada, representada por uma flora quase infinita e típica de cada um dos biomas que constituem seu ecossistema, é lógico que ocorram iniciativas indutoras do uso de plantas com propriedades medicinas E com uma cultura tradicional tão rica e permanentemente evoluindo alimentada por populações já seculares, não é de surpreender que se trate da importância deste uso funcional.

Além do enaltecimento à temática tão cara e tão peculiar à realidade do país, também devem ser realizadas concretas evidenciações de realidades que se observam.

Os usos dos princípios ativos encontrados em plantas medicinais, utilizadas para curar e prevenir diversos tipos de patologias é possivelmente prática muito antiga, até mesmo milenar, sendo utilizada pela espécie humana desde os primórdios da civilização.

Os primeiros registros escritos possivelmente se associem com texto documentado no século primeiro da era cristã, por um médico de origem grega, chamado Dioscórides.

A trajetória evolutiva da civilização traz conceitos muito intrigantes, próximos de apropriações típicas da realidade atual para antigas crenças, antes associadas com o imaginário e lendas mitológicas. Se acreditou que os sinais externos de forma das plantas poderia trazer indicações sobre a efetividade das propriedades medicinais e funcionalidades determinativas sobre os órgãos humanos que poderiam ser beneficiados. Não se sabe a realidade desta crença.

Foi somente com a evolução da química, já durante o século XVII, que se descobriu que a ação terapêutica propiciada pelas plantas, se devia a presença de certos compostos em suas folhas, raízes ou caules, que foi denominada de princípio ativo, da mesma forma que se conhece hoje.

Somente no século passado é que se consolidaram as extrações vegetais, que permitiram a produção dos remédios a base de plantas, também conhecidos como fitoterápicos. Também são comuns bebidas extraídas de plantas, como café ou chá, que possuem substâncias estimulantes ao sistema nervoso central.

O cultivo da terra entre as primeiras civilizações estabelecidas, quando os hábitos ainda se dividiam entre o sedentarismo gregário e hábitos do nomadismo, como a extração da natureza, através de caça ou simples coleta, era mais tipicamente atribuição feminina.

As mulheres observando atentamente com a argúcia que é própria do gênero feminino, os processos naturais e suas inter-relações cósmicas com fases lunares e outros requisitos, desenvolveram originalmente um conhecimento muito valioso dos efeitos, ritmos e ciclos observados.

E criaram hábitos de vida muito próprios e peculiares, compartilhados na vida comunitária, com laços muito fortes e efetivos, necessários na empreitada humana de gregarização ou fixação à terra. Tudo iniciou com as necessidades impostas pela gravidez, menstruação e fecundidade, mas rapidamente evoluiu para todas as dimensões humanas.

Estas concepções rapidamente deixam de pertencer ao universo feminino e se compartilham entre os dois gêneros nas comunidades tradicionais, sendo transmitidas entre as diversas gerações através de práticas integradas e de exercício da oralidade.

Na modernidade, o desenvolvimento de medicações alopáticas com a síntese e a combinação de moléculas, não deve ser interposta como alternativa de eficientização, para populações que possam adquirir medicamentos em detrimento da fitoterapia.

Quando os fitoterápicos apresentam eficácia devem ser usados indistintamente. Quando não apresentam, não devem ser empregados por ninguém.

Neste sentido, deve ser saudada a portaria interministerial 2.960 do ano de 2.008, assinada pelo Ministério da Saúde e mais 9 ministérios, que institui o Programa Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos dentro do Sistema Único de Saúde – SUS.

Coordenado pelo Departamento de Assistência Farmacêutica e Insumos Estratégicos, o programa objetiva ampliar a lista de fitoterápicos ofertada pelo Sistema Único de Saúde – SUS.

Se poderia digredir pelas plantas já utilizadas, como a espinheira santa ou outras, de grande eficácia terapêutica já comprovada, mas não vem ao caso, mas o texto poderia se transformar em longa enciclopédia descritiva.

É o momento de ressaltar e evidenciar também as amplas práticas procedidas pela Farmácia de Plantas Medicinais do Hospital Pio X, mantido pela arquidiocese de Goiânia. Amplas práticas de tradição cultural, principalmente derivadas da flora desenvolvida no cerrado, são apropriadas e desenvolvidas sob supervisão científica nesta instituição, que já é referência na utilização de fitoterápicos.

O site da arquidiocese de Goiânia informa que a Farmácia é dirigida por Dom Eugênio Rixen, mas conta com grande apoio e repercussão em todo o corpo médico da instituição.

Viviane Custódia Borges, em sua tese de doutorado em Geografia, denominada “Pequi, Jatobá e Algodãozinho…A Biodiversidade do Cerrado na Medicina Natural”, no Instituto de Estudos Sócio Ambientais da Universidade de Goiás, resgata toda dimensão e amplitude de uma diretriz há muito adotada pela pastoral da saúde da arquidiocese goiana.

As plantas medicinais demonstram a profunda vinculação da evolução civilizatória com a natureza em sua essência e esta relação não se reduz a dimensões utilitárias. Exibe a robustez de uma teia cultural, minuciosamente arquitetada, valorizando as interpretações das dimensões naturais.

Afirmando que a gestão da biodiversidade, é pilar da constituição da cultura local, sendo agregada aos conhecimentos tradicionais e suas formas regionais de relação com os diferentes ecossistemas, Viviane Custódia Borges manifesta que o trabalho da pastoral da saúde, e se acrescenta, do próprio Hospital Pio X, resgata a tradição e fortalece a resistência das populações, edificadas sob o prisma de uma mesma unidade territorial e tradição cultural.

Fica claramente estabelecido que os fluxos sociais advindos desta interação sistêmica permitem fortalecer e perpetuar as atividades de educação e saúde que envolvem as comunidades, com sua farmacologia fitoterápica tradicional, produzindo remédios caseiros de comprovada eficiência.

Desde os colonizadores portugueses, as tradições de uso de plantas medicinais já são muito desenvolvidas e estimuladas. Estas realidades todas, trazem novas perspectivas para a melhoria da qualidade ambiental e da qualidade de vida de todas as populações que podem ser beneficiadas por estas ações.

 

Dr. Roberto Naime, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em Geologia Ambiental. Integrante do corpo Docente do Mestrado e Doutorado em Qualidade Ambiental da Universidade Feevale.

 

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in EcoDebate, 01/10/2015

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