Haiti: Guerra do Bem!

A tarefa de pacificar, realizar o resgate social e reconstruir o Haiti exigirá muitos desafios do Brasil e da comunidade das nações. Por outro lado, esta ação poderá se constituir num novo paradigma de ação conjunta das nações numa verdadeira “Guerra do Bem”.

Haiti: Guerra do Bem!

Na ocasião em que se montava a operação do envio de tropas brasileiras para integrar a missão da ONU no Haiti, a seguinte notícia aparecia na mídia:

Neste dia 27 de maio (27/05/2004), o ministro interino das Relações Exteriores, embaixador Samuel Pinheiro Guimarães, recebeu das mãos de Markus Sokol, membro do Diretório Nacional do PT, 10 465 assinaturas colhidas em 10 Estados, à petição dirigida ao Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, pedindo que não se enviem tropas brasileiras ao Haiti.

A petição é encabeçada por Emir Sader, Plínio Sampaio, Fernando Moraes,
Marilena Chauí, 8 dirigentes da Executiva CUT, 18 deputados federais e dois
senadores.

Ainda era o primeiro mandato do Presidente Lula e apesar deste posicionamento político, as tropas foram enviadas para o Haiti. As razões de Estado superaram as razões ideológicas. O argumento dos segmentos mais à esquerda do espectro político brasileiro era o de que o envio de tropas brasileiras, e de outros países da América Latina como Argentina e Chile, estaria em consonância com desejo dos EUA de utilizar o Brasil e as tropas da ONU para seus objetivos de domínio do Haiti. A seguinte frase de Markos Sokol referenda esta posição: “Quaisquer que sejam as pressões, não podemos aceitar que o governo brasileiro cometa um erro destes, enviando soldados para defender os interesses da potência norte-americana”.

De 2004 para cá o debate continuou, o Governo se manteve firme na defesa da manutenção das tropas e a esquerda se mobilizou exigindo o retorno das tropas. Em 2005 foi apresentado Projeto de Decreto Legislativo (PDC) 1997/05, do deputado Babá (P-SOL/RJ). O projeto revogaria o Decreto Legislativo 207/04, que autorizou o envio de 1,2 mil militares brasileiros ao Haiti. Com a força do Governo na Câmara esta iniciativa não prosperou e o PT que havia se manifestado contra o envio das tropas em 2004, passou a adotar uma posição mais conservadora em apoio ao Presidente Lula, de modo que o movimento pelo retorno das tropas passou a ser liderado pelos pequenos partidos de esquerda como o PSOL, o PSTU e as ONGs e Sindicatos controlados por estes partidos.

Em 2009 diversos dirigentes destas organizações visitaram o Haiti e reforçaram seus laços com sindicatos e movimentos populares no Haiti. A principal denuncia destes dirigentes era de que as tropas brasileiras estavam alinhadas com a repressão de trabalhadores nas ruas, citando incidentes ocorridos nas manifestações do 1º de maio do ano passado. Estes partidos e organizações defendiam o retorno imediato das tropas, sem dar respostas ao aumento da instabilidade que esta retirada causaria.

Defenderam que o Brasil deveria partir para uma ação de apoio ao desenvolvimento econômico e social do Haiti, citando as áreas de educação, saúde e geração de empregos como áreas prioritárias, mas sem a presença das tropas. O MRE concordou com a parte da mudança da estratégia no que se refere ao apoio econômico para o desenvolvimento de longo prazo daquele país, mas manteve sua posição de suporte à presença das tropas no contexto da Minustah.

A questão agora é o que muda no cenário político brasileiro em relação ao tema. Ficou claro com o terremoto que a presença das tropas brasileiras foi muito oportuna e constitui-se num elemento relevante para propiciar as ações emergenciais de resgate social em meio à grave crise, porque as nossas tropas nestes 5 anos de presença aprenderam a lidar com as questões locais, conhecem o território e a cultura locais, o que nos qualifica para liderar as ações presentes e futuras na estabilização do Haiti, pós- catástrofe.

Com isto, o Brasil se coloca no cenário de solução da crise como um dos principais componentes, tanto que o Presidente Obama sugeriu ao Presidente Lula que as ações de coleta de doações e de distribuição de alimentos e serviços sejam articuladas pelos EUA, Brasil e Canadá, países do continente os mais aparelhados e capacitados para tal tarefa. Os comandantes militares falam atualmente na hipótese de dobrar os efetivos presentes no Haiti, aproveitando as tropas que já cumpriram período de missão naquele país e treinando novas tropas. Portanto, a experiência dos 5 anos de atuação inclusive permitiu formar uma reserva de militares com experiência no Haiti e que agora poderá ser utilizada no momento agudo da crise.

A nossa experiência poderá inclusive ser utilizada como poder moderador das ações de repressão ao quadro de violência que se inicia, de modo a evitar sofrimentos adicionais e mais perda de vidas na população civil já tão castigada pela catástrofe natural.

Com estes fatos e o cenário de catástrofe vigente, esgotou-se por completo o argumento de retorno das tropas brasileiras; e os segmentos que defendiam esta posição terão que repensá-la profundamente, até mesmo por razões humanitárias, tão caras aos segmentos mais à esquerda. Não há o menor clima para que esta retirada venha a ser colocada de novo em discussão.

Com isto, ganha força a posição oficial do Governo e a necessidade de reconstrução do Haiti exigirá uma expansão das ações do Brasil, em conjunto com outras nações, pois o desafio é de grande porte e de longo prazo. No cenário internacional e regional o Brasil sai fortalecido por ter tido presença nos primeiros momentos pós catástrofe e por estar atualmente no centro das decisões sobre o controle do momento de grave crise social e humanitária, bem como em relação às futuras ações de reconstrução do país destruído.

Os recursos materiais e de pessoal civil e militar enviados imediatamente após o terremoto e os fundos que o Governo está liberando para auxílio ao Haiti já são expressivos e a tendência é um aumento deste fluxo de ajuda material, humana e financeira, que terá como conseqüência uma presença cada vez mais marcante do Brasil no restabelecimento das condições mínimas de sobrevivência e de ordem no Haiti, o que reforça o papel do Brasil como Potencia Regional na América Latina, principalmente pelo viés positivo da solidariedade entre os povos.

Com a devida consideração humanitária da catástrofe, a situação no Haiti e as necessidades de estabilização e de futura reconstrução apresentam-se como uma oportunidade para o Brasil consolidar sua imagem no continente e projetar sua posição de Potencia Regional.

No plano interno o dever de casa deve ser feito, pois a unidade nacional obtida no momento de solidariedade imediata deve ser mantida e consolidada para as ações futuras. Para isto o Governo deve incentivar a criação de uma Comissão Parlamentar Suprapartidária Pró Haiti no Congresso Nacional, e tomar iniciativas da busca do envolvimento do setor privados através das confederações da indústria, agricultura e comércio, convocando-as para liderar um movimento empresarial de apoio à reconstrução do Haiti.

No âmbito governamental, a solução mais imediata seria a criação de um Grupo de Trabalho Interministerial para coordenar os esforços no âmbito do Governo, trabalho este já iniciado pelo Gabinete de Crise em funcionamento. Complementando este conjunto, será necessária a mobilização da sociedade, de modo a obter não só doações, mas principalmente promover a solidariedade para com o povo do Haiti, reforçando a base social de apoio à atuação do Brasil na reconstrução daquele país.

A tarefa de pacificar, realizar o resgate social e reconstruir o Haiti exigirá muitos desafios do Brasil e da comunidade das nações. Por outro lado, esta ação poderá se constituir num novo paradigma de ação conjunta das nações numa verdadeira “Guerra do Bem”, demonstrando para o mundo que é possível fazer a união de diversos povos para efetuar uma ação humanitária e de reconstrução de um país, sem que haja interesses e disputas econômicas ou políticas envolvidas. Será um grande exemplo para o futuro da humanidade e marcará o Século XXI. A ABIDES esta mobilizada para auxiliar nesta tarefa.

Gerson Bastos

Gerson Bastos é um desenvolvedor de sites especializado na plataforma open source Wordpress. Trabalha com desenvolvimento de sites desde 2007 e atua principalmente em Brasília-DF. Email: gerson@gersonbastos.com.br

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Copy Protected by Chetans WP-Copyprotect.