Europa: Provando O Próprio Veneno.

Europa: Provando O Próprio Veneno.

Euro

Os líderes europeus demonstraram irritação com a disposição do primeiro-ministro da Grécia George Papandreou em propor um referendo para verificar se a população do País aprova o pacote de cortes de gastos e redução de benefícios sociais em decorrência do acordo para o socorro financeiro de 130 bilhões de euros. As bolsas de valores nos principais mercados despencaram pela percepção de risco de rejeição das medidas de austeridade.

A situação das economias da Espanha, Portugal, Itália e Irlanda, com altas taxas de desemprego e desequilíbrio fiscal compõem um quadro que assombra a economia mundial com risco de recessão mundial, puxada pela área do Euro. Silvio Berlusconi vive um drama muito semelhante ao de Papandeou. Em suma os Europeus se retorcem para aceitar as receitas conservadoras do FMI e do sistema do Fundo Europeu de Estabilização Financeira (FEEF), receita imposta pelo Consenso de Washington aos países em desenvolvimento no final do século passado.

Nós cumprimos a nossa cota de sacrifico, com impactos sociais e econômicos severos, mas que resultaram no final em estabilidade econômica, que aliada às nossas vantagens comparativas em termos de recursos naturais e de aumento de produtividade nos permite hoje continuar nosso crescimento econômico no meio desta crise global. Claro que aqui não temos o melhor dos mundos, faltando muito a fazer em termos de diminuição do “Custo Brasil”, reformas e projetos de longo prazo capazes de nos levar a um novo patamar de crescimento sustentado e sustentável.

Provam agora as economias desenvolvidas do próprio veneno e as sociedades reagem desesperadamente às perdas do status quo do tão decantado “Welfare State”, que agora se mostra como “não sustentável” devido a falhas no modelo da União Européia, particularmente em relação aos acordos da Zona do Euro. Mas não há outro caminho conhecido para sair da crise a não ser o aumento do valor do FEEF e um aperto fiscal nos moldes do que o FMI cobrou de nós no passado recente.

Chegou a hora da Europa e demais desenvolvidos compartilhar sacrifícios e se ajustar a uma nova distribuição do poder mundial com os países emergentes. Não é mais sustentável manter o grau de assimetria entre as sociedades ditas “desenvolvidas” do norte e as “emergentes” do sul nos moldes do passado em que a exploração das colônias, o fluxo comercial assimétrico sugador de matérias primas e a transferência de indústrias “sujas” para o hemisfério sul, alimentavam o peso do consumismo, a ciranda financeira e os subsídios dos “desenvolvidos”.

A reunião do G-20 que se aproxima deve dar respostas concretas para o desequilíbrio causado pela má gestão européia e pela crise dos derivativos dos EUA – reformas nas instituições do acordo ultrapassado de Bretton Woods (FMI e Banco Mundial), e propostas de mudanças na governança das operações financeiras, para “início de conversa”, já que Brasil, China e outros emergentes estão sendo chamados para dividir a conta da irresponsabilidade fiscal e financeira dos “desenvolvidos”

Não há como “tapar o sol com a peneira” e cabe aos líderes dos países emergentes cobrarem com energia as contrapartidas de direito, em respeito à nossa sociedade, que ainda tem um longo caminho a percorrer até atingir níveis de qualidade de vida que ainda desfrutam os europeus, japoneses, canadenses, nórdicos e estadunidenses.

Everton Carvalho
Engenheiro – Presidente da ABIDES

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