Energia Nuclear = Água

Água e Energia
Energia Nuclear = Água

Atualmente há um forte debate na sociedade brasileira sobre o futuro da energia nuclear em nosso país. Após a ocorrência do acidente na central de Fukushima no Japão, alguns setores ambientalistas iniciaram uma forte campanha contra a implantação de novas unidades nucleoelétricas no país, inclusive a usina de Angra 3 (em construção), alegando os riscos de acidentes nucleares. O Governo, por outro lado, vem afirmando que não há nenhuma intenção de rever o programa de curto e médio prazo que incluí a conclusão de Angra 3 e a construção de mais 4 usinas nucleares.

O plano é construir duas usinas no Nordeste e duas no Sudeste, cada uma com capacidade instalada de mil megawatts cada. O cronograma prevê que a primeira usina entre em operação em 2019, no Nordeste, e a quarta em 2025, no Sudeste. Assim, a construção da primeira deve ser iniciada já no fim de 2012 ou no início de 2013 para que as metas anunciadas sejam cumpridas.

Do ponto de vista da segurança, diversas iniciativas de verificação da segurança das usinas do complexo nucleoelétrico da Angra foram tomadas, tanto por parte de órgãos do governo, quando do poder legislativo federal, municipal e estadual. Nada indica que haja problemas graves com a segurança das usinas brasileiras, a menos de ajustes na gestão do Plano de Emergência de Angra dos Reis e a realização de estudos quando a possíveis impactos de deslizamento de barreiras que possam ser ocasionadas na região, bastante susceptível a este tipo de desastre natural. Avaliações preliminares indicam que a probabilidade de ocorrer algum desastre do porte do terremoto e do tsunami do Japão é muito remota, de modo que um acidente nuclear do porte de Fukushima pode ser praticamente descartado no Brasil, tanto para atuais como para as futuras usinas nucleoelétricas.

Os pontos mais relevantes para o julgamento da opção nucleoelétrica no Brasil são os aspectos econômicos e ecológicos. Do ponto de vista econômico, os indicadores do custo da energia nucleoelétrica a ser oferecida ao mercado é vantajosa em relação às demais opções de geração térmica. Considerando, somente para efeito de referencia, que o próximo leilão de energia térmica (Leilão A-3 de 2011) indica um teto de R$ 150,00/MWh de CVU (Custo Variável Unitário), ou seja, o custo com combustível e O&M não poderá ser superior a este valor.

A geração nucleoelétrica leva de início uma grande vantagem, já que o valor médio deste custo é de aproximadamente R$ 35,00/MWh. Como no Brasil ainda não temos térmicas a gás (ou a carvão) despachadas na base do sistema, e tomando como referência o mercado dos EUA, onde a energia nucleoelétrica e as térmicas a carvão e a gás natural atuam como energia de base, o custo nucleoelétrico (incluindo o custo de capital) é na média de R$ 135,00/MWh e das térmicas a gás natural de R$ 216,00/MWh (considerando o CVU acima citado), o que demonstra claramente a vantagem da nucleoeletricidade em termos de custos.

Em termos ambientais, além considerar que as usinas nucleoelétricas são responsáveis por 14% de redução das emissões de CO2 oriundas da produção de energia elétrica no mundo, o fator de economia de recursos hídricos é de suma importância na análise estratégica das usinas nucleares na nossa matriz energética, fator este que deve ser observado por todos os agentes interessados neste tema, particularmente aqueles que se dedicam à preservação e uso racional dos nossos recursos hídricos.

Considerando os principais reservatórios das hidrelétricas da Região Sudeste/Centro Oeste e da Região Nordeste, o volume de água necessário para gerar energia equivalente a uma potencia instalada de 8.664 MWe (Modelo de Avaliação da Economia Hídrica de Reservatórios de Hidrelétricos em Operação – Aloísio Caetano Ferreira – Universidade de Itajubá – 2007) seria de 76.8 milhões de litros. Se tomarmos a potência instalada das usinas de Angra dos Reis (incluindo Angra 3) mais as 4 novas usinas anunciadas pelo governo ( 1.000 MWe cada), isto corresponderia a uma economia de água da ordem de 82.2 milhões de litros de água, algo equivalente ao consumo anual de água de uma cidade do porte do Rio de Janeiro.

Portanto, a dimensão ambiental do uso da nucleoeletricidade no Brasil é muito mais relevante do que tem sido considerada no debate sobre as nossas opções energéticas. Embora o Brasil detenha perto de 12% de toda a água doce do mundo, perto de 74% destes recursos estão situados na Bacia Amazônica, exatamente onde atualmente se contesta a implantação de grandes projetos hidrelétricos pela sensibilidade e complexidade ambiental daquele eco-sistema e também em função dos aspectos sociais envolvidos.

Na Região Nordeste, a questão do abastecimento de água é objeto de grandes projetos como a Transposição do Rio São Francisco, considerado prioridade absoluta do Governo Federal. Em amplas áreas da Região Sudeste, a escassez de água esta se tornado um problema sério, principalmente no Estado de São Paulo onde algumas áreas já são classificadas como áreas de escassez de recursos hídricos.

A Transposição do Rio São Francisco seria amplamente beneficiada com a possível localização de duas unidades nucleoelétricas de 1000 MWe cada uma, que trariam o efeito de flexibilizar uma vazão de 300 m3/s para outros usos em função de uma operação mais eficiente das usinas hidrelétricas nele localizadas, conforme estudo realizado pela ABIDES.

O fato de o Brasil possuir uma grande reserva de urânio possibilita o uso de combustível nacional para alimentar nossas usinas nucleoelétricas, que localizadas em pontos estratégicos do país, além de contribuir com a geração de energia elétrica na base do sistema elétrico trarão o benefício da redução das nossas emissões de CO2 (Aquecimento Global), redução do desmatamento decorrente da construção de linhas de transmissão e uma forte economia de recursos hídricos, fatores ambientais da mais alta relevância.

Rio de Janeiro, 09 de maio de 2011.
Engenheiro Everton Carvalho
Presidente da ABIDES

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