Eleições Italianas: lições para o Brasil e propostas para o desenvolvimento sustentável.

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As eleições italianas, ocorridas nos dias 24 e 25 deste mês, são emblemáticas, não só para o panorama político e econômico da Europa, mas para a ampla maioria das chamadas democracias capitalistas tradicionais, incluindo a nossa. A coalizão de centro-esquerda, liderada pelo secretário do Partido Democrata (PD), Pier Luigi Bersan, obteve uma vitória que, de tão apertada, bem poderia ser caracterizada como um empate técnico. Em segundo lugar, ficou o ex primeiro ministro Silvio Berlusconi, cuja saída do governo há menos de dois anos, em meio à crise e escândalos de corrupção e denúncias dignas de pornochanchada, imaginava-se, estaria ainda fresca na memória dos eleitores. Sua votação expressiva, 29,18% para a câmara e 30,72% para o senado, sugere o contrário. A baixíssima votação do atual Primeiro Ministro, Mario Monti (10.56% para a câmara) também.
O empate é completado por uma terceira força eleitoral, cuja fenomenal ascensão tem sido apontada por alguns colunistas brasileiros como “o fenômeno Tiririca da Itália”. A exemplo do palhaço puxador de votos tupiniquim, o ex humorista italiano Beppe Grillo, faz fama com seu discurso crítico e jocoso, emoldurado por gestos teatrais e bordões. Suas propostas para a recuperação italiana, no entanto, são menos vistosas e empolgantes.
O que o expressivo desempenho de Grillo, a derrota acachapante de Monti e o empate técnico entre Bersan e Berlusconi nos diz em termos de comportamento e aspiração dos eleitores? Sem dúvidas há uma considerável parcela a qual anseia por novidades, por uma terceira via capaz de encontrar um caminho entre a austeridade recessiva e o desenvolvimentismo inconseqüente. Seria Grillo o representante desse caminho? Parece que não. Nada em suas propostas permite um vislumbre de alternativas viáveis para qualquer um dos problemas que conduziram o país a uma dívida em torno de 120% do PIB. Seu discurso baseia-se na negação de quaisquer alianças políticas, saída da zona do euro, pensão equivalente a 1000 euros para os desempregados, corte de gastos militares e semana de trabalho de 20 horas.
Para a área de meio ambiente, Grillo encarregou o pneumologista Alberto Zolezzi, recém eleito deputado pela Lombardia, da confecção de seu programa. O resultado é uma carta de intenções citando, por exemplo, reciclagem e integração do processo produtivo e planejamento do descarte, ou, promoção do bem comum implementando uma democracia participativa nas decisões ligadas ao desenvolvimento regional. Não se vislumbra nas propostas uma metodologia, ou mesmo um planejamento para sua implementação. No caso dos outros dois candidatos mais votados a falta de priorização, e mesmo de compreensão do que vem a ser o desenvolvimento sustentável segue a mesma linha.
Há uma falta geral de definições e a resposta dos mercados, não poderia ser outra: uma queda, no dia 27 de fevereiro, na bolsa de Milão, com -4,89%, seguida por Madri, em baixa de 3,2%, por Paris, que caiu 2,67%, Frankfurt, -2,27%, e Londres, que perdeu 1,34%.
De tempos em tempos é comum vermos o eleitor de países em crise render-se às promessas fáceis e às soluções simplistas do populismo. A história ensina que tais movimentos costumam acabar em crises, em guerra, ou em revoluções. Também o Brasil, tem a sua “terceira via”, que teima em surgir e ressurgir com vários nomes (ou, até mesmo relutando em ter um nome). Crise é o estágio final de um processo, desencadeado pela persistente falta na aplicação de critérios. Não ocorre de uma hora para a outra e, do mesmo modo, também não se resolve assim. A superação de crises vem da coalizão política, aliada à participação, fiscalização e trabalho de um povo, e não da nomeação de um herói e a fé cega em um passe de mágica. Para uma retomada sustentável do desenvolvimento não há truque. Ela requer criatividade, mas, principalmente persistência e o engajamento da sociedade, organizada, em cooperação com o estado.

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