Ele voltou

Ele voltou
Por Ricardo Voltolini*, da Ideia Sustentável
Ele voltou. Cumprindo promessa que virou bordão do seu personagem em O Exterminador do Futuro, Arnold Schwarzenegger retornou, desta vez ao Brasil, para participar do Fórum Mundial de Sustentabilidade, no dia 24 de março, em Manaus (AM).

Na tribuna, o ex-governador do Estado da Califórnia, nos EUA, fez o que dele se esperava – uma palestra-show – e, é claro, não decepcionou. Valeu o caro preço do ingresso. Com menos massa muscular, mas esbanjando simpatia e carisma, disse o que a plateia presente, formada prioritariamente por altos executivos de empresas, esperava ouvir: sustentabilidade é o grande tema deste século; o Brasil, a maior potência ambiental do planeta; e o verde, a única cor possível para uma economia que se pretenda vitoriosa daqui por diante.

Para além do óbvio, no entanto, tocou em temas importantes. Não sei se leu A Revolução Decisiva, de Peter Senge, mas sua fala pareceu muito alinhada com ideias defendidas pelo ideólogo da Quinta Disciplina. Na visão do ex-ator de Holywood, ainda não totalmente desencarnado dos papéis que desempenhou, a sustentabilidade não “decolou” porque os seus promotores utilizam um discurso de defesa hermético, pretensamente científico – às vezes exageradamente científico – baseado no reforço ao medo e à culpa. A previsão da catástrofe iminente – crê – assusta e imobiliza. Não produz ação. Mas perplexidade. Não gera movimento de ação, apenas inércia e o sentimento de impotência ante a falência do planeta contra a qual um indivíduo não pode fazer nada, dada a intrincada e complexa teia de suas causas e efeitos.

Para justificar sua posição, leu o trecho de um manifesto de ONG europeia, com voz de Conan, o Bárbaro, mencionando números alarmantes sobre o aumento do nível do mar e impactos para o derretimento da calota polar. Arrancou risos rasgados da audiência. Na visão de Arnold, a estrutura de apresentação do tema precisa ser melhorada ou não haverá adeptos, mas espectadores passivos de um filme de terror. A saída está – defende – em associar a sustentabilidade à prosperidade, qualidade de vida, saúde e alegria – algo cool e sexy como o samba, diria mais tarde, em entrevista, para agradar ouvintes brasileiros.

Em reforço à sua tese, usou o discutível exemplo do fisiculturismo. Quando começou a puxar ferro, na década de 70, para esculpir o corpo que o faria famoso no cinema, houve quem achasse aberrante aquele tipo de prática. Era algo visto como recurso de derrotados acéfalos que não prezavam por sua própria saúde nem queriam utilizar o cérebro para progredir na vida. Foi exatamente o discurso de que o fisiculturismo melhorava a saúde e auto-estima individual que ajudou a turbinar o número de adeptos nos EUA. Com a sustentabilidade, o caminho é mostrar seu aspecto cool. Menos números, mais ação.

Do ponto de vista econômico, o discurso da sustentabilidade vai ganhar consistência – acredita – quanto mais gerar “empregos verdes.” “Decididamente, as pessoas, em qualquer lugar do mundo, não estão muito interessadas no aumento do nível dos oceanos, porque os oceanos estão muito longe de sua realidade cotidiana. Elas querem ter bons empregos sustentáveis. Os oponentes do conceito de sustentabilidade quase sempre recorrem ao discurso de que ela prejudica a competitividade. E isso é uma mentira”, ressaltou, apoiando-se em estatísticas que mostram um crescimento na geração de empregos verdes 10 vezes superior ao do mercado convencional. Não citou a fonte.

A oposição existe e é forte, bradou mais uma vez o Conan guardado no fundo de sua alma. Quando governador da Califórnia, Arnold criou leis ambientais rígidas, estimulou o uso de painéis solares na construção de novas residências, construiu estações de hidrogênio, incentivou pesquisa, desenvolvimento e uso de tecnologias de produção mais limpas e forçou medidas para a redução de emissões de gases de efeitos estufa. Produziu resultados vistosos. Incomodou um bocado.

Republicano, fez tudo isso – destacou – contra a oposição de alguns democratas atrás de holofote, de empresários receosos do aumento de custos, e dos céticos de plantão que se aninham contra toda e qualquer medida que ponha em xeque o status quo ou os fundamentos da velha economia. No auge da crise econômica de 2008-2009, iniciada com a dêbacle do endividamento do mercado de imóveis, inimigos da “causa” voltaram suas baterias contra as leis ambientais, alegando que elas prejudicam, mais do que ajudam, a geração de empregos nos EUA. “Eles perderam. Foi 61% a 39% nas urnas”, lembrou com o mesmo sorriso triunfalista de canto de boca, levemente canastrão, que já vimos em alguns de seus personagens.

Três momentos merecem destaque em sua participação, pela habilidade e jogo de cintura. Ao ser perguntado sobre o que achava da usina de Belo Monte, talvez por já ter sido informado do imbróglio pelo cineasta e amigo James Cameron (com quem, aliás, além de dividir o painel, partilhou um banco de barco em passeio pelo Rio Negro, no dia anterior), alegou não ser “sábio” nem prudente dar palpite sobre o Brasil, ainda mais a respeito de um assunto –usinas hidrelétricas – que não domina. Não se negou, no entanto, a trocar experiências com autoridades brasileiras no assunto.

Em outro momento, foi levemente brilhante. Indagado sobre que tipo de benefício a sustentabilidade pode gerar para um país “pobre” como o Brasil, disparou, como querendo elegantemente provar ao autor da pergunta que o Brasil, mais do que pobre, é um país desigual: “Já estive várias vezes no Brasil. E acho que já o conheço um pouco.

Desde 1993, quando vim pela primeira vez, observo uma evolução fantástica. Os número mostram isso. Há um respeito e um interesse muito grande por tudo o que está sendo feito aqui. Só China e Índia crescem mais do que o Brasil no mundo, hoje. Mas, é claro, todo crescimento produz dores. E vocês, com a energia que têm, aprenderão a superá-las”, afirmou.

Já no final do painel, perguntaram-lhe sobre as dificuldades que teve com o tema no governo da Califórnia. Muitas, respondeu. Mas nenhuma que tenha sido impossível superar. Em sua avaliação, os impasses, quase sempre de natureza política ou ideológica, são criados por pessoas que, por diferentes motivações, não acreditam na possibilidade de conjugar economia com meio ambiente. Muitas vezes, eles se apoiam no medo e na insegurança de uma parcela mais desinformada da população, especialmente em momentos de crise, para promover suas ideias. “Mas ninguém, em são consciência, pode ser contra respirar ar bom, beber água de qualidade, viver num clima estável. Quando se consegue provar que tudo isso pode e deve ser consequência de um novo tipo de economia, não há oposição”, disse.

No encerramento de sua fala, já um tanto à vontade com a hospitalidade brasileira, Arnold convocou Conan para fechar o raciocínio que utilizou ao longo de sua palestra. ”Conan achava que devia matar as mulheres dos seus inimigos para fazê-los sofrer ainda mais. Mas o bárbaro não era um homem afeito a argumentos filosóficos. No entanto, partia para a ação. A hora pede menos debate. E mais ação.” Conan neles! Hasta la vista, baby!

*Ricardo Voltolini é publisher da revista Ideia Sustentável e diretor da consultoria Ideia Sustentável. Twitter: @ricvoltolini / Topblog: http://www.topblog.com.br/sustentabilidade

(Envolverde/Idéia Sustentável)

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