Economia ‘verde’ busca avanço na Rio+20

Meta é diminuir impacto de produção e locomoção: agricultura, transportes, energia, lixo, indústria e água são estratégicos.

Um dos temas eleitos pela ONU para a Rio+20 é a economia verde, conceito que designa um modelo de desenvolvimento baseado em baixa queima de carbono, eficiência no uso dos recursos e inclusão social.

A Grosso modo, a ideia é “esverdear” a economia, estudando soluções de investimento nos setores verdes – e em outros originalmente não tão amigos do ambiente.

O desafio parece imenso – e é. O tema é abordado pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente – PNUMA desde 2008, quando foi lançada a Iniciativa pela Economia Verde. Em 2011, o PNUMA lançou o relatório “A caminho da Economia Verde”.

Diante da complexidade do tema, a abordagem foi dividida em duas grandes áreas: capital natural, que inclui agricultura, pesca, água e florestas e energia e eficiência no uso de recursos, energias renováveis, indústria, construções, transporte, turismo e cidades.

“Seja pelo crescimento das energias renováveis na Alemanha, na China ou na Índia, pela propagação acelerada da agricultura orgânica e sustentável em Uganda e Argentina ou pelas políticas de transporte sustentáveis de cidades como Curitiba, há muitos exemplos sinalizando que a transição está em andamento”, diz o porta-voz do PNUMA, Nick Nuttall.

Para ele, a Rio+20 é uma oportunidade de dar escala e acelerar a incorporação dessas transições.

Agropecuária

No Brasil, que vem se destacando na produção de alimentos – somos o maior exportador de carne do mundo e o cultivo de grãos cresce em média 4% ao ano, o setor agrícola merece atenção.

“Trata-se de inverter o olhar e transformar uma agenda negativa, de custos adicionais, em oportunidades de negócio. Especialmente pela capacidade que temos de produzir sem degradar e sem comprometer o futuro”, diz o agrônomo e chefe da Embrapa Meio Ambiente, Celso Vainer Manzatto.

A aposta da agricultura brasileira é nos sistemas integrados de produção – agrossilvopastoris, na minimização de danos e emissões de gases-estufa pela incorporação de práticas como plantio direto, sem revolver o solo ou fazer queimadas, na recuperação de áreas degradadas e na redução do uso de insumos tradicionais e aumento do uso de insumos biológicos, como o rizóbio, bactéria que capta o nitrogênio do ar e o fixa no solo.

Para reduzir as emissões dos gases carbônico, metano e do óxido nitroso, o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento – MAPA, lançou há dois anos o programa Agricultura de Baixo Carbono – ABC.

“O ABC incentiva práticas que a agricultura brasileira tem há décadas. Mas exige reciclagem das equipes técnicas e dos produtores rurais. E também um tempo para que a aprendizagem do novo sistema seja internalizada”, afirma Derly Dossa, chefe da assessoria de gestão estratégica do MAPA.

Ele afirma que o Brasil tem hoje 27 milhões de hectares cultivados no sistema de plantio direto. “A meta é melhorar e aumentar mais 8 milhões de hectares em dez anos.”

Manzatto, da Embrapa, lembra que a participação da agricultura nas emissões é grande. “Das metas de redução voluntárias do Brasil, da ordem de 36%, 29% têm de ser reduzidas na agricultura”, diz.

Dessa afirma que a meta do ABC é abranger 30 milhões de hectares; o equivalente ao território da Itália, nos próximos dez anos, prioritariamente no Cerrado.

“Mas Paraná e Rio Grande do Sul estão se mexendo muito rapidamente, por conta do aumento do preço das terras e a degradação que já sofreram.”

Transportes

Outro tema que merece olhar atento são os transportes, que respondem por boa parte das emissões em países como os EUA e vêm aumentando sua participação nos países em desenvolvimento.

A frota brasileira cresceu de menos de 10 milhões de veículos, em 1980, para quase 40 milhões em 2009. Levando-se em consideração apenas o CO2, foram emitidas 170 milhões de toneladas em 2009, 38% originadas de automóveis.

Desde 1986, o governo brasileiro mantém o Programa de Controle de Poluição do Ar por Veículos Automotores – PROCONVE.

Os veículos são divididos em pesados, leves, motocicletas e máquinas agrícolas e rodoviárias.

O programa regula monóxido de carbono, hidrocarbonetos, óxidos de nitrogênio e material particulado.

“Uma fase do Proconve é sempre a combinação de uma data com um novo limite de emissão”, diz Rudolf Noronha, gerente de Qualidade do Ar do MMA.

“Avançamos muito em tecnologia. Em 1985, um carro emitia o equivalente a 56 autos de hoje. O problema é a somatória das emissões”, afirma.

Há duas semanas, o Proconve entrou em sua sétima fase para veículos pesados, com a adoção do diesel S-50, que tem 50 partes por milhão de enxofre. Atualmente ainda usamos, em muitos locais, um diesel com 1,8 mil ppm de enxofre.

Noronha chama a atenção para a emissão das motos. “Até pouco tempo atrás, uma moto emitia por quatro carros. Hoje uma moto equivale a um veículo leve. Mas é um equilíbrio que a gente mantém a muito custo”, revela.

Reportagem de Karina Ninni, no O Estado de S.Paulo.

EcoDebate, 31/01/2012

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