Dia Mundial da Terra 2016

 

 

Estamos chegando a mais um 22 de abril. Para nós, brasileiros e brasileiras, é data que relembra o descobrimento de nosso território por colonizadores europeus, e por isso o encobrimento de que a existência do Brasil significou a usurpação dos territórios de vida dos povos originários e da negação de suas formas de vida, suas culturas, línguas, religiões.

O Brasil nasceu de práticas fundadas numa interpretação fundamentalista radical e absoluta da cultura ocidental europeia e da forma de cristianismo submetido, usado e que usava o poder do estado imperial.

A negação do diferente foi absoluta, como foi absoluta a afirmação do “direito imperial” ao território descoberto e à submissão de seus povos aos seus interesses.

Como afirmaram representantes das elites colonialistas, estes povos deviam agradecer pela oportunidade oferecida de serem seus escravos, porque assim de alguma forma iniciavam o contato com a única civilização e religião verdadeiras!

Não é mera coincidência a semelhança com a atual leitura fundamentalista radical e absoluta da forma neoliberal e globalizada do sistema capitalista, da civilização assentada sobre a imposição só aparentemente democrática do pretenso direito absoluto à livre iniciativa econômica, legalizado em processos controlados e a serviço de seus interesses.

O processo de concentração da riqueza, via apropriação de territórios, de controle dos preços mundiais de commodities, de criação autônoma de artifícios de crédito, dívidas, juros, que hoje submetem até a gestão de recursos públicos dos Estados nacionais, tem suas raízes no capitalismo já existente no século XVI, que muda de forma, mas mantém seu DNA: ser sempre vitorioso nas relações de concorrência, anulando concorrentes, tornando-se sempre mais rico e poderoso.

A lentidão dos navios que trouxeram pessoas e armas para ocupar o “novo mundo” nos ajuda a compreender a diferença com os processos atuais: estamos perto da realização do desejo máximo dos vitoriosos na “livre” iniciativa capitalista, o de anular o espaço e o tempo na realização das operações de geração de riqueza.

Se na produção e venda de produtos reais ainda há alguns problemas, a circulação financeira já torna imediatos os processos de especulação, com poder de quebrar até países cada vez mais poderosos, os europeus reincidentes na colonização, por exemplo, para impor mais juros, mais e mais ganhos.

É por isso que a cada ano diminui o número dos super-ricos que controlam riqueza igual à da metade de população mundial. Em 2015 já eram apenas 62. Hoje, com certeza, o número é menor.

Então, nesse ambiente mundial de dominação, que no Brasil se expressa na imposição de governantes que submetam o país a esses interesses mundiais através de processos de impedimento da presidência eleita sem fundamentos legais, O QUE SIGNIFICA A CELEBRAÇÃO DO DIA DA TERRA?

Se depender dos responsáveis pela política federal atual, poucos motivos de festa. E se olharmos os que ameaçam chegar ao poder via golpe parlamentar, menos ainda.

O que vale é a consciência popular, das entidades da sociedade civil e pastorais/igrejas, que tem avançado e estão cada dia mais empenhadas em conseguir as mudanças estruturais necessárias para salvar a vida na Terra e a vida da própria Terra.

Por outro lado, vale, sem dúvida, que todas as forças que amam a vida da Terra e na Terra se somem para exigir duas medidas do governo federal:

1) que ratifique imediatamente, a partir do dia 22, o Acordo de Paris;

2) que coloque em prática os compromissos voluntários já anunciados, e, de imediato, abra processo participativo para avançar nas medidas que o Brasil implementará para ajudar a Terra a diminuir o desequilíbrio causado por ações humanas lideradas pelo sistema econômico neoliberal que domina e estraga a vida da humanidade, dos demais seres vivos e de todas as energias da natureza.

Está mais do que na hora de tomar tento, como fala nosso povo, e assumir que o Brasil pode e deve, sim, fazer mais e muito melhor em favor da vida.

Viva a Terra! Salvemos a vida da Terra e na Terra!

Artigo de Ivo Poletto é Assessor do Fórum Mudanças Climáticas e Justiça Social

 

in EcoDebate, 22/04/2016

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