DESASTRE DE BRUMADINHOS: FALTOU CULTURA DE SEGURANÇA?

DESASTRE DE BRUMADINHOS: FALTOU CULTURA DE SEGURANÇA?

Hoje na Globo News foi comentado que de acordo com as práticas internacionais, os técnicos responsáveis pelos itens de segurança de uma instalação que traz riscos significativos para as pessoas e para o meio ambiente, devam se reportar diretamente ao Presidente/proprietário da empresa.

Nada de novo nessa informação, este procedimento é um dos itens do que denominamos “Cultura de Segurança” que além deste requer que desde o “chã de fábrica” até a “alta direção”, todos estão cientes das questões que coloquem em risco a instalação, a população e o meio ambiente.

A Cultura de Segurança também requer que os gerentes e funcionários ao detectar algum fator que possa se transformar em elemento de risco, comuniquem imediatamente ao seu superior e todos acompanham se soluções adequadas foram tomadas.

Na área da hierarquia papéis e responsabilidades são claramente definidos e reconhecidos por todos de modo que a comunicação de incidentes e desvios possam ser imediatamente disseminados na cadeia de comando e ações efetivas para resolver os problemas tenham a devida sequência. Na parte operacional as equipes estão atentas a qualquer desvio operacional fora dos limites dos projetos das instalações e capazes de atuar rapidamente identificar e debelar as causas.

Um dos pontos mais importantes é a avaliação de riscos, ponto este que considero o mais frágil no caso da Vale na catástrofe de Brumadinho. Neste quesito os gestores avaliam previamente, ou seja antes da elaboração dos projetos de engenharia, antes das obras e antes das operações os potencias de riscos econômicos (prejuízos em decorrência de um acidente, seguros, indenizações e compensações), riscos para a população e para o meio ambiente do empreendimento.

Neste quesito a direção da empresa deve avaliar a relação custo/benefício das medidas e estruturas voltadas para garantir a segurança; verificar se estes gastos não inviabilizarão os resultados esperados ou se ao não considerar os custos com segurança não estarão comprometendo a segurança da instalação, das pessoas e do meio ambiente. A recomendação da genuína cultura de segurança é de “não permitir que a busca de resultados econômicos e financeiros comprometam a segurança”.

Quanto participei do Board of Directos no Centro de Coordenação da WANO (World Association of Nuclear Operators) em Londres de 2002 a 2004, fui designado pelo conselho a responder pelos programas de experiencia operacional das usinas nucleares filiadas; desta forma coordenei programas de segurança operacional de 450 usinas nucleares no mundo. O fato mais importante dessa experiencia foi aprender com as lições dos diversos incidentes e acidentes e uma indústria super sofisticada, de alta tecnologia e altíssimo risco para a população e para o meio ambiente se as coisas não forem bem feitas.

Foi quando pude me aprofundas no conceito de “decisões operacionais efetivas e seguras” e compreender porque os acidentes de Mariana e agora de Brumadinho, mesmo sendo que essas instalações fossem operadas por grandes corporações, ocorreram. Por falta de uma “cultura de segurança adequada” às dimensões dos desafios operacionais do ponto de vista da segurança. Estudei profundamente Mariana e agora vejo que as causas daquele desastre, no fundo, são as mesmas da catástrofe de Brumadinho.

Faço um alerta muito grave – se governos, autoridades e altos executivos das empresas não voltarem os olhos para a grande carência de cultura de segurança que sobraram nestas duas catástrofes, elas voltarão a se repetir, não só na mineração, mas também nas outras áreas onde riscos de acidentes graves existam.

Eng. Nuclear Everton Carvalho

Presidente da ABIDES

 

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