CUIABÁ CIDADE INABITÁVEL?

 

CUIABÁ CIDADE INABITÁVEL?

No dia 23 de agosto deste ano, Cuiabá registrou a maior temperatura do ano até então, com máxima de 38,2°C, e no dia 25 os termômetros atingiram os 39°C na cidade, 5°C acima da média para agosto, com previsão de alcançar os 41°C no dia 28, sexta feira, 7o acima da média para agosto.

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Seguramente estas temperaturas elevadas não decorrem exclusivamente do microclima de Cuiabá, mas é consequência de diversos fatores climáticos que afetam a Região Centro-Oeste. Porém os fatores locais certamente influenciam o aumento de temperatura na zona urbana da capital, conforme análise de diversos especialistas.

O trabalho “Análise da formação de ilhas de calor em Cuiabá – MT por meio de imagens de satélite” elaborada pelo Professor João Luiz S. P. Cuiabano e equipe da UFMT fundamenta a formação de ilhas de calor em Cuiabá conforme o texto abaixo:

“De acordo com dados do IBGE, a cidade de Cuiabá possuía em abril de 2007 uma população estimada em 530.000 habitantes, que, juntamente com as cerca de 230.000 pessoas  de Várzea Grande, cidade conurbada, totaliza aproximadamente 760.000 habitantes na Grande Cuiabá, sem contar os demais municípios limítrofes da região metropolitana. Nas ultimas décadas, a cidade de Cuiabá vêm passando por um processo acelerado de desenvolvimento urbano que vem acarretando mudanças em diversos parâmetros biofísicos da região, em especial a cobertura e uso do solo, provocando alterações nas temperaturas da superfície terrestre e do ar.

Devido a um processo desordenado de crescimento, a cobertura vegetal da cidade vem diminuindo drasticamente num curto período de tempo, agravado pela não destinação de uma boa quantidade de áreas verdes e parques na maioria do território. Agravado pela questão da crise do déficit habitacional, vários empreendimentos habitacionais foram sendo implantados ao longo do tempo, para diminuir o problema habitacional, tanto com recursos dos governos federal, quanto estadual e municipais.

Nos últimos anos, com a intensificação das políticas habitacionais dos governos federal, estadual e municipais, aumentou consideravelmente a quantidade de empreendimentos habitacionais implantados em todos os municípios da região metropolitana, com o surgimento de um grande número de loteamentos com unidades isoladas, destinadas principalmente para a população com menor poder aquisitivo.

A implantação desses empreendimentos provocou uma mudança da cobertura da superfície nas áreas, com a substituição da vegetação nativa por construções, calçamentos e pavimentação, contribuindo para a transformação do clima da região.”

A figura abaixo sumariza o resultado das pesquisas do Professor Luiz Cuiabano.

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Podemos observar claramente a diferença na distribuição de áreas de menor temperatura (mais amarela) e maior temperatura (mais vermelha) comparando dados de 2004 e 2011. Vemos que há uma forte tendência neste período de 7 anos de expansão das áreas de maior temperatura. Entre causas citadas no trabalho está a diminuição das chácaras no entorno da cidade (Ribeirão, Coxipó, Margem Esquerda do Rio Cuiabá, etc.).

Para consolidar a discussão sobre as causas das ilhas de calor, citamos trecho do trabalho da Professora Flávia Maria de Moura Santos do Departamento de Arquitetura e Urbanismo da UFMT:

Destaca-se que áreas, sob influência de grandes massas de vegetação, apresentaram características próprias com microclima diferentes das outras áreas da cidade, contribuindo para formação de ilhas de umidade, já que há uma contribuição na perda de energia para o meio e consequente queda de temperatura e aumento da umidade relativa do ar. Desta forma, é evidenciada a importância da implantação de parques urbanos em locais de clima semelhantes ao de Cuiabá.

As mudanças provenientes da urbanização como uso de materiais impermeáveis, aumento da rugosidade da superfície por meio da verticalização das edificações formandos os canyons urbanos tem importante contribuição na energia disponível no meio ocasionando anomalias climáticas, sendo a principal delas a formação de ilhas de calor, evidenciada nos registros de maiores temperaturas nas áreas mais urbanizadas, centro comercial da cidade, em relação às áreas periféricas com características ainda rurais.

Portanto, a partir da opinião e dados obtidos dos especialistas, fica evidente que a presença de “ilhas de calor” na área urbana de Cuiabá é fator que contribui significativamente para o aumento da temperatura nesta área e aumento da sensação térmica em função da queda de umidade relativa do ar, reflexo da radiação solar nas áreas impermeabilizadas e liberação de calor das estruturas das construções no período noturno.

O pano de fundo deste fenômeno climático é a política de uso e ocupação do solo urbano, que não tem levado em consideração as variáveis que permitissem a mitigação dos efeitos causadores do desconforto térmico e até mesmo consequências mais sérias na saúde da população. A expansão desordenada, a transformação de áreas verdes em conjuntos habitacionais e supressão da cobertura vegetal e o aumento da impermeabilização de grandes áreas com a construção de calçadas de concreto e pavimentação de vias são os elementos que provocam as “ilhas de calor”.

Os dados populacionais compilados pela ABIDES e as projeções do crescimento populacional da Grande Cuiabá trazem indicadores preocupantes em termos das necessidades futuras de moradia e de novas vias da malha viária, fatores que tendem a agravar o problema, conforme mostra o gráfico abaixo.

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Cuiabá carece da intervenção dos urbanistas, que devem, a partir desta crise climática local, assumir a linha de frente do planejamento da expansão urbana da capital e da gestão das políticas de uso e ocupação do solo urbano, trazendo para este conjunto de políticas públicas conceitos de sustentabilidade, capazes de reverter este quadro preocupante, que, além de nos tirar o título de “Cidade Verde” poderá nos transformar na “Cidade Inabitável”.

Eng. Civil Everton Carvalho – Presidente da ABIDES

Arq. Ana Rita Maciel Ribeiro – Consultora Arquiteta Urbanista

 

 

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