COP17 e os desafios do acordo climático global

Às vésperas da COP17, que acontece a partir de 28/11 na África do Sul, o pesquisador do IPEA Ronaldo Seroa da Motta explica por que os países têm tanta dificuldade em cooperar internacionalmente e fechar um acordo climático global, se todos já estão cientes de que sofrerão consequências, caso o mundo não reduza em 80% suas emissões de GEE até 2050.

Ele falou sobre o tema em encontro promovido, ontem, pelo Planeta Sustentável, Fórum Clima, Empresas pelo Clima, CEBDS e CNI

Em menos de um mês, a partir de 28/11, representantes dos 193 Estados-Membros da ONU – Organização das Nações Unidas estarão reunidos em Durban, na África do Sul, para participar da COP17 – 17ª Conferência das Partes da Convenção-Quadro da ONU para as Mudanças Climáticas e debater medidas para reduzir as emissões mundiais de gases causadores do efeito estufa e conter o aquecimento global.

Na opinião de muitos especialistas, para que o mundo conseguisse reduzir em 80% suas emissões de GEE até 2050 – e, assim, evitasse que o aumento da temperatura do planeta não ultrapassasse 2ºC acima da média histórica -, o ideal seria firmar, o mais rápido possível, um acordo climático global, que definisse metas de redução de emissões para todos os países.

No entanto, apesar dos líderes globais terem consciência da importância de combater o aquecimento global, a realização de um documento legalmente vinculante está longe de acontecer.

Por quê? Foi o que Ronaldo Seroa da Motta, pesquisador do IPEA – Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada e ex-diretor de Política Ambiental do Ministério do Meio Ambiente, explicou durante curso preparatório para a COP17, promovido pelo Planeta Sustentável, em parceria com Fórum Clima, Empresas pelo Clima, CEBDS e CNI.

De acordo com o especialista – que, inclusive, participa do livro Mudança do Clima no Brasil: aspectos econômicos, sociais e regulatórios, do IPEA – há duas grandes razões, complementares, que afastam os países participantes da COP do espírito de cooperação internacional.

O primeiro deles está relacionado à atmosfera de incerteza que envolve a ciência do clima. “Nem mesmo os cientistas sabem, com exatidão, o que acontecerá em 2050, e, diante das dúvidas a respeito dos custos e ganhos do combate ao aquecimento global, os agentes econômicos optam por esperar e retardar suas ações, em busca de respostas mais concretas que garantam a eficiência de suas iniciativas”, explicou Motta.

Trata-se de uma mentalidade gradualista, que se opõe à postura imediatista dos cientistas: “Por não conseguirem ter certeza de nada, eles consideram urgente tomar atitudes, agora, a respeito do aquecimento global. Ou as consequências podem ser piores do que preveem”, disse Motta.

Mas, convencer os líderes globais a respeito dos benefícios de assumir uma postura mais imediatista quando o assunto é o combate às mudanças climáticas não é o maior desafio rumo a um acordo climático global.

O segundo motivo apontado por Motta como inibidor do espírito de cooperação internacional dos líderes globais é ainda mais espinhoso: a falha de mercado do processo de combate ao aquecimento global.

“O fato de uma nação se comprometer a reduzir suas emissões não garante que os outros países também adotarão a mesma postura e, então, com medo de serem os únicos a se sacrificar, os agentes econômicos não tomam nenhuma atitude. Um fica esperando o outro agir e nada acontece”, explicou Motta.

Parece absurdo as nações não se arriscarem, quando o futuro do planeta está em jogo? Pois é a mesma postura que a maioria de nós adota, todos os dias.

“A cena é corriqueira: a caixa d’água do seu prédio passará por processo de limpeza e, por isso, o síndico avisa que os moradores ficarão sem água. O que você faz? Corre para encher uma porção de baldes.

Provavelmente, ao fim do período de racionamento, você nem usará toda a água que coletou e a jogará pelo ralo, mas você não iria correr o risco de ficar sem o recurso.

É um exemplo claro de conflito entre os interesses individuais e o bem comum”, afirmou Motta, que ainda completou: “Essa é a mesma falta de cooperação que vemos nas COPs. A diferença é que um cenário acontece em nível local e o outro, global”.

O QUE ESPERAR DA COP17?

Apesar da Conferência não resultar em um acordo climático global, Motta acredita que o evento renderá boas conquistas.

Entre elas, a definição do mecanismo de governança do Fundo Verde para o Clima – ou Green Climate Fund, criado para que os países desenvolvidos financiem ações de adaptação e mitigação de emissões de GEE nas nações em desenvolvimento.

“Considero este debate extremamente positivo. Muitos especialistas, inclusive, acreditam que a definição do funcionamento do Fundo é ainda mais importante do que o próprio acordo global”, disse Motta.

Ainda segundo o especialista, o Brasil terá uma posição confortável na Conferência, após ter anunciado, na COP15, uma meta ousada de redução de emissões de poluentes até 2020, que varia entre 36 e 39%, em relação aos níveis de 1994.

“Mas é importante que o país não se acomode e comece a pensar nas ações que adotará no pós-2020. Investir em inovação tecnológica e em um PAC ambiental de baixo carbono, que repense a logística do Brasil, é fundamental para avançarmos rumo a uma economia mais limpa”, concluiu.

Fonte: IPEA

EcoDebate, 11/11/201
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