Comunidades sustentáveis: habitação e empregos dignos

A desigualdade e a pobreza requerem ser enfrentadas com esforços em vários níveis.

No nível nacional e estadual, com políticas que estabeleçam regulações e financiamento de macro projetos; no nível mesoeconômico, o espaço das redes produtivas e cadeias de valor, promovendo que o aparato produtivo e, em especial, os que liderem cadeias produtivas exerçam responsabilidade mesoeconômica com seus trabalhadores, seus provedores, seus distribuidores e ainda seus clientes; no nível local, alentando que municípios, junto com movimentos sociais, organizações da sociedade civil, a comunidade científica e tecnológica, os formadores de opinião assumam iniciativas concretas para abater a pobreza e a desigualdade em sua localidade.

São muitos e diversos os atores que devem mobilizar-se para encarar um flagelo gerado pela forma como as sociedades têm se organizado e cujas implicações não são somente éticas mas se projetam sobre a coesão social, os movimentos políticos, a governabilidade democrática e o funcionamento mesmo do sistema econômico; a desigualdade e a pobreza constituem uma das principais causas da crise que afetam o mundo contemporâneo.


Diversidade de situações e de soluções

A realidade apresenta uma enorme diversidade de situações que requerem ser tratadas de acordo com a singularidade de cada caso.

Não é o mesmo intervir em áreas metropolitanas de alta densidade de população e relativa escassez de solo disponível, do que em cidades pequenas e médias onde os espaços de expansão urbana são mais abundantes e, menos ainda, em áreas rurais onde talvez uma comunidade sustentável possa implicar estabelecer um novo povo que atue como centro de prestação de serviços e assentamento residencial de população antes dispersa.

Quiçá a planificação territorial do país ou do estado recomende enfatizar um desenvolvimento regional mais equilibrado que a minore, reverta a enorme concentração populacional e produtiva em grandes áreas metropolitanas agoniadas pelos altos custos de aglomeração.

Sem excluir as áreas metropolitanas, implicaria priorizar ações em estados e em localidades que tenham potencial de crescimento, mas que requeiram respaldo nacional para se materializar.

As comunidades sustentáveis podem, nesse sentido, complementar outros esforços orientados a integrar mais racionalmente o território nacional, ajudando a reter população local e reorientando migrações para novos polos de desenvolvimento regional.

Significado e implicações das comunidades sustentáveis

Um programa de comunidades sustentáveis como o proposto implica reverter a atitude tradicional de ignorar ou destinar as piores soluções aos setores pobres e indigentes.

Trata-se de mobilizar o potencial de talento e energia social que se aninha em grandes maiorias hoje absurdamente desaproveitado.

Combina o próprio esforço dos que desejem fazer parte das novas comunidades sustentáveis com o apoio de diversos atores do setor público, do privado e da sociedade civil.

É uma iniciativa que integra soluções habitacionais dignas com esforços para desenvolver novos e promissores empreendimentos produtivos gerando renda que permita atender as necessidades familiares e assumir o pagamento da habitação progressiva.

Busca-se assegurar qualidade de vida a setores que têm sido marginalizados dos benefícios do desenvolvimento, agora integrados em comunidades sustentáveis que valorizam sua identidade cultural e atuam com responsabilidade social e ambiental.

O leitor pode tirar suas próprias conclusões acerca do impacto político, social, ambiental e econômico dessas novas comunidades sustentáveis.

As restrições que se enfrentam não se reduzem à disponibilidade de recursos financeiros; falemos claramente, os recursos financeiros existem ainda que seja óbvio que, até agora, não se tenham canalizado para este tipo de empreendimento.

O desafio passa pela compreensão que o financiamento de comunidades sustentáveis que integrem e mobilizem setores pobres e indigentes não é um gasto de consumo, mas um investimento de altíssima rentabilidade social, política, ambiental e também econômica, por seu grande efeito multiplicador.

Destinar recursos financeiros e de gestão para estabelecer comunidades sustentáveis passa com sucesso por qualquer tipo de exame.

O tema é se temos determinação para atuar, se somos capazes de superar prejuízos e trabalhar formas efetivas de mobilizar social e produtivamente os setores pobres e indigentes, se evitamos ingenuidades e conseguimos obter o ativo respaldo de políticos, governantes e administradores, se, em primeira instância, os movimentos sociais vão querer debater e ajustar estas iniciativas para fazê-las suas e incluí-las em suas reivindicações.

Não é simples passar do lamento à ação, nem tão pouco superar as múltiplas dúvidas e interrogações que toda nova iniciativa gera. É certo que os desafios são significativos e que uma nova e distinta geração de tensões emergirá em cada uma das novas comunidades sustentáveis.

É que seus habitantes levarão em suas mochilas, não o esqueçamos, o melhor e o pior de cada um. Haverá que administrar conflitos e desavenças como ocorre em qualquer conjunto social, ainda que, desta vez, em um contexto mais promissor e facilitador.

Disso se trata, é abrir uma nova via para mobilizar energias, desejos e aspirações de enormes contingentes populacionais injustamente castigados, é somar o talento e a energia que, sem dúvida, têm para procurar viver melhor e transformar-nos todos no intento.

Artigo originalmente publicada na revista online Opinión Sur.

www.opinionsur.org.ar

Artigo de Roberto Sansón Mizrahi

EcoDebate, 10/10/2011

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