“Comer a castanha do caju e jogar o resto da fruta no lixo”

ANÁLISE ESTRATÉGICA DOS RESERVATÓRIOS DAS HIDRELÉTRICAS.

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A crise de abastecimento elétrico de 2001 deu um sinal evidente da influência da hidrologia no comportamento dos reservatórios das hidrelétricas brasileiras e das consequências negativas para a segurança energética do País. A queda dos níveis dos reservatórios voltou a ser objeto de preocupação em 2008 e a questão aparece mais aguda no final de 2012, quando praticamente todas as usinas térmicas convencionais disponíveis foram acionadas para economizar água nos reservatórios.

O fenômeno do “Efeito Estufa” ou “Aquecimento Global” trás como consequências imediatas as mudanças climáticas mundiais e repercute no aumento da temperatura média da atmosfera, no derretimento de geleiras, no aumento do nível dos oceanos, no aumento das ocorrências dos efeitos climáticos extremos (cheias e estiagens), nas mudanças dos regimes pluviométricos, e no aumento da ocorrência dos ciclones. Todas essas alterações estão relacionadas aos recursos hídricos e com o comportamento do nível dos reservatórios das hidrelétricas, que precisa ser observado sob estas novas condições globais.

O fenômeno El-Niño e La-Niña, oriundo, respectivamente, do aquecimento e resfriamento das águas do oceano Pacífico, também é considerado um fenômeno climático que provoca modificações nos padrões climáticos mundiais, ocasionando condições climáticas críticas (secas e enchentes) quando o fenômeno se manifesta.

A questão da atual fase crítica da geração de energia elétrica está centrada no papel dos reservatórios das hidrelétricas como reguladores do atendimento da demanda, fator este diretamente relacionado com o despacho expressivo de todas as usinas termoelétricas do País, para evitar o esvaziamento dos reservatórios das hidrelétricas em face do período seco. O ponto mais sensível é a imprevisibilidade da quantidade de energia afluente nestes reservatórios para um dado período anual. No histórico desta afluência, no ano mais seco a energia afluente é 33% inferior à média e no ano mais úmido 93% superior à média – estes parâmetros são representativos do grau de incerteza na expectativa da evolução dos níveis destes reservatórios a cada ano, o que requer uma capacidade regulatória plurianual dos reservatórios, para propiciar os níveis de segurança energética requeridos pelos consumidores e pela sociedade.

A capacidade de regulação dos reservatórios do SIN (Sistema Integrado Nacional) vem perdendo sua eficiência nos últimos anos, quando históricamente (décadas de 80 e 90) já foi de 5 anos e reduziu-se na média para 2.5 anos na década passada. A tendência de queda da capacidade de regulação é de agravamento na medida em que a cada ano a demanda aumenta em média 4%, o que ocasiona uma constante depreciação desta capacidade, visto que as novas usinas não agregam “capacidade nova de armazenamento ”.

Esta tendência pode ser comprovada no gráfico abaixo (PDE-2020) abaixo, na qual a curva de crescimento da carga de energia apresenta uma taxa de crescimento muito superiror ao da energia armazanável, descolamento que se acentua no período de planejamento 2011-2020, exatamente pelo fato acima mencionado.

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Os dados do setor elétrico confirmam claramente esta tendência no plano de expansão, basta ver que dos 30 GW hidrelétricos previstos para entrada em operação em 2014, somente 3 GW (10%) possuem reservatórios, e na capacidade total do SIN em 2014, 55% dela serão de usinas “a fio d’agua”.

Portanto, pelo que se pode observar, tanto quanto à tendência de afastamento das curvas de carga e de energia armazenada acima apresentadas, bem como quanto ao potencial hidrelétrico disponível, cabe uma análise crítica da estratégia de planejamento do setor elétrico (PDE-2020) quando à adoção de usinas sem reservatórios como única opção. As mudanças climáticas já são consideradas como realidade por diversas correntes científicas e o planejamento do setor elétrico brasileiro deve levar em consideração estas novas influências. O Governo Brasileiro assumiu o compromisso voluntário de reduzir a emissão de gases de efeito estufa em 36,1% a 38,9% até 2020 perante à ONU – o setor elétrico deve ser coerente com este nível de compromisso de Governo.

É necessário que os agentes do setor elétrico atentem para o quadro da geopolítica mundial, no qual a questão energética é um dos temas centrais, visto sua relação com as estratégias de desenvolvimento de médio e longo prazo. Senão vejamos o caso dos EUA, cuja atual administração aposta na indepência energética a médio prazo, iniciando-se pela exploração das amplas reservas de xisto betuminoso disponíveis no país. Quando o programa de energia nuclear francês foi implementado pelo Presidente Charles de Gaulle, um repórter perguntou a ele o porquê e ele respondeu: “é simples. A França não tem petróleo, não tem carvão, não tem gás, não tem escolha”. Nós não tínhamos escolha. E hoje, somos exportadores de energia para Grã Bretanha, Alemanha, Espanha, Portugal, Bélgica, Itália. Em termos financeiros, isso rende cerca de US$ 4 a 5 bilhões por ano, sem contar que poupamos aproximadamente US$ 20 a 30 bilhões por ano, pois não precisamos importar petróleo.

O Brasil não pode abrir mão deste enorme potencial de geração de energia, relativamente limpa e barata, que são as usinas hidrelétricas – de que vale termos 34% dos recursos hídricos do continente americano se não somos capazes de planejar e executar a exploração racional destes vastos recursos, perdendo assim uma grande vantagem comparativa que a natureza nos dotou.

Considerando estes cenários, propomos uma revisão do planejamento do setor elétrico, considerando a hipótese de se voltar a construir usinas com reseratórios, considerando tanto os aspectos de segurança energética e os impactos ambientais dos grandes reservatórios vis a vis uma relação benefícioxcusto mais favorável à sociedade brasileira.

Levando-se em consideração a Potência Média de Projeto das usinas, o valor médio da relação PotênciaxÁrea é de 2.04 MWe/Km2. Podemos observar que esta média é composta por situações extremas como a de Balbina e as usinas a fio d’água, de modo que esta média é um retrato representativo do conjunto de situações existentes no país. Esta média poderia ser utilizada numa nova regulamentação ambiental específica para novas hidrelétricas, de modo que se tenha um limite superior para a relação entre a potência de projeto e a área dos reservatórios, como forma de ao mesmo tempo limitar os impactos ambientais e favorecer a implantação de novas usinas com reservatórios.

Constituí-se em grande equívoco o abandono da estratégia de estocar energia nos reservatórios das novas hidrelétricas – é por razões como esta que o Brasil apresenta uma assimetria de competitividade acentuada em relação às economias mais avançadas do planeta, pois nos damos ao luxo de “comer a castanha do caju e jogar o resto da fruta no lixo”.

 

 

 

 

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