Cidade Olímpica Inundada

O AqueCimento do Brasil ou A culpa não é da chuva II

 

Foto: G1

 

Na noite de sábado, dia 12 de março, a rua Monte Alegre, em Santa Teresa, virou, pela segunda vez somente nesta semana, uma verdadeira cachoeira.

Com um cenário de fim do mundo, com dezenas de trovões e raios, as chuvas fortes da noite se acumularam rapidamente nas ruas de Santa Teresa e com um fluxo de alta velocidade caíram na direção dos bairros mais baixos do centro e da zona Sul do Rio de Janeiro.

A cidade maravilhosa entrou em estado de crise com alagamentos e deslizamentos. Duas pessoas morreram no Leblon, na zona sul do Rio, e duas em outros bairros.

Um dia antes, São Paulo foi atingido ainda mais forte pelos temporais. Pelo menos 18 pessoas morreram na Grande São Paulo e duas no interior.

Todos os jornais e prefeitos colocam a culpa desta situação catastrófica na chuva, igualmente como nos anos anteriores.

Uma mentira que é simplesmente repetida como um mantra. Mas a culpa não é da chuva, a culpa é dos prefeitos, governadores e da incapacidade deles entenderem que vivemos numa região subtropical da Mata Atlântica com chuvas fortes no verão.

O verdadeiro vilão não é a chuva que aliás nos trás a água, o elemento mais importante para nossa vida e sobrevivência. Os vilões são o asfalto e o cimento com seus usos excessivos no Brasil.

Segundo a Associação Brasileira das Empresas Distribuidoras de Asfaltos – ABEDA, o Brasil consumiu, em 1970, quase 700.000 toneladas de asfalto.

Este número aumentou para 1,4 milhões de toneladas de asfalto em 2004. Nos últimos 10 anos este consumo mais do que duplicou durante o governo do PT, chegando a 3,3 milhões em 2014.

O consumo de cimento, a matéria básica da construção de prédios, quadras de futebol, praças e passarelas no Brasil, aumentou da mesma forma. Segundo o Sindicato Nacional da Indústria do Cimento – SNIC, em 1970, o país consumiu quase 10 milhões de toneladas.

Este consumo explodiu para 36 milhões de toneladas, em 2004, e quase duplicou para 71 milhões de toneladas em 2013.

O efeito desta cimentação e asfaltamento do solo de grande escala chama-se em alemão “Flächenversiegelung”, impermeabilização do solo.

Cada metro quadrado cimentado ou asfaltado é um metro quadrado de solo perdido. Cada nova casa, cada quintal, cada novo estacionamento, cada nova rua, estrada e rodovia cimentados e asfaltados é terra perdida, que significa uma redução da capacidade do solo de absorver as águas da chuva.

Cada dia, os solos brasileiros tem menos capacidade de incorporar e segurar águas das chuvas e transportá-las até os recursos hídricos subterrâneos.

Cada dia as águas das chuvas têm menos chance de infiltrar-se. Cada gota de água da chuva, que não pode mais infiltrar o chão por causa do cimento aumenta as enchentes nos dias de chuva.

E pior: As águas são transportadas cada vez mais rápidas para os riachos e rios. As enchentes aumentaram em sua amplitude e sua força.

Especialmente para as olimpíadas, o governo do Rio de Janeiro gastou bilhões de reais numa orgia de cimento e asfalto, sem respeito à sustentabilidade e equilíbrio dos sistemas pluviais. Catástrofes temporais anunciadas.

Além disso, cada gota de água da chuva, que não pode se infiltrar no solo por causa do cimento, é perdida e vai fazer falta na época da seca. Mas os efeitos negativos do consumo de cimento ainda não chegaram ao fim.

Cada espaço verde desmatado e cimentado, corresponde a um morro desmatado e cortado, como um bolo de aniversário, para tirar a matéria prima: calcário e argila.

Depois estes materiais vão ser transformados em cimento nas fábricas, com um alto gasto de energia térmica, assim como o asfalto. Este material do sonho do todo motorista é baseado em um produto do petróleo (betume) misturado com areia, pó de pedra e gravilha, todos vindo de uma mineração pesada.

Por isso, o excesso de cimento e asfalto contribui significamente para o aquecimento global e ao mesmo tempo para o aumento das temperaturas locais nas cidades. Um ciclo do diabo.

Sem Dúvida: No século 21, nós estamos assistindo como o Brasil está cimentando o seu próprio túmulo.

Artigo de Norbert Suchanek, Correspondente e Jornalista de Ciência e Ecologia, é colaborador internacional do EcoDebate.

 

in EcoDebate, 14/03/2016

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