Chorar Sobre o Petróleo Derramado!

Repetimos nossos alertas anteriores no sentido de que as autoridades que tem responsabilidades com a segurança das operações das plataformas brasileiras realizem um diagnóstico abrangente e profundo sobre a situação nacional neste setor, principalmente no que se refere ao sistema de licenciamento e fiscalização e aos marcos regulatórios, à luz das lições do acidente do Golfo do México, com ampla transparência, para que depois não tenhamos que chorar sobre o petróleo derramado.

Chorar Sobre o Petróleo Derramado!

Pelicanos cobertos de petróleo na Costa do Golfo do México simbolizam a trágica explosão da plataforma Deepwater Horizon no Golfo do México em 20 de abril de 2010, que não foi um acidente inexplicável, mas sim causado por negligência da BP.

No dia de hoje, 20 de setembro de 2010, foi anunciado que a BP conseguiu lacrar o poço, palco da maior tragédia ambiental dos Estados Unidos e provavelmente uma das maiores da história moderna da humanidade. As lições desta catástrofe estão ai para todos observarem e adotarem as medidas e posturas para que algo semelhante nunca mais venha a ocorrer – o acidente e um sério sintoma da fragilidade do sistema produtivo – como se poderá constatar abaixo, a busca por lucros superou a observância de regras básicas de segurança, conhecidas por todos os envolvidos.

Numa primeira análise o que deveria ser um acidente, o desastre na plataforma de petróleo Deepwater Horizon no Golfo do México foi negligência por parte da BP, conclusão do depoimento de uma testemunha visual e presente no cenário da catástrofe.
Durante uma entrevista exclusiva ao CBS “60 Minutes” de Mike Williams, o Técnico Chefe de Eletrônica da plataforma de petróleo que sobreviveu à explosão saltando da plataforma, foi revelado por ele que um acidente de perfuração antes do desastre é a causa mais provável da explosão.
De acordo com Williams, quatro semanas antes da explosão o anular do equipamento de prevenção de vazamento foi danificado. Quando as partes desta junta surgiram a partir do poço foi dito para a tripulação pelo representante da Transocean, proprietária do equipamento, para não se preocupar com isso. Além disso, Williams também revelou que um dos sistemas de reserva do controle do sistema de prevenção de vazamento perdeu algumas de suas funções.

Para finalizar a operação do poço, a sociedade de tecnologia petrolífera Halliburton foi contratada para colocar 3 blocos de concreto no eixo para conter pressão. Na manhã da explosão houve uma discussão entre os gerentes da Transocean e da BP sobre a forma de prosseguir com os próximos passos do trabalho. A Transocean queria que o terceiro bloco fosse colocado em posição ainda com a lama pesada de perfuração no eixo para conter a pressão, mas BP queria começar a retirar a lama antes de o último bloco ser colocado para agilizar o trabalho.


A BP ganhou o argumento, e as atividades continuaram conforme a posição da BP, e ensaios de pressão tiveram que ser conduzidos para assegurar que a pressão estava sendo contida pelos outros dois blocos de concreto. Com o anel danificado e, portanto sem saber sobre a ocorrência de perda de pressão, os testes realizados não foram precisos
O gás metano vazou pelo eixo e foi arrastado para os geradores de energia da plataforma, que depois explodiu causando a morte de 11 trabalhadores. Dois dias depois, a plataforma de petróleo afundou e começou o vazamento, resultando no maior derramamento de petróleo no mar da história.
Nos dias que se seguiram a culpa pelo acidente foi passando de uma para outra entre as empresas envolvidas. BP acusando a Transocean porque era a proprietária do equipamento e à Halliburton pelo fracasso na vedação. A Transocean, por outro lado, culpou BP por sua decisão de retirar o lodo antes que todos os blocos de concreto fossem colocados no local para agilizar o processo e reduzir custos
O Dr. Robert Bea, professor de Engenharia da Universidade Berkley da Califórnia e ex-engenheiro-chefe da Shell Oil, conhecido por ser o melhor em seu campo, foi convidado pela Casa Branca para conduzir uma investigação sobre o desastre e analisar os resultados.

Segundo o Dr. Bea, o testemunho de Williams foi crucial na determinação de todos os elementos envolvidos nos acontecimentos que antecederam à explosão. Os investigadores também descobriram que o equipamento de prevenção de vazamento tinha um vazamento hidráulico e uma bateria fraca.

Sabendo que esses problemas existiam, mas optando por retirar a lama pesada que contivesse a pressão sem resolvê-los, faz da BP a única responsável pelo desastre. O Dr. Bea afirmou, que “se a lama pesada tivesse permanecido no eixo, o desastre não teria acontecido”.
Devido ao potencial de desastres como este ocorrerem em outras plataformas, muitas perguntas permanecem a respeito de perfurações de petróleo offshore:

• Como podem incidentes como este serem evitados no futuro?
• Novas plataformas devem ser instaladas tendo em conta a incerteza nas medidas de segurança como provado por este desastre?
• Não há uma forma melhor e mais segura para produzir energia?

Ainda é muito cedo para respostas definitivas para estas questões, mas o Governo dos EUA, pressionado pela reação negativa da sociedade já começou a rever seus planos em relação à exploração de petróleo e águas profundas.
O impacto negativo sobre a pesca da costa do golfo e as indústrias do turismo, bem como sobre as empresas locais apoiadas nestes setores, foi enorme e a BP inundada por milhares de pedidos de indenização. No entanto, o impacto verdadeiramente desolador foi sobre a vida selvagem inocente, que não pode ser assistida por reembolsos monetários. Até 13 de agosto de 2010 perto de 5.000 animais foram mortos – aves, tartarugas e mamíferos foram recolhidos, e acredita-se que muito mais tenham morrido, mas não chegaram à costa.

O impacto ecológico de longo prazo ainda está por ser determinado. Junto com o petróleo em si, o COREXIT, dispersante utilizado pela BP durante os primeiros meses após a explosão, tem sido associado a problemas de saúde vividos pelos trabalhadores encarregados das operações de limpeza no acidente com o Exxon Valdez, e foi banido do uso em derramamentos de petróleo do Reino Unido.

Muitos especialistas acreditam que o efeito completo de todos os aspectos do derrame sobre a química do mar pode resultar em potenciais problemas imprevistos na fauna marinha pelos próximos anos.

A ABIDES, logo após o acidente realizou e divulgou um profundo estudo sobre as suas causas, que já apontava como pano de fundo das falhas operacionais a subavaliação de riscos regulatórios e deficiências no campo da cultura de segurança, hipóteses estas confirmadas inegavelmente pelo relevante depoimento de Mike Williams.

Repetimos nossos alertas anteriores no sentido de que as autoridades que têm responsabilidades com a segurança das operações das plataformas brasileiras realizem um diagnóstico abrangente e profundo sobre a situação nacional neste setor, principalmente no que se refere ao sistema de licenciamento e fiscalização e aos marcos regulatórios, à luz das lições do acidente do Golfo do México, com ampla transparência, para que depois não tenhamos que chorar sobre o petróleo derramado.

Engenheiro Nuclear Everton Carvalho

Presidente da ABIDES

Gerson Bastos

Gerson Bastos é um desenvolvedor de sites especializado na plataforma open source Wordpress. Trabalha com desenvolvimento de sites desde 2007 e atua principalmente em Brasília-DF. Email: gerson@gersonbastos.com.br

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