Carne Podre ou Carne Fraca, eis a questão!

Carne Podre ou Carne Fraca, eis a questão!

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Há muitos alertas emitidos por cientistas políticos, analistas e meios de comunicação em relação à falência do modelo de Presidencialismo de Coalizão que impera no Brasil, praticamente desde a Constituinte de 1988. Os presidentes da república eleitos pelo voto direto, uns mais, outros menos, para poder compor maiorias no Congresso Nacional usam o método da oferta de cargos como moeda de troca para essas “tenebrosas transações”. Dizem até que Collor de Melo caiu porque não construiu uma base sólida de sustentação no Congresso Nacional – será que ele não usou de forma eficiente o “toma lá da cá”? O final todos sabemos, ele foi  “impichado”. Dilma, nos estertores da sua queda também perdeu substância no Congresso Nacional, mesmo tendo usado e abusado do “toma lá da cá” – caiu por incompetência mesmo; em suma nem sempre a troca de benesses dá o resultado esperado – existe a traição.

Mas o que nos interessa no momento é aprofundar a análise deste mais novo escândalo, o da “carne podre” ou na ótica da polícia federal, “carne fraca“. Claramente temos uma combinação da carne podre, produtos adulterados por poderosos frigoríficos (21 investigados), com a carne fraca, os desvios de conduta dos agentes públicos pagos para evitar a prática deste crime, na nossa opinião, crime hediondo, por atingir diretamente a saúde pública. Mas o que nos interessa é a relação dos fatos com o Presidencialismo de Coalizão, na medida em que a operação da polícia federal prendeu 34 servidores públicos e o Ministério da Agricultura e Abastecimento exonerou três ocupantes de cargos de confiança. Somente o aprofundamento das investigações irá apontar as responsabilidades destes agentes públicos, seu grau de envolvimento, as propinas que eventualmente receberam e principalmente se foram ou não indicados por políticos para os cargos que ocupavam, ou se atuaram a favor de partidos os esquemas políticos de corrupção. Há indícios e as gravações de telefonemas entre o atual Ministro da Justiça e um dos lideres da fraude, são indícios sérios de que algo muito além da carne adulterada está podre no País.

São 100.313 cargos comissionados no Governo Federal de acordo com a organização Contas Abertas – “a maior parte dos mais de 100 mil cargos, funções de confiança e gratificações está dividida entre “Funções Gratificadas” e cargos de “Direção e Assessoramento Superior”.

Toda a vez que ocorre a troca de governo, a mesma ladainha de demissão dos ocupantes dos cargos comissionados e troca por indicados por políticos aliados do novo Presidente é um ritual no qual profissionais, muitas vezes sem a devida qualificação, são colocados em cargos de confiança da administração federal, quase sempre para favorecer os políticos, partidos ou grupos (máfias) que os indicaram. Claro, na hora do aperto todos negam, como foi o caso atual por parte do Secretário Executivo do Ministério da Agricultura – vem o Ministro e afirma que o sistema de fiscalização é confiável, pois somente uma parte muito pequena de desvios foram detectados entre milhares de empresas do segmento afetado pelo escândalo. Certamente o ministro está buscando minimizar os prejuízos para a imagem de para a economia do Brasil, exposto às consequências deste grave crime de lesa pátria, mas isto não diminui a gravidade do crime praticado e a necessidade de punições severas e devidas responsabilização das autoridades que comandam este setor.

Na realidade o caso demonstra que o aparelhamento do Estado Brasileiro por partidos políticos, políticos corruptos, associações criminosas de empresas com agentes públicos e máfias em geral é uma triste realidade em nosso país, apesar dos meritórios esforços da Política Federal, do Ministério Público e de segmentos da Justiça – é um câncer a corroer moral, econômica e eticamente o nosso Brasil. Este caso também somente reforça a necessidade de se chegar às últimas consequências com as punições da Lava-jato e promover o reforço das medidas contra a corrupção, hora objeto de ataques de políticos desqualificados.

Vale também destacar a importância de sanear as Agências Reguladoras (ANEEL, ANATEL, ANAC, ANP e muitas outras), cujos cargos de direção continuam a ser objeto de negociatas, prejudicando usuários de serviços públicos e favorecendo grupos de interesse que borboleteiam em torno dessas agências, através de poderosos lobbies.  Eu fui testemunha do desmantelamento do setor nuclear brasileiro, principalmente nos governos de Lula e Dilma pela nomeação de pessoas totalmente despreparadas para ocupar cargos de direção num setor de tecnologia sensível, que exige pessoas altamente qualificadas. Deu no que deu, Angra 3 paralisada, o Presidente da Eletronuclear e mais 3 diretores presos pela Lava-Jato!

Que este caso sirva de exemplo para a sociedade brasileira, pois somente a nossa união contra esta onda de corrupção e pelo fim deste modelo de Presidencialismo de Coalizão e de seus efeitos predadores poderá talvez resgatar o nosso país – somente povo nas ruas será capaz de constranger os detentores do poder que insistem em manter seus privilégios e a carne podre.

Eng. Everton Carvalho

Presidente da ABIDES

 

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