As incongruências da experimentação científica em animais

 

Sede do Instituto Royal, em São Roque

 

São Roque (SP) – Sede do Instituto Royal, em São Roque, interior de São Paulo, de onde ativistas retiraram 178 cachorros da raça beagle que supostamente sofriam maus-tratos ao serem usados em pesquisas.

 

A assessoria de imprensa do instituto nega a denúncia de maus-tratos. Foto de Marcelo Camargo / Agência Brasil.

 

Na maioria das vezes, o debate quanto à utilização ou não de animais em testes inicia antes mesmo de se discutir o assunto.

 

De um lado, pessoas preocupadas em debater os rumos e limites do desenvolvimento através das ações humanas e, de outro, um grupo de estudiosos, detentores de técnicas e diplomas, que pretende estabelecer entre si quais são esses rumos e limites.

 

Com a invasão por parte de ativistas do Laboratório Royal, a discussão se acendeu em nosso país e, ao defender suas posições, pesquisadores tentam desqualificar a opinião de pessoas leigas quanto ao tema como se nada tivessem a acrescentar ao debate.

 

Entretanto, pode ser que o grande público não conheça os detalhes da utilização de animais em pesquisas e muito menos seus obscuros resultados, mas não é preciso ser um especialista para opinar se é contra ou a favor do uso desses animais como meras ferramentas de trabalho, destituídas de interesses e desprovidas de sentimentos como a dor e o sofrimento.

 

Desta forma deixo claro que o fato de não ser um experimentador não desqualifica qualquer pessoa a dar sua opinião quanto ao uso de animais em pesquisas.

 

Não é difícil questionar a eficácia dos experimentos científicos, já que as grandes catástrofes farmacológicas foram previamente testadas em animais.

 

Técnicas medicinais com graves erros e irreversíveis, além de uma série de substâncias altamente tóxicas e prejudiciais à saúde humana, mas que somente daqui a alguns anos serão detectadas,  perceba a quantidade de medicamentos que são retirados das prateleiras de tempos em tempos por problemas, muitas vezes fatais, não previstos,  apontam esses testes como uma provável falácia científica para nosso moderno mundo do século XXI.

 

Para exemplificar, podemos citar o Dr Albert Sabin, que declarou que as primeiras doses aplicadas a seres humanos da vacina contra a pólio matou as pessoas que as receberam, mas nada acontecera nos testes anteriores com animais.

 

Além disso tudo nos leva a crer que diversas drogas que poderiam estar salvando seres humanos não tiveram seus estudos concluídos por conta de resultados negativos em pesquisas com animais.

 

Outro ponto muito questionável é que, mesmo entre humanos, as reações a determinadas substâncias são diversas por conta de inúmeros fatores biológicos característicos de cada indivíduo.

 

Como o médico americano Dr. Ray Greek cita em seus artigos, a própria indústria farmacêutica já assumiu a eficácia média em 50% das pessoas de suas drogas, podendo ser maior ou menor em determinados casos, sendo uma exigência da Ciência médica a eficácia em 90% dos casos.

 

Entretanto mais importante do que isso é entendermos o fundamento da objeção pela experimentação animal, independentemente de seus resultados. Pois uma pergunta deve ser obrigatoriamente respondida para assumirmos uma ou outra posição: se para pesquisadores animais são semelhantes aos humanos em suas reações e sensações, não deveriam ter semelhantes considerações relativas aos seus interesses de não serem submetidos à dor, ao trauma físico e psicológico, à humilhação, ao temor, à morte com hora marcada, assim como se considera os interesses de seus “semelhantes” humanos?

 

É difícil imaginar uma resposta a tal questão que defenda a pesquisa em animais sem que sejam usados argumentos que passam pela incoerência e a tendenciosidade.

 

Apesar disso a velha e antiquada filosofia médico-científica perpetua, através da pseudoautoridade do conhecimento, a ideia de que animais são “pequenos humanos” devido a essas semelhanças.

 

Não são poucos os ativistas e pesquisadores contrários aos testes em animais que dizem: os testes em animais servem para evitar processos milionários que pesquisadores e empresas responderiam pelas reações adversas e muitas vezes irreversíveis e mortais aos seres humanos, quando do uso de seus produtos e técnicas pelos consumidores.

 

É um “certificado de garantia”, tendo respaldo de seus protocolos e “códigos de ética” por eles mesmos criados, de terem sido previamente testados. Ou seja, “lavamos nossas mãos, pois fizemos nossa parte”.

 

Diante desse cenário, da incoerência e da resistência a novos conceitos, podemos observar a triste, mas real situação de adultos que quando crianças pediam a seus pais permissão para levar para suas casas um “vira lata” ou um gato abandonado por compaixão, porém hoje, através de uma cultura de continuismo e retrocesso alimentada por “mestres” e “doutores”, submetem ratos, gatos, porcos, sapos, cachorros, coelhos e outros animais a verdadeiras sessões de tortura,  desde privações das necessidades básicas até mesmo órgãos abertos, fraturas, entre outras intervenções contra seres que nada têm a ver com suas práticas.

 

Quantos não são aqueles que, com extrema aptidão a profissões relacionadas à medicina, veterinária, entre outras, abandonam seus sonhos ao verem que para isso terão de abrir mão de sua sensibilidade e respeito para com os animais?

 

Diversos são os estudos que demonstram como os próprios estudantes, quando expostos pela primeira vez a tais circunstâncias, sentem-se incomodados e contrariados, mas que por vergonha e medo de serem excluídos do grupo submetem-se ao processo “invisível” da dessensibilização ou abandonam seus cursos, sob desdém de muitos de seus colegas e professores.

 

Talvez uma frase de Thomas Edison, famoso cientista americano, resuma por que cada vez mais pessoas desaprovarem a experimentação animal:

 

a não violência nos leva à mais alta ética, a qual é o objetivo de toda a evolução. Até pararmos de ferir outros seres vivos, seremos ainda selvagens”.

 

* Ricardo Laurino é autor do livro O Último Teste. Lançado em setembro deste ano, é a primeira obra literária a abordar a experimentação científica em animais por meio de ficção policial.

 

 

Colaboração de Melina Pockrandt, para o EcoDebate, 28/10/2013

 

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