AS DIMENSÕES DO AQUECIMENTO GLOBAL.

AS DIMENSÕES DO AQUECIMENTO GLOBAL.

Polêmicas e mais polêmicas quando o tema é o aquecimento global. Na Rio+20 a Abides organizou um painel sobre o tema ouvindo a opinião de diversos especialistas internacionais, inclusive alguns norte-americanos que, hoje, participam do Governo Donald Trump com posições de descrédito em relação ao aquecimento do planeta e defendem que se há ou haverá aumento da temperatura, não terão causas antrópicas (causadas por atividades humanas).

Do outro lado do espectro está o quadro de cientistas ligados ao IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas da ONU).  A Organização Mundial de Meteorologia, das Nações Unidas, alertou para o fato de a temperatura na década atual poder atingir um novo recorde frisando que o aquecimento global será elevado e que os dados preliminares sobre a temperatura entre 2015 e 2019 e entre 2010 e 2019 “são respetivamente, e com quase toda a certeza, o período de cinco anos e a década mais quentes verificadas”.

Um relatório da ONU divulgado no dia 26 de novembro deste ano afirma que os compromissos assumidos no Acordo do Clima de Paris já não são suficientes para manter o aquecimento global dentro da meta acordada por quase 200 países. O mundo prometeu em Paris um esforço para a Terra não esquentar mais do que 1,5 grau até o final do século, um aquecimento que, segundo o painel de cientistas da ONU, já seria perigoso demais. Quatro anos depois daquela conferência do clima, a mesma ONU agora alerta para “perspectivas sombrias”. Mesmo que todos os países agora cumprissem suas metas, o planeta esquentaria mais de 3 graus Celsius.

Os líderes mundiais não fizeram o suficiente para reduzir o lançamento de gases que aquecem o planeta. Agora precisariam de um corte de emissões cinco vezes maior para segurar a temperatura na meta alertam os cientistas.

Atualmente junto com a COP 25 em Madri, reacende o debate intenso sobre o aquecimento global  provocando no dia 6 de novembro na capital espanhola grandes mobilizações organizada pelo movimento Fridays For Future (Sextas Pelo Futuro), impulsionado pela jovem sueca, Greta Thunberg. A marcha de Madri reuniu mais de 500 mil participantes, segundo os organizadores e foi uma das maiores manifestações pelo clima que aconteceram no país. Em 27 de setembro, a maior até então, foram 20 mil manifestantes que pediam por ações para reverter as mudanças climáticas.

No Brasil, o acordo de Paris foi promulgado no dia 12 de setembro e o documento iNDC foi enviado para a UNFCCC finalizar a ratificação. A partir desse dia, assumimos o compromisso de reduzir as emissões conforme as metas mencionadas na NDC (Intended Nationally Determined Contributions).

As metas principais são:

  •  Redução de 37% nas emissões até 2025, tendo como ponto de partida as emissões de 2005;
  • Possível redução de 43% das emissões até 2030.

Como o Brasil pretende cumprir essas metas:

  • Aumentar a participação da bioenergia sustentável na matriz energética brasileira para 18%;
  • Fortalecer o cumprimento do Código Florestal;
  • Restaurar 12 milhões de hectares de florestas;
  • Alcançar desmatamento ilegal zero na Amazônia brasileira;
  • Chegar a participação de 45% de energias renováveis na matriz energética;
  • Obter 10% de ganhos de eficiência no setor elétrico;
  • Promover o uso de tecnologias limpas no setor industrial;
  • Estimular medidas de eficiência e infraestrutura no transporte público e áreas urbanas.

Não iremos aprofundar a análise individual de cada uma dessas intenções, somente fornecemos um quadro geral sobre as mesmas.

Segundo os dados do SEEG Brasil – Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa  , o Brasil emitiu em 2017 cerca de 2 bilhões de toneladas de gases equivalentes ao dióxido de carbono (tCO2e). Isso representa pouco mais de 2% de todas as emissões de gases de efeito estufa do mundo, colocando o Brasil como o sétimo maior emissor do planeta. O setor que mais emite é o de mudança do uso da terra, ou seja, o desmatamento das nossas florestas. Quase a metade (46%) das emissões brasileiras foi de desmatamento, seguido por 24% de emissões das atividades agropecuárias e 21% do setor de energia e transporte.

Para ficarmos somente no fator desmatamento, a área desmatada na Amazônia foi de 9.762 km² entre agosto de 2018 e julho de 2019, de acordo com números oficiais do governo federal divulgados no dia 18 de novembro pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Trata-se de um aumento de 29,5% em relação ao período anterior (agosto de 2017 a julho de 2018), que registrou 7.536 km² de área desmatada indicador claro de que estamos perdendo a batalha da redução das emissões acordadas em Paris, pelo menos dos 46% do fator mais importante em termos de redução das emissões.

Para complicar ainda mais o jogo dos dados, no lado da produção de energia, com a crise dos reservatórios das hidrelétricas iniciada em setembro de 2012 as usinas térmicas a óleo diesel, óleo combustível, gás natural e carvão, altamente emissoras de CO2 passaram a operar próximo de suas capacidades máximas.

Conforme levantamento da ABIDES, levando em conta que o total de emissões em 2005 foi de 2,03 bilhões de toneladas de CO2 equivalente, as metas acordadas representariam emitir 1,28 bilhões de toneladas em 2025 (redução de 751 milhões)  e 1,15 bilhões  de toneladas em 2030 (redução de 880 milhões).

Considerando estas novas metas, as emissões adicionais das térmicas correspondem a 69.8 % da redução para 2025 e 59.54% da redução de 2030.

Em outras palavras, o Brasil teria que compensar mais da metade do compromisso total na forma de reduções de emissões por outras fontes emissoras ou absorção de CO2 para compensar as emissões adicionais das térmicas entre 60 % a 70 %. Caso a geração das usinas do Tapajós (canceladas pelo IBAMA) venha a ser substituída por térmicas à gás natural, esta banda passará para 63% – 73%.

Portanto, independente das polêmicas nacionais sobre a questão do desmatamento na Amazônia e as queimadas, somente estas informações demonstram a grave situação do Brasil em termos da COP 25, e essa grave situação justifica todos os cuidados e receios do governo brasileiro com este problema. Por não entender a realidades da dinâmica das emissões do Brasil e por considerar este assunto como secundário, em breve este quadro poderá vir a afetar nossas relações internacionais, ferir nossa credibilidade e afastar investidores importantes para a retomada do crescimento econômico e social do Brasil.

Eng. Nuclear Everton Carvalho

Presidente da ABIDES

 

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