Apesar de Fukushima, Japão volta atrás na virada energética.

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Trauma e resistência popular são grandes, mas governo reafirma o átomo como fonte de energia no futuro. Energias renováveis têm papel secundário no mix nacional, e uma guinada verde como a alemã não está à vista.

 

Três anos e um mês após a catástrofe na usina de Fukushima, em 11 de março 2011, o governo conservador do Japão, liderado pelo primeiro-ministro Shinzo Abe, do Partido Liberal Democrata (PDL), parece ter tirado uma lição da tragédia bem diferente da aprendida, por exemplo, pelos alemães – que desde então vão gradativamente se distanciando da energia nuclear.

 

Em seu plano básico de energia, aprovado na sexta-feira passada (11/04), o gabinete define a energia termonuclear como “importante fonte de eletricidade” para o abastecimento básico. “O novo plano de política energética serve para possibilitar uma estrutura de energia realista e equilibrada”, enfatizou o ministro da Indústria, Toshimitsu Motegi, em Tóquio. Com isso, está anulada a decisão do governo anterior, do então primeiro-ministro Yoshihiko Noda, de abandonar a energia atômica até 2030.

 

Para que sejam mantidas, contudo, as usinas nucleares japonesas estarão submetidas a normas de segurança bem mais rigorosas. Apenas os reatores classificados como seguros pela reestruturada Comissão de Regulamentação Nuclear deverão ter permissão para voltar à atividade – os dois primeiros antes do meio do ano.

 

Segundo pesquisas de opinião, a maioria da população é contra a manutenção das usinas. Mas tal posicionamento não teve qualquer influência sobre os resultados de nenhuma das eleições desde Fukushima. Por outro lado, com seu plano energético, Tóquio atende ao desejo do empresariado japonês, segundo o qual deve ser mantida a energia nuclear como fonte confiável de eletricidade.

Retomada controvertida

O plano de Abe permite também a construção de novos reatores, conforme o volume de energia atômica necessário, a ser estipulado pelo governo. No entanto, especialistas duvidam que se consiga impor a construção de novas instalações nucleares.

Fukushima 2011: catástrofe nuclear do século

Devido à resistência por parte da população, estas deveriam ser erguidas em locais onde já existem usinas em funcionamento. Mas, como o mercado de eletricidade vai ser liberalizado até o fim da década, é possível que a construção de reatores adicionais não compense financeiramente.

Também o futuro das centrais desativadas parece sombrio. De meados de 2013 para cá, oito operadoras de eletricidade requereram à Comissão de Regulamentação a reativação de apenas 17 de suas 48 usinas. Outras 14 são extremamente controversas, do ponto de vista político.

O complexo nuclear Fukushima 2, da operadora Tepco, é categoricamente rejeitado pela população. O de Hamaoka, com três reatores, localiza-se numa zona de abalos sísmicos altamente populosa. E as demais 17 usinas possivelmente nunca mais voltarão a entrar em funcionamento: são muito antigas e as dispendiosas medidas de modernização de segurança exigidas não compensam o custo.

Diante de perspectivas tão incertas em seu plano de política energética, o governo japonês deixou de lado, por enquanto, a estipulação percentual das diferentes fontes de eletricidade, adiando-a para daqui a dois ou três anos. Porém, analistas do setor duvidam que, até lá, a energia termonuclear alcance mais de 10% do consumo no Japão – por isso não faz muito sentido se falar de uma fonte “importante” de eletricidade.

 

Assim, o país continuará tendo que importar, a preços elevados, combustíveis fósseis, cuja participação no mix energético pode chegar a 80%. Ainda assim, em seu novo plano, Tóquio insiste no reprocessamento de plutônio e urânio para uso como combustível. O reator de nêutrons rápidos experimental de Monju será tirado da rede, mas a intenção é transformar suas instalações em reator de pesquisa para a redução de resíduos atômicos.

Após numerosos adiamentos, a usina de reprocessamento de Rokkasho deverá entrar em funcionamento no terceiro trimestre deste ano. Originalmente, ela era a peça central de um circuito fechado para plutônio e urânio, com qual se visava, até o ano de 2100, tornar o Japão autônomo em termos de eletricidade. No entanto, sem reatores de nêutrons rápidos, não faz sentido reprocessar os bastões combustíveis.

“Essa política não é nada sensata, pois não vai adiante, depois do reprocessamento”, critica Taro Kono, porta-voz de um grupo antinuclear dentro do PLD. Da mesma forma, países vizinhos, como a China, poderão em breve se perguntar para que, mesmo, o Japão está produzindo plutônio.

 

Energia “verde” em baixa.

Em relação às fontes renováveis, o primeiro-ministro mostra poucas ambições. Nos bastidores, os liberal-democratas discutiram longamente com o parceiro de coalizão, o budista Novo Komeitō (NKP), sobre a estipulação de uma cota percentual de eletricidade “verde”. Em sua campanha eleitoral, o NKP havia prometido, até 2030, uma parcela de fontes renováveis superior a 30% ou 35% se incluída a energia hidrelétrica.

 

Do atual plano energético, entretanto, consta apenas que a participação da eletricidade “verde” deverá suplantar as metas divulgadas anteriormente. O plano anterior previa 20% até 2030, o que seria uma mera duplicação, num prazo de uma décadas e meia, do percentual atual. No momento, 1,6% da eletricidade japonesa provém do vento, sol, fontes geotérmicas e biomassa, e 8,4% é de origem hidrelétrica.

Esses números modestos mostram que uma veloz reviravolta energética da termonuclear para as fontes renováveis, segundo o modelo adotado pela Alemanha após o desastre de Fukushima, seria praticamente impossível de ser executada no Japão.

 

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