Ambientalismo nuclear

PUBLICADO . EM ENERGIA – PORTAL DO MEIO AMBIENTE

Por Eng. Everton Carvalho*

Iniciamos o ano de 2014 com um cenário energético no qual os grandes reservatórios das usinas hidrelétricas vêm perdendo seu papel histórico estratégico em termos de segurança energética, e com a seca prolongada no final de 2013 e início de 2014, a segurança energética do país é crítica, de acordo com a opinião dos analistas de mercado. Segundo dados do Operador Nacional do Sistema (ONS), verificou-se uma geração complementar térmica convencional de 7.000 GWh em janeiro de 2013 e de 5.000 GWh em dezembro de 2013 nas regiões SE/CO e NE, contra 1.250 GWh em janeiro de 2012, ou seja, um aumento de 460% e 300% respectivamente, números que não deixam dúvidas sobre esta mudança de paradigma.

Contribuiu para esta mudança de paradigma as restrições para a construção de novas hidrelétricas com reservatórios com capacidade de armazenamento para compensar a sazonalidade das chuvas – atualmente os grandes empreendimentos hidrelétricos (usinas do Rio Madeira e usina de Belo Monte) são unidades geradoras “a fio d’água”. Os dados do setor elétrico confirmam claramente esta tendência no plano de expansão, basta ver que dos 30 GW hidrelétricos previstos para entrada em operação após 2014, somente 3 GW (10%) possuem reservatórios, e na capacidade total do SIN em 2014, 55% dela serão de usinas “a fio d’agua”.

Apesar das declarações otimistas das autoridades do setor elétrico, não há dúvida de que os parâmetros de segurança energética indicam maior risco de desabastecimento a longo prazo além do aumento do custo da energia, caso não seja revisto o quadro atual.

As alternativas para reduzir este risco não são muitas, pois as possibilidades de aumento da participação da geração térmica na matriz elétrica são limitadas. A geração térmica a partir do gás natural já atingiu seu limite econômico, na medida em que este insumo tem usos múltiplos na indústria, no uso domiciliar, veicular e comercial, além de limites em termos de reservas nacionais e importadas de gás natural e limitações na malha de transporte (novos gasodutos). A hipótese do uso do carvão também é limitada, visto as expectativas negativas dos empreendimentos da empresa CCX, em face da crise financeira do grupo de Eike Batista, crise esta proporcionada pela equivocada visão do atual Governo de favorecer grupos seletos com dinheiro subsidiado pelo BNDES.

A segunda opção de geração térmica é a opção nucleoelétrica, que no momento encontra resistências, face aos efeitos psicosociais negativos originados pelo acidente de Fukushima, que vem sendo explorado negativamente em relação ao aumento da geração nucleoelétrica no País. Mesmo assim, ainda está colocado no cenário pós 2020, projeto de construção de 4 novas usinas nucleolétricas no Planejamento do MME.

Deve ser levado em conta que o Governo Brasileiro assumiu o compromisso voluntário de reduzir a emissão de gases de efeito estufa em 36,1% a 38,9% até 2020 perante à ONU – o setor elétrico deve ser coerente com este nível de compromisso de Governo, na medida em que o aumento da geração térmica convencional tende a inviabilizar estas metas.

Se for mesmo levado a sério a questão ambiental no que tange ao aquecimento global, as escolhas devem levar em consideração uma combinação de fontes que minimizem as emissões e garantam os grandes blocos de energia que serão requeridos para sustentar uma taxa de crescimento do PIB nacional na faixa dos 4% no mínimo, que é o índice desejável para o nosso crescimento sustentável.

Restam então as seguintes hipóteses:

  1. Usinas à Fio D´Água + Térmicas à Gás Natural e Carvão: Manutenção da política atual com as restrições de expansão térmica acima apontadas.
  2. Contrução de novos projetos hidrelétricos com grandes reservatórios na Região Amazônica: o Governo deverá rever as limitações impostas aos grandes reservatórios na Região Amazônica, adotando por exemplo o limite máximo de 2.04 MWe/Km2 (média dos principaís reservatórios existentes) na relação geração/área inundada, como forma de limitar o tamanho dos reservatórios.
  3. Usinas à Fio D´Água + aumento da participação nucleoelétrica com aproveitamento das reservas nacionais de urânio.

Do ponto de vista ambiental, a opção 1 é mais desvantajosa, pois implicará num substancial aumento das emissões de CO2 colocando em risco os compromissos ambientais do Brasil quanto à redução das emissões.

A opção 2 seria uma alternativa viável, mas que exigirá um debate nacional quanto ao aumento das áreas alagadas pelos empreendimentos no sensível bioma amazônico, ponto crítico para o movimento ambientalistae social.

A opção 3 seria ambientalmente a mais correta, pois implicaria numa redução dos níveis de emissão de CO2 e um aumento significativo na segurança energética, aliviando as incertezas causadas pelo regime hidrológico. Estudo por nós realizados indicam, por exemplo, que a construção de 4 usinas nucleolétricas na Bacia do Rio São Francisco seriam capazes de flexibilizar 300 m3/s de vazão de água nesta bacia, com aumento de 2.500 MWe na oferta de energia para Região Nordeste, além de viabilizar a vazão original da transposição do Rio São Francisco de 127 m3/s.

Esta disponibilização expressiva de vazão tornaria real a revitalização do “Velho Chico”, que é um sonho dos habitantes da Bacia do São Francisco, que “somente existe no papel”!

Portanto o Governo Brasileiro e a sociedade devem refletir seriamente sobre a opção nucleoelétirca como uma solução ambientalmente adequada para a nossa realidade nas próximas décadas, com todas as condições de equilibrar a nossa matriz elétrica em termos de segurança energética e minimizar o potencial de emissões de CO2, mantendo os nossos compromissos ambientais no âmbito internacional.

* Eng. Everton Carvalho – Presidente da ABIDES e Ex-Presidente do Sindicado dos Engenheiros do Estado do Rio de Janeiro, Diretor da Câmara de Comércio Brasil/Bolívia da ACRJ e Secretário Executivo Adjunto da FEDERASUR – www.abides.org.br

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