ACORDO NUCLEAR COM IRÃ: NOVO COMEÇO?

 

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Foi anunciado neste final de se semana acordo inédito entre o Bloco P5+1 (EUA, China, Rússia, Inglaterra, França + Alemanha) e o Irã com o objetivo de superar o conflito envolvendo alegadas suspeitas de que o Programa Nuclear do Irã visa à obtenção de um artefato nuclear. Pelo acordo o Irã abre suas instalações nucleares e instalações militares (suspeitas de desenvolver atividades visando à bomba nuclear) em troca de alívio nas sanções econômicas das quais o país é objeto em retaliação do ocidente para frear o desenvolvimento nuclear do Irã, alívio este equivalente a US$ 7 bilhões.

Em decorrência da fragilidade política atual de países árabes importantes como o Iraque, Síria e Egito, o Irã emerge como um potencial parceiro na região para os fins diplomáticos dos EUA, que liderou o esforço pelo acordo nuclear com o Irã, visto com desconfiança por Israel e por lideranças políticas tanto nos EUA como no Irã.

É necessário aprofundar a análise das condições reais que cercam este acordo para não cair nas armadilhas criadas pela desinformação e pelas especulações infundadas. Nos últimos dois anos vêm ocorrendo uma verdadeira maratona de negociações entre o Irã e os países membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU mais a Alemanha tendo por base as informações e dados colhidos pela Agência Internacional de Energia Atômica – AIEA no Irã, algumas das quais indicavam suspeitas de atividades ligadas ao processo de obtenção de um artefato nuclear, mais precisamente esforços na área de enriquecimento de urânio nas instalações de Natanz e Fordow. Em síntese, o Irã teve sucesso em termos de enriquecimento de urânio a 3.5% (teor para a produção de combustível nuclear para reatores comerciais de produção de energia elétrica) e a 20% para abastecer o reator de pesquisa de Tehran – o que vem sendo questionado pelo ocidente é a expansão da capacidade de enriquecimento do Irã (aumento do número de centrífugas) e alegadas atividades suspeitas na área militar.

O acordo obtido resolve em princípio todos os pontos críticos apontados pelo ocidente incluindo o congelamento e redução da capacidade de enriquecimento, a suspensão do enriquecimento a 20% e a abertura de instalações nucleares e militares às inspeções da AIEA.

Pelos estudos que realizamos, havia muita especulação sobre o prazo teórico de obtenção de artefato nuclear pelo Irã – os críticos mais extremistas, como Israel e a direita dos EUA, falavam em um a dois anos. Porém a análise dos dados concretos por nós avaliados apontam para um prazo otimista para que o Irã se capacitasse para um ataque nuclear através de um míssil em novembro de 2024 e pessimista em junho de 2033 – estes prazos são fortemente influenciados pelos obstáculos tecnológicos para construir um artefato transportável por um vetor (míssil) a partir de uma bomba nuclear básica (experimental), pois com o bloqueio econômico e tecnológico do ocidente, dificilmente o Irã teria condições para dar este salto em um curto espaço de tempo, como especulava particularmente Israel.

Curiosamente, as críticas mais contundentes ao acordo partem deste país, governado por uma coalizão política de extrema direita, que mais parece interessada em aprofundar conflitos, gerar inimigos e finalmente realizar um ataque contra o Irã, tendo por pressuposto a alegada busca pela bomba nuclear. Tudo indica que Israel viu frustrado seu principal argumento para a “guerra santa” – esperamos que o povo de Israel que é em sua maioria um povo pacífico, seja capaz de conter os ímpetos guerreiros dos radicais que hoje governam o país, e que em nome da paz nuclear Israel venha a se somar nos esforços pela paz no mundo árabe. Seria de bom alvitre que Israel renunciasse às suas armas nucleares, estas sim clandestinas, pois fora do acordo de não proliferação nuclear.

É, sobretudo preocupante a presença dos arsenais nucleares na Índia, Paquistão e Israel, países que não fazem parte do TNP, mas desenvolveram armas nucleares “clandestinamente”, portanto sem nenhuma credibilidade para criticar o acordo firmado com o Irã. O Paquistão, pela instabilidade política e situação estratégica delicada pelos conflitos existentes dentro e fora de suas fronteiras, representa o maior risco atual de utilização de armas nucleares.

Israel é outro grande problema, pois o país ameaçado constantemente pelos inimigos históricos e governado por uma coalizão de direita, pode vir a ser tentado a usar seu arsenal. Não há nenhum sinal das potencias nuclearmente armadas dentro do TNP no sentido de tomar medidas para inserir o Paquistão, a Índia e Israel no regime de salvaguardas da AIEA. O fato é que estes países passaram a se constituir num “poder nuclear paralelo ilegal”, que influenciam as decisões da AIEA com um peso muito maior do que o de países pacíficos como o Brasil – uma marcante contradição que os EUA e seus aliados fingem ignorar. Esperamos que este acordo inédito com o Irã abra uma janela de oportunidade para o genuíno desarmamento nuclear do mundo, incluindo as cinco potências nucleares reconhecidas pelo TNP.

Para efeitos de registro, o Brasil aderiu ao Tratado de Tlatelolco (Tratado para a Proibição de Armas Nucleares na América Latina e o Caribe) em 1994 e ao TNP em 1998, após um caloroso debate no Congresso Nacional entre a Diplomacia e setores nacionalistas, que denunciavam a assimetria do TNP que “mantinha armados os já armados e desarmados os já desarmados”.

Na maioria dos casos o TNP foi o alvo das críticas pelo caráter assimétrico acima apontado e também pelo fato de que os países armados (por coincidência os cinco países que compõe o Conselho de Segurança da ONU ) não terem desenvolvido ações efetivas para o desarmamento nuclear, prevista no Artigo 6º do TNP. Somente recentemente na Presidência de Obama, EUA e Rússia acordaram bilateralmente um novo tratado de redução parcial de seus arsenais. Mas os demais, China, França e Inglaterra não adotaram nenhuma medida para a redução/eliminação de seus arsenais, e são muito pouco criticados por isto. O fato é que os especialistas no assunto afirmam que a busca do desarmamento nuclear total é uma utopia, pois as potências nucleares não estão dispostas a tomar medidas concretas nesta direção.

O Brasil ganha muito em termos de imagem e autoridade no cenário internacional ao manter sua postura pacífica, renunciando definitivamente ao uso das armas nucleares e assim se colocando se qualifica para obter o almejado assento permanente no Conselho de Segurança da ONU e deve aplaudir e se associar aos esforços da AIEA na busca de consolidar o histórico acordo com o Irã.

Engenheiro Everton Carvalho

Presidente da ABIDES

Ex-Presidente da ABEN

 

 

 


 

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