A PM e as Páginas Policiais.

Juan

A PM e as Páginas Policiais.

Nos últimos dias, é freqüente a aparição de autoridades de segurança pública em páginas policiais. Essa afirmação pode soar como natural, pois nada mais comum e desejável do que a participação de policiais lutando contra bandido e solucionando crimes. O problema é que os policiais que recebem destaque nos meios de imprensa brasileiros não são heróis: são culpados de assassinatos, extorsões, falsidade ideológica, tráfico e exploração de seres humanos.

No dia 11 de agosto, a juíza Patrícia Acioli foi assassinada dentro de seu carro, quando chegava em sua residência após um dia de trabalho. O motivo seria impedir que a juíza, conhecida por ter fama de “linha dura”, assinasse uma ordem de prisão para oito pessoas envolvidas na morte de um jovem de 18 anos. Até agora, a história lembra um roteiro de filme policial ou resultado da ação de facções criminosas ou cartéis mexicanos, mas é. Os autores dos dois assassinatos, o do jovem Diego da Conceição Beliene e da juíza eram policiais militares e as armas e as 21 balas que atingiram Patrícia foram compradas com dinheiro do contribuinte, pois pertenciam à Polícia Militar.

Há dois meses, outro caso de destaque foi estampado nas páginas policiais. O assassinato de uma criança e 11 anos, na favela Danton, em Nova Iguaçu, no Rio de Janeiro. O corpo do menino ficou desaparecido por 10 dias e foi encontrado às margens de um rio. No início, o corpo encontrado foi identificado como sendo de uma menina, em um erro grosseiro de uma perita do Instituto Médico Legal (IML). Em um exame de DNA ficou comprovado que se tratava mesmo de Juan Moraes. Mais uma vez, os assassinos eram policiais militares, que na ocasião também mataram o adolescente Igor de Souza Afonso e feriram Wesley Moraes, irmão de Juan, que agora está no programa de proteção e testemunhas do Ministério da Justiça.

No estado de Goiás, 19 policiais militares foram acusados de integrar um grupo de extermínio que teria efetuado mais de 50 de execuções. A maioria dos crimes ocorreu em Goiânia e no entorno de Brasília. Entre os suspeitos está o subcomandante geral da Polícia Militar de Goiás, coronel Cézar Macário. O líder da quadrilha era o tenente-coronel da PM goiana Ricardo Rocha. Além dos militares, oito autoridades estão sob investigação da Polícia Federal (PF), entre eles o ex-secretário de segurança pública do estado e o ex-secretário da Fazenda estadual. O PM Ricardo Rocha tem fama de ser o maior matador de Goiás, já tendo tirado a vida de mais de 100 pessoas. Ele afirma que as mortes foram “apenas” de criminosos e em serviço.

Esta semana mais uma revelação aterradora: uma adolescente de 14 anos passou quatro dias em um estabelecimento penal em Santa Izabel, no Pará onde foi estuprada por vários detentos. Segundo a adolescente, outras três menores também teriam sido levadas à Colônia Agrícola Heleno Fragoso. As meninas teriam sido aliciadas por uma mulher que as levou para manter relações sexuais com os detentos em troca de dinheiro. Relatórios apontam que essa não foi a primeira vez que menores foram levadas para encontros com detentos. A ausência de fiscalização e punição das autoridades envolvidas no caso impressiona. Qual pode ser o nível de segurança em uma prisão, se pessoas entram e saem sem o conhecimento dos agentes e diretor. Ou será que sabiam?

É inconcebível que haja tantos crimes impetrados pelas autoridades policiais. A audácia e descuido nos ilícitos cometidos por policiais demonstram a certeza da impunidade. Em um país com poderosas organizações criminosas, traficantes, grileiros, assaltantes e seqüestradores, não faltam inimigos à paz e segurança do povo brasileiro, o que fazer quando as pessoas que são designadas para nos proteger assumem também o papel de bandido? A quem o povo poderá recorrer quando se sentir ameaçado ou enganado? Quem fará o papel de mocinho?

Sabemos que nem todo policial é corrupto ou assassino, há sim uma grande maioria de policiais honestos e dedicados, mas com tanta violência para eles combaterem no Brasil, fica complicados que tenham também de investigar e combater seus próprios colegas, que deveriam ser seus companheiros e não seus inimigos. É necessário que os governos estaduais ajam com rigor na punição de policias envolvidos em crimes, desde o famoso “arrego” pago por traficantes em favelas do Rio de Janeiro aos crimes de assassinato e estupro. A conduta dos membros das forças de segurança deve ser impecável para o combate efetivo da criminalidade no Brasil. Os novos policiais devem passar por processo de seleção detalhados a fim de se evitar o ingresso de perfis “indesejáveis” para tal função. Os antigos policiais devem ser submetidos a avaliações criteriosas sobre suas condutas. A investigação dos crimes praticados por PMs devem ser meticulosas e as punições exemplares.

A degradação da imagem da polícia fortalece os bandidos e gera insegurança na população, e nos remete a tempos “obscuros” da história nacional, quando as autoridades prendiam, torturavam e matavam, impunemente na maioria das vezes, o cidadão comum. É como dizia na letra da música “Acorde Amor” de Chico Buarque: “Chame o ladrão!”

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Copy Protected by Chetans WP-Copyprotect.