Governo brasileiro e ONU diluíram agenda da Rio+20, entrevista com Rubens Ricupero

Para ex-ministro, ausência de metas vem do receio de expor as contradições acerca das questões ambientais.

O governo brasileiro é atrasado em matéria de economia verde e, por isso, tem sido cúmplice das Nações Unidas na diluição da agenda da conferência Rio+20.

Quem acusa é o embaixador e ex-ministro do Meio Ambiente (1993-1994) Rubens Ricupero.

Um dos principais negociadores brasileiros na Rio-92, Ricupero, coordena um grupo de políticos, intelectuais e cientistas que deve encaminhar ao governo um documento que critica as baixas ambições do País nessa área, especialmente em comparação com China e Coreia, e pede a criação de um ministério da economia verde.

Em entrevista, ele manifesta o temor de esvaziamento da Rio+20. “Se você faz uma agenda modesta, está dando argumentos para que o pessoal não venha.”

Folha – O governo tem dito que a Rio+20 não pode ser comparada à Eco-92. Isso é medo de criar expectativa demais?

Rubens Ricupero – É receio de desapontamento e expressão das contradições que existem no governo em matéria de definições ambientais.

Como o governo é pouco claro nisso, procura acentuar mais temas econômicos e sociais.

Você nota isso no desejo de inserir a Bolsa Família como um dos êxitos brasileiros na luta contra a desigualdade, que estaria em um dos três pilares da conferência.

Não deixa de ser verdade, mas é preciso levar em conta que, no desenvolvimento sustentável, dois pilares, o econômico e o social, são definidos em função do ambiental.

A Bolsa Família é meritória, mas não tem muito a ver com ambiente.

De outro lado, há o receio de não conseguir repetir aquele êxito extraordinário.

Em 1992, a conferência começou com a assinatura de duas convenções-quadro da ONU, a de mudanças climáticas e a de biodiversidade, coisas que você não pode repetir toda hora.

Não me surpreenderia saber que muitos chefes de Estado talvez não venham.

Folha – Mas o próprio desenho modesto da agenda da conferência não torna a Rio+20 à prova de fracasso, e portanto atrativa para os chefes de Estado?

Rubens Ricupero – Se você tem medo de que não dê certo e por isso começa a diminuir a expectativa e faz uma agenda modesta, está dando argumentos para que o pessoal não venha.

É difícil que essas figuras que estão batalhando com a crise do euro venham se a conferência for só uma declaração.

Talvez esse formato de reunião já condene a um anticlímax. Uma comemoração nunca é a mesma coisa, é uma evocação, não uma repetição do fato.

Folha – Então não havia como a agenda da conferência ser mais ambiciosa do que ela é?

Rubens Ricupero – Você poderia fazer uma coisa honesta. Admitir que a conferência talvez não conseguisse resolver todos os problemas, mas dizer: nós não vamos varrer para debaixo do tapete os problemas que nos ameaçam, que são a questão climática e a do ritmo acelerado de extinção da biodiversidade.

Uma maneira de fazer isso foi aventada pelo ex-senador americano Tim Wirth, que era subsecretário de Estado dos EUA na Eco-92.

A ideia era adiar a Rio+20 para o fim do ano, e que ela fosse antecedida pela Convenção do Clima e a da Biodiversidade. O pessoal ficou apavorado (risos). Com medo de que elas dessem em nada.

Nos documentos que o PNUMA – Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, preparou para uma reunião há duas semanas, havia um sobre como medir avanço ou retrocesso em tudo: camada de ozônio, tóxicos, aquecimento, extinção. Isso permitiria saber para onde as coisas estão indo.

Indicadores de desenvolvimento sustentável.

Rubens Ricupero – É. Se tivesse havido coragem, poderiam ter preparado uma reunião que não escamoteasse a gravidade dos problemas.

O que se está procurando fazer, e não somos só nós – a conferência é da ONU – é disfarçar isso.

Folha – Como isso se manifesta?

Rubens Ricupero – Uma das formas é a diluição da agenda. O governo brasileiro diz uma coisa que é difícil de criticar em si: que o desenvolvimento sustentável tem três pilares, o ambiental, o econômico e o social.

Mas a forma como isso está se traduzindo é que tudo entra na agenda, até a reforma do sistema financeiro.

O problema ambiental, que na verdade é a razão principal, acaba sendo um entre 678.

Folha – Houve sequestro da agenda da conferência pela agenda do governo brasileiro?

Rubens Ricupero – Não. A ONU baixou o nível de expectativa. O Brasil só se aproveitou disso. O governo é atrasado no tema de economia verde, a maioria das pessoas nem compreende esse conceito, há contradições.

O maior exemplo é o Código Florestal. Estamos na véspera da conferência com esse pessoal ruralista querendo votar uma coisa que é a negação da conferência. Como o governo tem essas contradições, a saída é diluir.

Folha – A ministra Izabella Teixeira, do Meio Ambiente, disse que ninguém tem mais credenciais verdes do que o Brasil.

Rubens Ricupero – Isso é em parte verdade, por causa do etanol, das hidrelétricas.

Mas tem outro lado. Estão fazendo mais termelétricas. O governo nunca conseguiu fazer um plano de transição para uma economia de baixo carbono.

A única medida de política econômica que eu conheço que o Brasil tomou nos últimos anos com um conteúdo ambiental foi o favorecimento a produtos de linha branca – eletrodomésticos, que economizavam energia.

O que você não tem é um projeto de país, de governo, em direção à economia verde, como a China está fazendo, com investimentos pesados em inovação.

No dia em que eles tornarem a energia solar competitiva, vamos ter de comprar deles, porque eles estão investindo, nós não.

Folha – Por que não?

Rubens Ricupero – Falta um lugar onde se possa pensar essa política, porque isso não é uma política do Ministério do Meio Ambiente.

Você precisa integrar o conceito de baixo carbono no planejamento econômico. Mas você tem planejamento econômico no Brasil onde?

Entrevista na Folha de S.Paulo

Socializada pelo Jornal da Ciência / SBPC, JC e-mail 4454.

EcoDebate, 15/03/2012

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