A CULTURA DA VIOLÊNCIA E A VIOLÊNCIA DA CULTURA.

 

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A violência no Brasil não uma obra dos dias de hoje, vem dos tempos da colonização quando os colonizadores portugueses adotaram uma política de extermínio das tribos indígenas que não compactuaram com as forças de ocupação. Um exemplo desta postura é apresentado abaixo, em trecho de carta (em Português da época) das autoridades portuguesas que administravam as Minas de Cuiabá. Esta carta faz parte do acervo coletado pelos pesquisadores da UFMT, Eliane Maria de Oliveira Morgado, Nileide Souza Dourado, Otávio Canavarros e Vera Lúcia Duarte Macedo, consolidado na publicação “Coletânea de Documentos Raros do Período Colonial (1727-1746)”.

“Comendada pelo thenente Mestre de Campo general desta Capitania, Manoel Rodrigues de Carvalho, chegarão em dezanove de fevereiro do presente anno, a tropa vinda de povoado perparada com monisois de guerra, armas, pólvora, e bala, pesas de artilharia, que por ordem de vosa Mag.de, conduzidas para estroamento vigoroso do castigo das ferozes barbaridades com que os gentios payguazes e seus confederados cavaleiros, e guaicurus,…” 1734, Abril, 11,Cbá – Carta dos Oficiais da Câmara de Cuiabá (Portugueses) ao Rei de Portugal.

Não temos a necessidade de citar as barbaridades cometidas contra os africanos tornados escravos, oprimidos, violentados e perseguidos, parte vergonhosa da nossa história amplamente documentada e de conhecimento público, mas que somada à perseguição e extermínio dos povos indígenas, caracterizam um passado de muita violência, que marcaram os séculos de colonização. Desta fase derivam os capitães do mato, os jagunços, os coronéis que geraram a mentalidade da perseguição, opressão e extermínio dos mais fracos, refletindo-se nos dias de hoje nos grupos de extermínio, polícias mineiras, matadores de aluguel e nos atuais milicianos.

Eliana Souza Silva, Diretora da ONG Redes da Maré e da Divisão Integração Universidade-Comunidade da UFRJ, escreveu recente artigo no O Globo onde cita: “A morte da policial Alda Rafael Castilho, de 27 anos, causa indignação e tristeza, sim a todos que trabalham para a diminuição do quadro de violência em que se encontra o Estado do Rio de Janeiro. Assim como a morte de Gabriel Lelis da Silva Barbosa, de 14 anos, e de Jefferson Moreira da Jesus, de 24, em operação policial na Maré, no dia 23 de janeiro. Vivemos num estado em que as pessoas gastam uma energia significativa observando qual a morte é mais reconhecida e valorada. E isso, sem dúvida, é tão violento e indigno quanto a barbárie explícita que vivenciamos no nosso cotidiano” (Grifo Nosso).

Bem, conectar estes elementos do hoje e do passado faz parte da necessária reflexão para compreender parte do cenário de violência no qual hoje estamos inseridos, particularmente no nosso Rio de Janeiro, que pouco evolui em termos de pacificação, mesmo com as chamadas UPPs.

Caminhamos de Candelárias em Candelárias, de Vigários Geral em Vigários Geral e de barbáries praticadas pelos bandos armados do tráfico de drogas e do crime organizado, muitas vezes em combates fratricidas ou no enfrentamento às forças policiais – é o mesmo dilema apontado pela Professora Eliana Souza Silva, numa escala maior, mas com o mesmo significado da banalidade da violência, que vitima geralmente os inocentes e os mais fracos.

Buscamos referenciar esta análise na isenção dos momentos de forte emoção, como a morte do cinegrafista da TV Bandeirantes, Santiago Andrade, que quase de imediato gerou especulações e propostas de aumento de penas, tipificação de crimes de terrorismo e até mesmo a criminalização do uso de máscaras – absurdo do ponto de vista da evolução da história da humanidade rumo aos direitos da pessoa humana, inclusive o direito de não gerar provas contra si mesmo e outros correlatos, mas que agora, no calor do debate, e porque não dizer, das mazelas da demagogia eleitoral, bem e mal intencionados se confundem no deleite da desinformação e da exploração da comoção pública.

Bem, porque Cultura de Violência e Violência da Cultura – a primeira é a expressão dos comportamentos violentos que verificamos no nosso cotidiano, infelizmente, e a segunda é a propagação de imagens e conteúdos que reverberam estes comportamentos nas diversas mídias, num círculo vicioso que precisa ser quebrado, de modo que as novas gerações tenham acesso a outro tipo de informação capaz de reverter nos corações e mentes a Cultura da Barbárie.

Violência se transformou em mercadoria em programas de TV, calcados na exploração da desgraça humana, nos tabloides sensacionalistas e mesmo nas produções de Hollywood, todas estas expressões ligadas à ganância por público, por altos IBOPES e no fim por lucros, insensíveis ao sangue que gera todo este volume de dinheiro. Assim, nossa infância e nossa juventude se deleitam com massacres programados nas lutas do UFC e MMA´s da vida.

O incidente envolvendo o lutador de MMA Anderson Silva é uma demonstração do quanto a Humanidade ainda tem que evoluir – esta modalidade de “esporte” é um incentivo tresloucado a toda sorte de violência contra a pessoa humana – É DE FATO A INSTITUCIONALIZAÇÃO GLOBAL DA VIOLÊNCIA” atendendo a grandes interesses comerciais.

É nesta verdadeira insanidade coletiva que reside todas as formas de violências e violações dos Direitos da Pessoa Humana – vejam o caso da violência no jogo entre o Vasco e Atlético do Paraná e a morte recente do torcedor do Santos trucidado por um bando assassino e as perseguições aos homosexuais – os baderneiros e agressores são em sua maioria fãs ou mesmo lutadores de MMA e correlatos – os mesmos que praticam violência nas boates e bares envolvendo pseudo esportistas (na realidade marginais).

Não se trata da luta do bem contra o mal – a sociedade E OS GOVERNOS tem a obrigação de rever estes conceitos – as forças policiais tem a missão de proteger o cidadão, tanto sendo ele de Ipanema quanto sendo da Comunidade da Maré, tanto em favela pacificada como em não pacificada.

Ser duro com bandidos não é sinônimo de violência contra os mais fracos e desprotegidos – que se use a inteligência e a tecnologia contra os “fora da lei”, sejam eles traficantes ou criminosos de colarinho branco, só assim, se colocando ao lado da sociedade, principalmente dos nossos irmãos mais desprovidos em função do abandono por parte do Estado, os agentes da lei serão reconhecidos como seres humanos capazes de cuidar de seus concidadãos – não será pelo caminho do terror que a ordem será restaurada.

Portanto não à Cultura da Violência e à Violência da Cultura.

BARBÁRIE NOOOO!!!!!

 

Eng. Everton Carvalho – Presidente da ABIDES

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